Rita voltou a estudar aos 56 anos, se tornou professora e escritora premiada

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Para ouvi-la, é só clicar no play: 

 

Está tudo transformado em versos: a janela, as roseiras, a terra, a coragem que nasceu menina, o sertão “de Guimarães Rosa”, como Rita traduziu.

Era da janela da casa de fazenda que ela enxergava a vida. Mas não limitava o pensamento ao que os olhos podiam alcançar. Já pequenina, sabia que, para lá do horizonte, moravam outros mundos. Uma porção deles. Debruçada ali, se punha a sonhar.

– Mesmo sem informação, eu já tinha dentro de mim que o mundo não era aquele à minha volta. Que havia muita coisa a ser descoberta.

Está tudo transformado em versos: a vontade de sair e a realização. Os sonhos conquistados e a saudade perene da janela que, depois de transposta, se tornou memória.

Era a primeira aluna da sala. Bem pequena, já escrevia, declamava poesias e a professora chamou o pai: “A menina tem que estudar”.

Rita Mourão precisou esperar até os 56 anos para realizar o sonho das palavras. Ao invés de se aposentar, quando a idade chegou quis realizar sonhos.

Se casou aos 19, viveu no sertão mais ermo de Guimarães, educou e encaminhou os sete filhos e, quando o caçula se casou, decidiu que chegara, finalmente, a hora. Voltou para a escola, concluiu o Ensino Médio e, por volta dos 62 anos, passou a dar aulas de Produção e Interpretação de Texto. Foi professora por 16 anos.

– Eu acho que não se deve aposentar aos 60 anos. A não ser de um trabalho pesado. Fui batalhar depois dos 60. Tive uma vida completamente ativa!

Antes mesmo de retornar para a escola, tendo o primário e muita leitura na bagagem, ganhou primeiro lugar em um concurso estadual da Academia de Letras e Artes de Jundiaí.

Publicou seu primeiro livro aos 63 anos, que já nasceu premiado. Hoje, soma seis livros de poesia, um de crônicas e uma lista com dezenas de premiações e monções. Diz que são mais de 100! É membro da Academia Ribeirão-pretana de Letras, da União Brasileira de Escritores, da Casa do Poeta e Escritor de Ribeirão Preto e da União Brasileira de Trovadores.

Foi professora homenageada na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto em 2016. Não deixou de ir à solenidade mesmo após o tombo que terminou com fêmur quebrado, três dias na UTI e lhe deixou meses sem poder andar. Foi na cadeira de rodas mostrar sua gratidão pela homenagem.

Agora, aos 85 anos, continua escrevendo, mesmo com as dores no corpo causadas pela osteoporose. Dá um jeitinho de driblar o tempo, encontrando outro horizonte, em novas janelas.

– Você se realiza quando não deixa sonhos escondidos, luta por eles. Deve ser muito triste chegar na minha idade e não ter feito o que quis.

 

RAÍZES

Sou parte do Grande Sertão de Guimarães Rosa.

A terra me medra,

as árvores me enraízam, os pássaros me gorjeiam.

Caminho pisando folhas que me desfolham.

Sou exercida por savanas e meu cheiro é agreste.

Por isso minha alma canta,

contaminada pela Natureza que me define.

Rita Mourão

 

A Rita menina sonhava em estudar. Nasceu e cresceu na fazenda, em Piumhi, Minas Gerais, às margens do São Francisco. Começou a ser alfabetizada pela mãe, lendo o jornal e sonhando com as tantas coisas que via nas páginas. Entrou na escola aos nove anos, já sabendo ler, escrever e fazer rimas.

Naquele tempo, porém, a prioridade era outra. O pai, que nunca pôde estudar, até a deixou ir para a cidade terminar a quarta-série. Depois que ela conseguiu, porém, ele entendeu que já estava bom de estudos. Dizia “você já tem um diploma”, e encerrava o assunto.

De volta à fazenda, Rita começou a alfabetizar as crianças que ali viviam, deixando sair a ânsia pelas palavras.

– Toda vida eu tive vocação!

Aos 19 anos, se casou.

– Aí, foi sertão.

Foi morar com o marido para lá de Piumhi, sem sequer água encanada. Foi a única época da vida em que não pôde ler, distanciada da cidade e dos livros.

– Foi um pedaço difícil. Mas foi tudo aprendizado. Não tenho mágoa e nem do que me queixar.

Teve o primeiro filho aos 20 anos e o sétimo, e caçula, aos 30.

– O pessoal fala: ‘Não tinha TV?”. Mas não era só isso, não. Não tinha anticoncepcional!

Quando os filhos estavam crescidinhos, se mudou com eles para a zona urbana, para que pudessem ir à escola. Voltou, então, à rotina de leituras, pautada pelas tarefas dos pequenos. Lia os clássicos e todo o conteúdo paradidático que as professoras passavam. Vai enumerando:

– Graciliano Ramos, José de Alencar, Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Ligia Fagundes Telles.

Mudaram para Ribeirão Preto em 1970, quando ela já estava com 36 anos. As coisas na fazenda não prosperaram e decidiram tentar melhorar a vida por aqui.

– Cheguei com sete filhos para encaminhar.

E assim o fez. Mas sem deixar o sonho esquecido. Voltou a escrever, ora guardando os registros, ora se inscrevendo em concursos com eles.

O marido trabalhava como segurança. Ela costurava para fora. Só parou com a costura quando começou o supletivo, em 1990.

– Eu queria aprender.

Rita Mourão escritora

Não podia deixar de ganhar, porém. E começou, então, a fazer e vender bolos e pães de queijo, com toda gostosura mineira. Levava nas aulas e cativava as colegas.

– Eu já fiz de tudo, lutei de todo jeito. Sempre fui independente, tive meu dinheiro.

Cursou da 5ª à 8ª série no supletivo e fez o magistério no Otoniel Mota. Conta que, com pouco tempo de aulas, já era assistente da professora do Português.

Assim que terminou a formação, foi contratada pelo colégio Metodista. Diz, toda orgulhosa, que durante os 16 anos em que esteve lá publicou 14 ontologias, feitas com a produção dos alunos. Só parou com as aulas aos 76 anos.

– Eles não queriam que eu parasse. Os alunos gostavam muito. Eu amava aquilo que eu fazia. Era meu sonho de criança. Então, eu trabalhava muito bem.

 

OUSADIA

 Quis prender a manhã entre meus dedos.

Arisca ela se embrenhou nas cavernas do universo.

E eu desapontada me vi vestida

de versos crepusculares.

Rita Mourão

 

 

0   Rita conseguiu mudar olhares, reverter tendências.

– Eu era meio rebelde. Achava que as mulheres tinham que ter o direito delas.

Quando disse que iria voltar a estudar, o marido não levou a sério. Depois, quando percebeu que, mais que sério, era um propósito, ele mudou o jeito de agir.

Esperava Rita do trabalho com as refeições preparadas, adorava cozinhar as sobremesas e, quando iam à Minas, enchia o peito para contar as conquistas da poetisa à família.

– Ele dizia: ‘Ritinha ganhou mais um prêmio’.

As dificuldades ficam resumidas à pequenas pausas em suas orações. Prefere pontuar a histórias com as tantas conquistas.

– Eu nasci desde pequena com esse dom de escrever, mas se não tivesse lutado, teria parado ali. Deus dá a inspiração, mas é você quem desenvolve, busca.

Em sua escrita, coloca o cotidiano, em toda sua profundidade. Uma flor é desdobrada em cores e formas. Os cheiros da fazenda formam a saudade.

– Eu coloco na minha poesia assuntos diversos. Gosto muito de falar sobre a palavra, porque é uma coisa viva. Através da palavra, você aprofunda seus sentidos. E falo até de amor. Por que não? Tive sete filhos! Entendo de amor também!

A família grande que construiu – sete filhos, 16 netos e seis bisnetos – está entre as grandes realizações da trajetória.

Teve paciência de esperar a hora e determinação para não a deixar passar. Pôde, então, ampliar a história: de menina sonhadora, passou a dona de casa, mãe e, enfim, professora e escritora premiada. É muita história para virar poesia!

– Eu dizia: um dia, vou mudar minha vida.

Acabou? Ela garante que não. O corpo já mostra os sinais do tempo, não há como negar. E ela briga com isso. Se chateia com as dores, que não refletem a mente pulsante.

Logo, porém, retoma a energia que mora em cada palavra.

– Tenho muitos sonhos ainda! Logo, eu invento outra coisa!

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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INFÂNCIA

 Tantas vezes retomo os velhos caminhos

à  procura de alívio  para meu mal sem cura.

Revejo o quarto de água-furtada,

a  janela, a roseira florida e dentro do quarto

a  menina que tecia sonhos e questionava limites.

Foram  meus, somente meus, aquele verde espaço,

os  braços do horizonte a me acenarem liberdade

e  bem à minha frente, uma porteira a dividir dois polos.

Do meu mundo imaginário venci a primeira divisória.

Hoje, a quilômetros de distância,

ainda  vislumbro o verde espaço e a porteira.

Do lado de dentro, de saia curta e fita nos cabelos

a infância me acena.

Sem chave!

Rita Mourão

 

 

Comentários
  • Auta
    Responder

    Muito bem retratada a historia desta mulher inspiradora, de uma energia e personalidade admiravel, que tive oportunidade de conhecer e partilhar amizade! Parabéns Daniela Penha! Sucesso

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