Sem o movimento das pernas, Luciane engravidou, criou três filhos e se formou psicóloga

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Esta história foi narrada pelos integrantes do projeto Doadores de Voz, dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unaerp.

 

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 29 de janeiro de 2018!

 

Luciane tinha 19 anos e um filho de sete meses quando o acidente aconteceu.

Se lembra da enorme ribanceira para onde o carro foi arremessado, da dificuldade em conseguir socorro na beira da rodovia, da dor.

O bebê que estava em seu colo não teve um arranhão sequer. Um dos motivos para sua gratidão.

Ela sofreu rompimento no fígado, perdeu o bebê que nem sabia, mas esperava na barriga e teve um amassamento de medula.

Luciane não se lembra da notícia. Foi descobrindo aos poucos, conforme ia tentando se mexer, que o acidente lhe tirara os movimentos das pernas.

Com o tempo, conseguiu recuperar a sensibilidade ao toque: mais um motivo para agradecer.

Passou um mês internada e, quando a alta veio, saiu determinada a trocar revolta por aceitação.

– Tem a fase do questionamento: ‘Por que eu?’. Até que um dia uma pessoa me falou: ‘Por que você não troca a pergunta? Passe a questionar: Para que eu?’.

Luciane Melo conta que, sem o movimento das pernas, engravidou outras duas vezes – e surpreendeu até mesmo os médicos que não pensavam ser possível.

Criou seus três filhos, trabalhou, cuidou da casa. Quando as crianças já estavam adultas, decidiu que era hora de realizar um sonho que ficara para trás.

Em 2011, aos 48 anos, se formou em Psicologia. Há cerca de um ano e meio, realizou mais um sonho e abriu o próprio consultório.

– As pessoas querem colocar na nossa cabeça que não somos capazes. E a gente passa a acreditar nisso. Tanto, que demorei todos esses anos para ver que era capaz, sim, de sair de casa e estudar. Hoje eu estou feliz e realizada.

Luciane Melo psicóloga Ribeirão Preto - História do Dia

Luciane nasceu no Mato Grosso, fez o magistério e na adolescência dava aulas, como permitido na época. Aos 17 anos, casou e veio morar em Ribeirão Preto com o marido.

Meses depois, engravidou do primeiro filho.

O acidente foi no final de 1982, quando o casal voltava de uma visita à família, em Dourados.

O apoio dos familiares, ela diz, foi a base para a recuperação em um cenário onde tudo era desafio.

– Eu aprendi a superar e a me adaptar: cozinhar, lavar, passar. Tem coisas que a gente acha que não vai conseguir fazer, mas faz.

Três anos depois do acidente, quando já conseguia se virar sozinha com os afazeres da casa, ela conta que engravidou do segundo filho.

– Para o médico, foi uma situação totalmente inusitada. Ele nunca tinha acompanhado uma gestação assim.

Bebê e mãe passaram por todo o processo com saúde. Tanto que, quando o filho tinha onze meses, ela engravidou de novo.

Diz que, no início, teve muito apoio da família. Mas, aos poucos, aprendeu a trocar, dar banho, amamentar, cuidar dos três sozinha, na cadeira de rodas.

Quando começou a época de escola, comprou um carro adaptado e aprendeu a dirigir para poder levar os pequenos às aulas.

Mas algo ainda estava faltando.

Luciane conta que sempre quis fazer Psicologia. Mas, em meio a tantos acontecimentos, foi deixando o sonho de lado.

A vontade foi resgatada quando os filhos já estavam adultos. Foram eles, aliás, o maior incentivo.

E foi preciso mais um tanto de aprendizado.

A faculdade apoiou: mudou a sala para o térreo, abriu estacionamento, colocou um funcionário à disposição para ajudar Luciane a descer do carro.

No horário em que ela chegava em casa, porém, não tinha ninguém para auxiliar. Mas desistir não estava mais nos planos.

Recrutou o guardinha que cuida da rua de casa para a tarefa diária. E ele topou ajudar.

– Antes de começar as aulas, eu fui três vezes até a porta da faculdade. Achava que não seria capaz, mas era porque eu não sabia pedir ajuda. Depois, percebi que todos estavam sempre dispostos a ajudar.

A formatura, em 2011, foi o “dia mais feliz da vida”, em suas palavras.

Luciane Melo psicóloga Ribeirão Preto - História do Dia

Há um ano e meio atuando no seu próprio consultório, Luciane conquista sonhos diários.

– Eu amo o que eu faço. Cada paciente é único e eu me desligo do mundo quando estou com um paciente. É uma troca de aprendizados.

Ela acredita que, num mundo de correria, ouvir é uma missão.

– Falar é fácil. Mas encontrar alguém disposto a ouvir é muito difícil.

Quer, então, continuar ouvindo e apoiando seus pacientes.

– Eu nunca estive tão feliz! Hoje, fazendo o que eu gosto, eu acredito que estou cumprindo minha missão.

Depois de tanto aprendizado, é tempo de ensinar.

– As pessoas que têm uma deficiência precisam entender que são capazes. Não estamos limitados. O que a gente precisa é de adaptação. Todos podemos mudar.

Quando o acidente aconteceu, Luciane tinha 19 anos, um filho de sete meses e uma força maior que o mundo guardada dentro de si.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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