Serralheria Pasqualin funcionou por 80 anos e se tornou parte da história de Ribeirão

Esta história faz parte do projeto “Força Italiana”, iniciativa da Casa da Memória Italiana, produzido em parceria com o História do Dia. Para conhecer mais acesse 

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O cheiro de pão de queijo já havia tomado a casa. A mesa redonda estava posta, na cozinha de azulejos antigos e relógio de madeira. A cada hora, as badaladas relembravam: eis uma casa que guarda histórias e tradições.

A família se reuniu para recordar as memórias, entre bolos e delícias: mesa italiana. Quatro gerações de Pasqualin contando a trajetória que começou quando Antônio deixou a Itália com destino ao Brasil, lá em 1889.

Magdalena Pasqualin é a matriarca: neta de Antônio, tia de Décio Antônio, mãe de quatro filhos, entre eles Mônica e Fátima, que estavam presentes para a entrevista, avó de Mariana. A neta caçula tentava assimilar cada detalhe, costurando as histórias de antepassados que não conheceu, mas já tanto ouvira falar.

– Eu acho muito importante saber o legado que a família deixou.

Cuidar da memória é herança que Mariana, aos 15 anos, já acolheu.

A cada quando, durante a entrevista, um dos cinco se deixava tomar pela emoção e o choro saía fácil. Lendo a matéria de jornal que falava da união entre seu avô e seus tios na administração da empresa, Décio Antônio tropeçou nas palavras e precisou respirar para retomar o fôlego, embargado.

– Família italiana é isso: você viu o jeito que a gente é emotivo?

Justificou e prosseguiu:

– Eles nos deixaram uma história de honestidade. A gente tenta passar isso para os nossos filhos, mas não vamos conseguir da mesma forma que eles nos passaram.

A família Pasqualin ficou conhecida em Ribeirão Preto, região e até em outros estados do Brasil pela oficina de serralheira pioneira em São Paulo no trabalho com ferro e alumínio.

Foram mais de 80 anos em funcionamento, produzindo desde fechaduras, portas e janelas a enormes rodas-gigantes e carrinhos tromba-tromba, que, antes da entrega, eram testados pela criançada da família e da vizinhaça, com muita expectativa.

– Se estivesse com defeito, todo mundo se machucava!

Relembram, entre risos e saudade. Muita saudade, que se manifesta nos detalhes da casa antiga, no Centro de Ribeirão Preto, onde eram realizadas as festanças, com mesas que mediam metros, fartas de comida caseira.

Dona Magdalena Pasqualin foi morar ali em 1950, aos 15 anos, com o pai João, a mãe Leonida e os irmãos. Nunca mais deixou o lar. Mesmo casada, continuou com os pais. Hoje, viúva, aos 84 anos, recusa os pedidos dos filhos para que vá viver em um apartamento.

Ali está o oratório que o avô dela, Antônio, mandou fazer para se casar com a avó, Thereza. Está o quintal que reunia a família numerosa para as fotos e festas, os noivinhos de gesso que participavam de todos os casamentos e bodas, as louças, o relógio badalando e ajudando a recordar. Foi herança que a mãe dela deixou para cada um dos filhos.

– Daqui eu não saio, não.

Magdalena – rodeada pela família – resiste ao tempo, preserva a história.

 

Serralheria Pasqualin Ribeirão Preto

A chegada

A história que foi transmitida entre as gerações conta que Antônio Pasqualin já era ferreiro lá na Itália, comuna de Lonigo, província de Vicenza. Aos 23 anos, embarcou com destino ao Brasil.

Veio de vapor Fanfula e já desembarcou com o coração capturado. Conheceu Thereza Viola na embarcação. Ela, aos 25 anos, partiu de Veneza, Itália, com o pai Luigi, a mãe Santa, a irmã Giuseppina e o irmão Carlo.

A família acredita que o namoro foi intenso em alto mar. Desembarcaram em fevereiro de 1889 e o primeiro filho, Victório, foi registrado em janeiro de 1890, 11 meses depois. Tempo suficiente para o amor virar casamento e trazer o primeiro filho.

No momento do desembarque, se separaram, o que hoje gera rumores e risadas.

– Acho que foi para disfarçar!

Diz Décio.

Thereza desceu no Rio de Janeiro, Bananal, no dia 8 de fevereiro. Antônio desceu em Santos, no dia 9. Deram entrada na Casa do Imigrante, em São Paulo, no mesmo dia 9, entretanto. Na capital recomeçaram a vida. Ele retomou os trabalhos de ferreiro e ela era dona de casa, mas costurava ternos com muito jeito.

– Naquele tempo era difícil um alfaiate.

Explica Magdalena.

Antônio e Thereza tiveram cinco filhos homens.

A família não sabe como e quando o casal decidiu se fixar em Ribeirão. Buscam informações em documentos e registros. João, um dos filhos, foi registrado na cidade em julho de 1897. Ou seja: nessa época, seus pais já moravam no interior. No registro de nascimento consta a fazenda Dumont como endereço de residência.

Há também um registro original da serralheria como empresa com data de 1924. Em matérias antigas de jornais consta que, já em 1917, Antônio abriu sozinho uma pequena oficina, na rua Álvares Cabral, 58, como início da grande serralheria que se daria no futuro.

A serralheira foi registrada no nome de Antônio Pasqualin e dos filhos Victório, Humberto, Luiz, Amadeu e João, que ajudavam o pai na administração.

Antônio faleceu em 1930, aos 65 anos. Desde lá, a serralheira foi passando por transformações. Mudaram para um espaço na rua Saldanha Marinho, antes de adquirirem o primeiro prédio próprio na rua Florêncio de Abreu, numeral 106, entre 1938 e 1939.

 

Serralheria Pasqualin Ribeirão Preto

Negócio em família

Os irmãos, aos poucos, foram deixando a sociedade da serralheria por motivos diversos: mudança de ramo e de cidade, o falecimento de Luiz, em 1950.

A partir da década de 50, a empresa passou a ser de João Pasqualin e de seus filhos, netos de Antônio. Entre eles, estava Décio Pasqualin, o pai de Décio Antônio, o filho, que participa da entrevista.

João se casou com Leonida Ferrante, que também era descendente de italianos, em 1920. Tiveram seis filhos homens e Magdalena, a caçula, xodó da casa.

Diferente dos irmãos, ela não trabalhava na serralheira. Ajudava a mãe em casa mas, no horário de almoço, para que o pai e os irmãos pudessem fazer um intervalo, ficava por ali atendendo o balcão.

– Um amigo do meu pai dizia que, se ele pudesse, me colocava em uma cristaleira. E era isso mesmo. Para namorar era muito difícil!

Entre os filhos de João, cada um tinha uma responsabilidade na serralheria. Nelson era um ótimo desenhista e impressionava com sua destreza. Com um grampo conseguia abrir cofres e cadeados. A família conta que ele sempre era requisitado para alterar o segredo dos cofres dos bancos, quando o gerente era trocado.

– Ele andava com uma bolsa pesada, cheia de ferramentas. E só aceitava andar de moto com o meu marido.

Quem diz é Fátima, filha de Magdalena, sobrinha de Nelson.

Décio cuidava do escritório. Elcio e Gerson eram mecânicos, Pérsio e Celso entendiam de serralheria. Trabalho em equipe, que perdurou por décadas.

João faleceu em 1967, aos 70 anos, deixando a administração da empresa para os filhos. Em 1968, a serralheira mudou para a rua Pernambuco, também em prédio próprio.

Nas contas das famílias as atividades foram encerradas por volta de 2000, quando os filhos, já aposentados, foram se desligando do negócio.

De certa forma, a força de trabalho prosseguiu. Décio Antônio, bisneto de Antônio, que saiu da oficina cerca de cinco anos antes de fechar, continua trabalhando no ramo ainda hoje, com uma empresa que vende materiais para o setor de serralherias.

– Entrou ferrugem e graxa na mão não vai sair mais.

São as palavras dele.

 

Serralheria Pasqualin Ribeirão Preto

Lembranças compartilhadas  

Décio garante:

– Todos da família Pasqualin têm lembranças com a serralheria!

Eles trabalhavam juntos e festejavam juntos. Os filhos de Antônio trabalharam ali, assim como seus netos e bisnetos. Quando meninos, começavam a ajudar, limpando uma peça, cuidando de um balcão. Décio ficou na oficina até a década de 90.

– Com 12, 13 anos eu limpava as peças no sábado, depois que a serralheria fechava, às 12h. A gente tirava as porcas, limpava e deixava para o avô, João, ver se estava bom para poder pagar. Depois, eu trabalhei com eles na parte administrativa.

As melhores lembranças, entretanto, estão nas brincadeiras. Testar roda gigante e carrinho de bate-bate era o ofício preferido dos pequenos.

Nos jornais da década de 50 e 60, as matérias elogiavam a honestidade dos Pasqualin e mostravam o quanto a empresa era querida. Em uma reportagem de 1976, no jornal “O Concreto”, do ramo de construção, é dito que a serralheira fora eleita como preferida pela população da cidade em “diversos concursos de preferência popular”.

Para a família, tanto crescimento só existiu pelo empenho de Antônio, filhos e netos e pela forma idônea de fazer negócio. Décio conta das vezes em que viu o avô dar exemplos, ajudar quem precisava, sem nenhum alarde.

Uma vez, comprou um bilhete de loteria a pedido do seu cunhado, que morava em outra cidade. O pedido, porém, era para o número 13. Como não tinha, João comprou outro número, que foi premiado. Ligou para o irmão pedindo que buscasse o prêmio.

– Ele poderia ter ficado quieto! Mas não. Entregou o prêmio para o outro.

Décio conta.

– Minha mãe dizia: ‘O que uma mão dá, a outra não precisa saber’.

Magdalena complementa.

Além da serralheria, Antônio também ajudou a fundar a Sociedade Italiana de Socorros Mútuos que, em 1940, na época da segunda guerra, com a determinação da nacionalização de órgãos e entidades, passou a se chamar Sociedade de Socorros Mútuos de Ribeirão Preto. Existe ainda hoje, com o nome de Associação Unione Italiana de Socorros Mútuos de Ribeirão Preto.

Magdalena relembra que muitos carnavais e festas de casamento eram realizados no prédio da sociedade, na rua Florêncio de Abreu, Centro. João Pasqualin integrou a entidade por toda a vida e, hoje, Magdalena continua sócia.

Na época, ela diz, só homens eram aceitos.

Novos tempos – ainda bem.

 

Serralheria Pasqualin Ribeirão Preto

As histórias de Magdalena

Magdalena conheceu o homem com quem se casou na praça XV, Centro de Ribeirão Preto, andando em volta da fonte, como era costume de paquera na época. Élcio Rubens Paschoalini também tinha descendência italiana.

A proximidade de sobrenomes era grande. A família conta, aliás, que muitos dos Pasqualin foram registrados como Paschoalin nos cartórios brasileiros.

– Se puxar lá na Itália é “tutti buona gente”!

Brinca Décio.

Magdalena e Élcio se casaram em 1956, quando ela tinha 21 anos. O primeiro filho, Guido, nasceu em 58, Élcio Júnior nasceu em 60, Fátima em 62 e a caçula, Mônica, em 1965. Cresceram na casa da família, na companhia dos avós, que hoje são lembrança.

– Minha avó Leonida torrava o café na mão. Até não sair fumaça branca a gente não podia parar de mexer. Depois, ela estendia um pano no chão, jogava os grãos e a gente tinha que ficar mexendo até esfriar, para não queimar. Quando chegava visita, o café era moído na hora.

Nas palavras de Fátima.

O macarrão, Mônica conta, era feito artesanalmente.

– Era só farinha e ovos para dar o ponto. A gente ajudava a fazer sábado à noite, abria numa toalha e deixava secando para cozinhar no outro dia.

Ainda hoje, todo domingo tem macarrão na casa de histórias. E outras tradições também. Aprenderam com Antônio e Thereza: 6 de janeiro é dia de comemorar a Befana, figura do folclore italiano, rodeada de mistérios. A lenda fala de uma senhora idosa, que voa em uma vassoura espalhando doces pelas casas.

As crianças da família Pasqualin colocavam meias no pé da cama e a “misteriosa entidade” deixava delícias ao amanhecer.

– A gente escolhia a maior meia!

Conta Mônica e diz que, até hoje, mantem a tradição com seus filhos. Mariana tem 15, mas o mais velho está com 33.

– Ele vem para o Natal e já vai embora com a Befana dele.

 

Serralheria Pasqualin Ribeirão Preto

Saudade: palavra brasileira  

Décio é o filho mais velho de seu pai e xará. Nasceu em 1948 e, por isso, pôde conviver bastante com o avô, João e a avó Leonida.

– Ele estava bem! Nos vimos no dia anterior. Ele tinha mania de puxar nosso dedão, quando estávamos deitados.

João saiu de casa para resolver questões, teve uma embolia diabética e faleceu na calçada. A família, apegada demais ao patriarca, ainda chora ao contar.

Meses antes, ele havia comemorado os 70 anos. Magdalena fez um bolo com sete dezenas de velhinhas. Filhos e netos – 17 netos homens e quatro mulheres – se reuniram para comemorar. Carinho que hoje é saudade.

– Registrar a história é deixar gravado aquilo que a gente recebeu deles.

Décio é quem guarda a memória material da família. Recolhe documentos, registros, fotos. Conta que demorou 10 anos para tirar sua cidadania italiana, mas conseguiu.

Já foi para a Itália umas seis vezes.

Fez questão de visitar os lugares por onde seu bisavô Antônio passou.

– Quando eu cheguei na porta da igreja onde meu avô cresceu, parecia que eu ia desmaiar de tanta emoção. Uma igreja pequenina, na rua de terra…

Magdalena ainda não pôde conhecer a Itália, um sonho que cultiva.

– Não sei se irei realizar nessa vida, mas um dia eu vou!

Do outro lado do oceano, em terra brasileira, vão resgatando raízes e preservando a história que, hoje, é de duas pátrias. Saudade é palavra do Brasil, que dá nome ao amor italiano.

– São lembranças muito boas… eles deixaram um legado.

Magdalena, a matriarca, é quem finaliza.

 

 

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Mostrando 4 comentários
  • Sirley!!
    Responder

    FAMÍLIA ABENÇOADA!!!

  • Maria Cristina Paschoalin
    Responder

    Adorei a história sou uma Paschoalin

  • Decio Pasqualin Neto
    Responder

    Sou muito grato e feliz por ser a terceira geração desses empreendedores da Rua Pernambuco. Depois de meu avô Decio, do meu pai que participou da entrevista, Decio Antônio, agora sou eu, Decio Pasqualin Neto, com 44 anos de idade, o segundo primo mais velho, que terá que absorver e, quem sabe manter e perdurar as novas histórias dessa família tradicional e quase secular em nossa região.
    Agradeço a iniciativa da Casa da Memória Italiana.

  • JOSÉ GERALDO DIAS
    Responder

    Família maravilhosa, tive a honra de conviver com vários deles, com muito orgulho.

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