Rodrigo, que nasceu no circo, é o primeiro palhaço brasileiro do Tihany                

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RESPEITÁVEL PÚBLICO: vai começar a história! Silenciem as redes sociais e atenção às letras. Com vocês, o palhaço!

 

Nem 5 minutos de espetáculo e Rodrigo já está arrancando gargalhadas do público. Não fala uma só palavra em duas horas de show. A sintonia é feita com gestos, um apito, altas doses de sensibilidade e uma vida inteira dentro do circo.

O “inteira” não é exagero. A história que ele carrega começou há gerações. Seu tataravô já trabalhava no circo e foi passando a herança artística para toda a família. O bisavô fundou o Circo Garcia. O avô deu seguimento e seu pai é hoje parceiro de elenco no Circo Tihany, onde Rodrigo exibe o título de primeiro palhaço brasileiro já contratado pela companhia em 65 anos de história.

Em turnê pelo Brasil, o circo, que se apresenta como um dos três maiores itinerantes do mundo e o maior da América Latina, levantou as lonas em Ribeirão Preto há alguns dias. São cerca de 50 artistas, de 25 nacionalidades diferentes. Rodrigo é quem arranca gargalhadas ribeirão-pretanas noite após noite: sinal de que o trabalho está indo bem. Sem riso não há palhaço: quem é que não sabe? Ele aprendeu cedo.

Circo Tihany Ribeirão Preto

Cresceu no circo, vendo as mágicas do pai, as acrobacias da mãe e observando os outros palhaços. Diz que nunca fez curso. Não há aula melhor do que o picadeiro. E nem passatempo mais interessante.

– A brincadeira que as crianças de circo mais gostam é fingir que estão em um espetáculo.

Rodrigo, 39 anos, sempre gostou de imitar o palhaço.

– Eu já vi circo sem malabarista, sem trapezista, mas sem palhaço eu nunca vi.

Foi, então, criando o seu próprio. O personagem não tem um nome além de Rodrigo. É parte de si, afinal.

– O palhaço é o que eu sou. Eu não forço nenhum movimento. O personagem é quase eu mesmo. Tem que ser espontâneo. Não pode ser muito ensaiado. Tem que se aprimorar sempre, mas sem deixar de ser espontâneo.

Aos 19 anos, já era Rodrigo palhaço, nos palcos dos circos.

O circo de sua família fechou em 2002, logo depois que ele começou a atuar. Passou, então, por uma porção de outros picadeiros do Brasil, antes de chegar ao Tihany, três anos atrás.

Ele participa do espetáculo todo, se apresentando entre um número e outro, animando o público, trazendo crianças e adultos para o palco em atuações que pedem muito improviso. A montagem de um ringue com quatro homens da plateia é uma delas! Equilibrar pratos nas mãos de uma criança do público é outra.

– É arte. Como o cara que é um grande pintor: ele pode fazer escola para aprender, mas é um talento. É da pessoa, não se ensina.

Circo Tihany Ribeirão Preto

Que graça faz o palhaço quando não está no palco? Nas manhãs e tardes que antecedem o espetáculo, Rodrigo gosta de ficar “em casa”, curtindo a filha e a esposa.

Sua casa, entretanto, é livre como o artista de circo precisa ser. A família mora em um trailer, que comporta até mesmo o cachorro Doc. Porta-retratos, bibelôs, chinelos tirados na porta vão dando ao espaço o jeito de lar.

– Quer uma água gelada?

Para Rodrigo, não há espanto. Quando criança, morava no trailer com seus pais. Só prosseguiu com a tradição. Conta que alguns artistas ficam em hotéis.

– Mas, para mim, o trailer é mais casa. A minha casa tem o maior quintal do mundo, que é todo um circo para mim. Vocês têm um quintal desses?

A filha de 14 anos estuda nas escolas parceiras do circo. Em cada cidade que passam, uma escola diferente. A família também procura passear pelas cidades nos momentos de folga: rotina quase normal.

– A gente está junto, está perto. Isso é muito bom.

Em 19 anos de palhaço, ele conta que nunca teve férias. E não reclama. Não param nem mesmo no Natal e Ano Novo. Garante que não cansa e explica seus motivos.

– Quando eu entro para o show, é muito divertido. Talvez eu me divirta mais do que o público. É uma satisfação muito grande fazer as pessoas sorrirem. Elas vêm para esquecer os problemas da semana. Querem rir, principalmente.

Público que muda a cada show. Que é outro a cada nova cidade – e são muitas! Rodrigo conta que só fica sabendo qual será o próximo destino e quando deve partir dias antes de colocar a casa na estrada.

Na vida do palhaço, cada espetáculo é único, ainda que igual. Cada risada tem um som todo próprio. E é preciso sentir as respostas e improvisar.

– Para cada situação, há o improviso. E do improviso saem muitas piadas.

Improviso que chega até o idioma. Ele já trabalhou na Argentina e garante:

– Eu posso trabalhar em qualquer lugar do mundo, porque a mímica é universal. É a expressão corporal, facial.

Além dos palhaços com quem conviveu, se inspirou também em Chaplin – tem um bibelô do Gordo e o Magro no camarim – assiste filmes de Jim Carrey e é crítico consigo mesmo a cada fechar de cortinas.

– Às vezes você acha que não foi bem e saiu perfeito para o público.

Circo Tihany Ribeirão Preto

A maquiagem, que também aprendeu a fazer sozinho, é leve. Não altera os traços do rosto, o que faz com que as pessoas o reconheçam anos depois, como tem sido em Ribeirão. Passou por aqui anos atrás, com outro circo.

– As pessoas lembram! Elas falam!

Reconhecimento além das gargalhadas.

Um dos fascínios está no público diverso que consegue fazer rir. Da criança ao idoso: quem não se deixa contagiar com a alegria?

– O palhaço é uma forma de vida também. A vida de um palhaço é o personagem. O pensamento está sempre nele. Qualquer situação engraçada que você vê na rua, já pensa em levar para o palco. A vida do palhaço é a própria arte dele.

Por essas e tantas outras, não cogita parar. Pelo contrário! Para o futuro?

– Eu quero a mesma coisa, até quando der.

Não troca seu quintal por outro, para a alegria dos sorrisos que vai continuar arrancando.

 

Fecham-se as cortinas! É hora de partir, ainda embalados pelos encantos do espetáculo. Até a próxima estação. Até a próxima história!

 

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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