Ribeirão-pretano Álvaro deu vida para Celeste e Godofredo, do Castelo Rá Tim Bum

Bum, Bum, Bum! Tim, tim, tim! Caaaaaasss! Bum, bum, bum: Castelo Rá Tim Bum!

A história começa. Mas neste episódio o personagem principal não está na tela. Está por dentro, escondido atrás da árvore ou do cenário, dando vida aos personagens.

Celeste e Godofredo saem de uma mesma história, das mesmas mãos, da mesma voz, em tons diferentes. Qual é a senha de hoje? Plift, Ploft, Stil: a porta se abriu!

 

Era uma vez um menino que, bem cedo, descobriu que não seria alguém de história comum. A família tinha certa expectativa. Há gerações, o comércio fora herança. Mas aquele menino, bem pequeno, soube que essa não seria a sua trajetória.

Outras coisas lhe arregalavam os olhos e ouvidos. Ele sempre foi da música, do desenho, das artes. Hoje, aos 60 anos, não tem dificuldades ao se definir:

– Eu sou um artista!

E entende os percursos que, antes, pareciam estranhos.

– Agora, eu consigo amarrar essas coisas todas. Antes, eu era só um personagem. Hoje percebo que tudo tinha uma ligação, desde o começo.

Diz, sentado no sofá do salão de um prédio no Centro de Ribeirão Preto, local para onde está sempre a voltar para visitar sua família.

Seu rosto pode não ser tão conhecido: regra do jogo com os bonecos. Mas os personagens que ganharam vida pelas suas mãos e vozes ainda fazem parte de muitos imaginários e nos levam a outros mundos, repletos de histórias incomuns, como a dele.

Álvaro Petersen deu vida à Celeste e ao Godofredo, personagens do Castelo Rá Tim Bum, queridos Brasil afora. Atuou por 14 anos no Cocoricó, manipulando os bonecos da vó, índia Oriba e Dito, além de dar vida a bonecos de muitas emissoras.

Começou na TV Cultura como Pedrinho, do programa Bambalalão, e só saiu 28 anos depois. Ele também é músico, com dois discos gravados e um número incontável de projetos e shows. Um artista, como diz, está sempre em movimento!

Você sabia que os muitos artistas que trabalharam no Castelo Rá Tim Bum passaram dois anos gravando, em tempo quase integral? Que a Celeste foi inspirada em uma das produtoras do seriado infantil?

Os produtores queriam que uma artista mulher interpretasse a cobra, mas, quando Álvaro fez o teste, a personalidade da personagem estava criada!

Na história do ribeirão-pretano se misturam outras muitas histórias dos personagens que constrói com observação e criatividade. Álvaro entende que tudo é história.

– A história é o único legado humano. É a forma de comunicação humana. O boneco, para ser verídico, tem que ter uma história: pai, mãe, quem goste, quem não goste. Um universo pessoal.

Era uma vez um ribeirão-pretano que deu vida a muitas histórias, que, na imaginação de cada um, fizeram nascer outras tantas histórias – e continuam!

Essa é apenas uma delas. Uma versão entre as muitas possíveis.

A história real, afinal, é episódio sem fim.

Alvaro Petersen Celeste Castelo Ra tim Bum

Álvaro vai logo dizendo:

– Minha história começou bem antes de mim, com meus bisavós imigrantes! São tantas histórias dentro da história… Você vai precisar de alguns parênteses!

Sua família tem origens na Áustria, Alemanha, Itália, com a trajetória de imigração vivida por cada povo. Seus pais fixaram sede em Ribeirão Preto, onde Álvaro nasceu como o primeiro de seis filhos.

– Eu estou falando tudo isso por quê? De onde a gente sai? Da onde a gente vem? É nossa história!

Seus avós comerciantes foram passando o legado para os filhos. Álvaro ressalta, porém, que a veia artística também é coisa de família. O avô materno era barbeiro e músico.

A música parece, então, ter nascido junto com ele. Desde pequeno, já gostava dos acordes, de desenhar, de arte.

Estudou no Colégio Marista e garante que, mais que o ensino, a banda Marcial é que fez a diferença. Tocava marimba, um instrumento de percussão com origem angolana. Diz que vem daí sua noção rítmica.

– Imagine aprender a tocar no meio da rua e a marchar? Marcar com o pé?

Aos 12 anos, ele ganhou seu primeiro violão da mãe, grande incentivadora. Com entre 16 e 17 anos, participou de um concurso de música em um colégio e conheceu o amigo Kiko Zambianchi, compositor brasileiro que, na época, também era adolescente. Tiveram uma dupla, fizeram shows e eram chamados de “doidões” por quem os via.

– A gente vivia na rua, de sandália havaiana e violão nas costas. Ensaiava nas praças. Só estávamos trabalhando!

Alvaro Petersen Celeste Castelo Ra tim Bum

No final dos anos 70, a pressão pela escolha de uma faculdade pegou forte. Kiko decidiu seguir fazendo música. Álvaro prestou Física, na Unicamp.

– Você não ia só fazer faculdade. Ia ampliar todos os sentidos do seu corpo, da sua mente. Se não fizesse isso, não sobrevivia.

Para um jovem do interior, estar na universidade pública foi como entrar em um novo universo.

– Eu estudava com o Marcelo Rubens Paiva. O cara tinha um discurso contra a ditadura, pelo que aconteceu com o pai dele, e eu mal sabia o que era isso.

Com a história de música e arte que escrevera até ali, porém, não teve dificuldades para ampliar a visão. Em 1981, percebeu que não queria ser físico e entrou em Arquitetura.

A música continuava presente em todo caminho. Teve bandas de rock e diz que, em 1983, pôde escolher buscar o caminho da fama como artista.

– Eu nunca gostei do rock dos anos 80. Não queria fazer esse rock. Decidi que não iria.

Conta, porém, que um ‘tsunami” cultural estava passando na época.

– Quando isso acontece, você tem que ir. A vida te faz andar.

Alguns amigos já participavam de programas da TV Cultura, que vinha com a proposta educativa, e convidaram Álvaro para um teste. Ele relata que demorou algumas semanas para aparecer, ressabiado com a possibilidade de fazer programas infantis.

Quando, finalmente, apareceu, não foi mais embora. Conta que, chegando à emissora, foi recepcionado por uma artista, que trocava de roupa e foi logo lhe dando bronca por chegar atrasado, entre críticas a sua forma de se vestir.

Em um mês, ele estava atuando em tempo integral na televisão como Pedrinho, do programa Bambalalão, havia trancado o curso na faculdade e se casara com a artista da bronca.

Alvaro Petersen Celeste Castelo Ra tim Bum

Álvaro diz que o personagem Pedrinho foi criado no improviso, no dia em que fez o teste na TV Cultura. Entrou ao vivo, em rede nacional.

– Hoje é diferente! Tem o perfil dos personagens. Mas o Pedrinho eu inventei na hora. Peguei o violão, comecei a tocar uma música minha e o professor Parapopó já falou: ‘Esse é meu sobrinho. Ele veio para ficar’. Todo mundo achava que eu era mesmo sobrinho dele!

Ficou por quatro anos no programa, que acabou em 1990. Sem muito rumo, após esse tempo se dedicando apenas à televisão, decidiu terminar a faculdade e começou um curso de cenografia, quando foi chamado para participar do elenco do Castelo Rá Tim Bum.

Diz que, em 1992, já tinha experiência na manipulação de bonecos, modalidade com poucos artistas capacitados. Manipulou seu primeiro boneco atuando no programa Bambalalão. Uma boneca, no caso. Vandernuza, fã dos personagens do programa inspirada nas fãs reais.

Ele conta que era para sua esposa dar vida à personagem, mas quando ela o espiou “brincando” com a boneca e levando o maior jeito, disse que ele seria o intérprete. E Álvaro descobriu um talento nato para a arte.

– A primeira vez que eu tive uma fonoaudióloga foi no ano 2000!

O Castelo foi financiado por Lei de Incentivo Fiscal, conforme ele relata. Por isso, são 90 episódios, feitos sob medida. Diz, ainda, que a série era apenas uma fatia do projeto todo, pensado por comunicadores.

– A Cultura contratou os melhores artistas, o que tinha de mais legal. Eles priorizavam a vanguarda!

Passou primeiro no teste para o Godofredo, vilão amado do Castelo, parceiro do monstro Mau. Os produtores queriam uma manipuladora mulher para a cobra Celeste.

– Cobra não fala. Quem disse que tem que ser mulher?

Decidiram, então, deixá-lo tentar. A inspiração veio de sua chefe na TV.

– Ela é carioca, tem um jeito devagar de falar. O importante no boneco é sempre fazer a mesma voz e, para isso, é preciso ter referência. Ela era a referência!

Começaram a filmar em 1992. Álvaro conta que as gravações eram de segunda a sábado, sem parar. Como tinha dois personagens, passava o dia todo no estúdio, sem saber “que horas eram”, em suas palavras.

Quando assistiu ao primeiro episódio já editado, em 1994, teve noção da grandiosidade do que estava fazendo:

– O Castelo exigia uma proposta tecnológica que não existia na época! Foi um grande trabalho de toda a emissora. A gente não tinha ideia de como iria ficar, porque todos os quadros eram gravados separados. Quando vimos o primeiro, tivemos a certeza: ‘Vai arrebentar!’.

Para Álvaro, o Castelo Rá Tim Bum foi um marco na televisão brasileira, criando a profissão manipulador de bonecos e valorizando essa arte.

– Assim que estreou, toda emissora de TV queria um boneco!

Chegou a trabalhar em cinco emissoras ao mesmo tempo. O fato de não mostrar o rosto, e sim dar vida em diversas vozes aos bonecos, tornava isso possível.

Em 1997, ele passou a integrar a equipe do Cocórico, onde ficou até 2014. Junto a esse trabalho, fez muito teatro de bonecos, muita música, integrou diversos projetos!

Em 1983, em parceria com Kiko Zambianchi, lançou um compacto simples. Em 2012 e 2014 lançou outros dois discos, com músicas autorais. Uma delas, leva o nome da árvore “Sibipiruna”, com inspiração na avenida Nove de Julho.

Álvaro vem a Ribeirão Preto, pelo menos, uma vez ao mês. E reclama que o artista local, por mais longe que voe, não é valorizado.

– A gente precisa falar bem de quem leva o nome da cidade!

Na vida pessoal, teve três companheiras e nenhum filho biológico.

– Não tive filhos, mas eduquei muitos. Porque sempre tive essa ligação com a educação. Os programas eram educativos.

Hoje, além da atuação cultural, dá aulas em universidades, ensinando cenografia, teatro, entre outros conhecimentos que mesclam a arte com a arquitetura, compartilhando a bagagem que não cabe em mala alguma.

Para Álvaro, dar vida a um boneco é um processo de construção muito além de mexer a mão e mudar a voz. Constrói a história do personagem e faz terapia com ele.

– A gente junta os colegas para trabalhar os personagens. Assim como uma criança que inventa histórias, você constrói um personagem verídico. Quando vai acessá-lo, pega tudo isso e veste.

Cada personagem, assim, tem uma personalidade própria.

– Se você quiser entrevistar meu personagem, precisa falar com ele. Eu não faço a menor ideia do que ele vai te responder.

Já trocou roteiros que colocavam palavras que seus bonecos jamais falariam. Quem assistiu o Castelo sabe bem, aliás, que Celeste e Godofredo esbanjam autenticidade. “Noooossaaa!”, a cobra cor de rosa teve até jargão.

A entonação da voz, ele explica, é feita de acordo com a estética do personagem.

– Se a boca do personagem é maior, ele abre mais e é mais fonético. Se é menor, abre menos.

Com a maior parte de seus personagens femininos, ele relata que a observação desse universo é sua grande inspiração. Nesse sentido, as três companheiras que teve estão nos detalhes das personagens que interpreta, não há dúvidas.

– O personagem é feito pela observação!

Hoje, se inconforma com os caminhos tomados pela TV Cultura.

– Todo mundo começou na TV Cultura. Era uma incubadora cultural. Hoje, é politicagem. Virou um cabide de indicações. Foram desmontando, sucateando a emissora. E o que as pessoas estão fazendo? Isso é seu! É estatal! Não tem programas porque você não faz. Eu fiz. E quem disse que foi fácil?

Acredita, aliás, que o artista é um ser incomodado.

– O artista se incomoda. Por isso a arte é uma expressão da sociedade. Ela é uma forma de resolver esse incômodo, assim como a pérola é o incomodo da ostra. O artista é atormentado? Não! É incomodado. É isso que o move!

E, então, entende a vida como aquele “tsunami” que o levou para a TV lá na década de 80.

– A vida é inexorável. Ela vai seguir, independente de você. Então, que você seja um meio de seguir com a vida. Ela vai te usar, te requisitar até o fim. E você tem que estar a serviço dela.

Dando voz aos personagens, dá vazão às suas loucuras. Mesmo se anulando, de alguma forma.

– O centro do ator é o ego dele. Ele está a serviço disso. O boneco é o contrário. Há um momento em que você se anula. O foco não é em você. É preciso focar no meio do seu peito, para que fique real.

Carrega em sua história outras tantas histórias que, na imaginação de tanta gente, já são eternas.

– Você cria personagens e eles passam a ter vida. Tudo é história porque a vida é assim!

Bum, Bum, Bum! Tim, tim, tim! Caaaaasss! Bum, bum, bum: Castelo Rá Tim Bum!

Quem não viaja quando a música do castelo começa a tocar? “Noooossa, Nino!”, é a cobra Celeste quem fala? Ou será Álvaro que dá vida a mais uma história?

Era uma vez um ribeirão-pretano que fez da imaginação sua morada. Assim, deu vida a histórias que não tem fim. A sua própria, aqui eternizada.

 

Foto de destaque: História do Dia
Fotos internas: arquivo pessoal

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