Seu Abílio foi garçom do Pinguim por mais de 40 anos

Esta história também foi narrada. Para ouvi-la, é só clicar no play!

Era um encanamento subterrâneo, como esses que trazem água. O chopp saía diretamente dos tonéis da fábrica, na avenida Jerônimo Gonçalves, percorria cerca de 600 metros por baixo da terra e ia parar nas torneiras do Pinguim, no Centro da cidade, cartão postal do quarteirão paulista. Já chegava pronto para tomar. E muita gente tomava!

Todo mundo conhece a história, que é lenda de Ribeirão Preto. Até mesmo fora da cidade o rumor circula e há quem hoje lamente, certo de que a história é verdade: “Que saudade do tempo em que o chopp do Pinguim vinha encanado!”. Tem também aqueles que continuam bradando: “É, sim! Eu vi”, como toda boa lorota, que quase vira realidade.

Seu Abílio ainda se diverte com todo esse falatório. Jamais imaginou que sua brincadeira iria ganhar tantas pernas. Virar memória na cidade.

– Vinha gente de outros estados e perguntava se era verdade mesmo. Eu sempre respondia que sim! E ainda perguntava: ‘Como é que chega a água na sua casa? Então, é do mesmo jeito!’. O cara não tinha jeito de sair! Mas eu não imaginei que iria espalhar assim… todo mundo fala isso!

A lenda é um dos legados que deixou após 44 anos trabalhando na choperia mais tradicional da cidade. Abílio Zuelli foi um dos funcionários com mais tempo de casa e garante que, não fosse “as peças que a vida prega”, ainda estaria por lá, despistando os quase 90 anos com o bom humor que continua pulsante.

– O problema do garçom é o seguinte: a senhora está ali e você não sabe de que jeito pode falar. Se fala “dona”, ela reclama. “Senhora”, ela acha que está chamando de velha. “Senhorita”, ela pode ser casada. Eu resolvi isso com uma palavra. Chamava de jovem, podia ser quem fosse. Era a minha palavra.

E foram muitos os “jovens” que atendeu…

A cada dia de trabalho, uma nova história na lista imensa. Serviu chopp para gente de todo tipo, inclusive famosas. Angela Maria, Cauby Peixoto, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Agnaldo Raiol, jogadores de futebol, políticos de tudo quanto foi partido.

Conta do jogo entre Porto Alegre e Internacional que, mais do que gols, bateu recorde de chopp.

– Foram 4.500 litros! Ninguém acreditou!

choperia Pinguim Ribeirão Preto

Modesto, quase se esquece de dizer que participou da famosa cena da novela Rei do Gado gravada em Ribeirão. Não fosse o neto alfinetar, seus minutos de fama passariam batidos. (veja o final ao final da matéria)

– Eu vinha com a bandeja e duas canecas. O Antônio Fagundes avançava e pegava uma. Eu dava a volta por trás dele para servir a outra. É rápido. Muito rápido. Eu repeti umas três vezes.

Já na época, 1996, foi escolhido para gravar por ser o funcionário com mais tempo de casa. Já não atuava como garçom. Ficava como “relações públicas”, atendendo e acolhendo a clientela. Não poderia imaginar que três anos depois teria que deixar o trabalho que tanto amava.

– Minha vida foi no Pinguim.

Abílio estava no trabalho quando sentiu a visão escurecer. Achou que fosse algum efeito do exame oftalmológico que havia feito no dia anterior. Avisou o chefe e foi para casa.

– Ele disse : ‘Vai e depois você volta’. Mas eu nunca mais voltei.

Perdeu a visão dos dois olhos. E diz que, tão acostumado ao movimento, ao vem e vai, a contar suas histórias e arrancar risadas, precisou aprender a “viver sozinho na vida”, mesmo tendo todo apoio e carinho da família.

– Jaja você vai embora. O neto vai para a escola, os filhos trabalham. E eu fico aqui, sozinho. Fico no radinho. Às vezes eu durmo… teve uma noite que me deu uma tristeza… lembrei do passado… estava enxergando, passeando…

Já se passaram 20 anos e ele tenta manter o entusiasmo. A saudade, porém, é o sentimento maior morando no peito.

– Você acredita que não veio quase ninguém me visitar? Faz anos! Tantos colegas de trabalho! Custava um telefonema?

Se encheu de alegria com o amigo das antigas, com quem trabalhou décadas atrás e que, além de visitá-lo, me apresentou para sua história.

Se apega aos legados, às memórias. Na hora da foto, coloca o colete do Pinguim e, sem qualquer dificuldade, dá o nó na gravata.

– Tem o Pinguim desenhado, é?

choperia Pinguim Ribeirão Preto

Abílio nasceu na zona rural de Ribeirão e trabalhou na roça até os oito anos, quando a família se mudou para a cidade. O pai faleceu quando ele ainda era menino e, com cinco filhos, a mãe precisou da ajuda de todos para manter a casa.

Com cerca de 12 anos, começou a trabalhar na copa do hotel Aurora, um dos mais antigos da cidade. Em 1.951, foi inaugurado o primeiro edifício alto de Ribeirão com a finalidade de hotel, o Umuarama. Abílio estava com 22 anos e passou a trabalhar como garçom no empreendimento, que era uma grande atração para a cidade.

Ficou até por volta de 1954, quando surgiu o convite para trabalhar no Pinguim. Conta a história da choperia em detalhes, com a sucessão de proprietários, a abertura de filiais, a mudança de local. Passou a maior parte de sua jornada no “Pinguim 1”, como diz, que ficava em frente a choperia atual, na General Osório.

Conta que o Pinguim foi pioneiro no uso das câmaras frigoríficas, técnica que não existia até então.

– A Antártica mandava barras de gelo de dois metros de extensão e 20 centímetros de largura e tinha que trocar de hora em hora, senão não gelava. Na câmara tinha sempre de 30 a 40 barris. Na época era de madeira. Não era como hoje, rapidinho para trocar um barril.

E dá detalhes do processo de troca. Usavam uma vareta para abrir a rolha e era preciso descer o barril na bomba “com fé e caridade”, em suas palavras. Muita força, na tradução.

– Hoje é tudo automático!

Não acha, porém, que a tecnologia só ajudou. Para ele, era muito mais fácil anotar os pedidos na comanda com papel e caneta do que usar os celulares, como os garçons usam hoje.

– Ih, até praticar aquele bregueçu!

Abílio tem palavras e um vocabulário bem próprio. Em meio às frases, solta um “porca mandioca!” e não há quem resista o riso! Despertar risadas sempre foi uma prática sua, aliás.

Conta do dia em que simulou uma briga com um amigo garçom e foram parar nos noticiários. Comercialino, a maior alegria era ver o Botafogo perder. O amigo, porém, pareceu não gostar nada da brincadeira contra o seu time.

– Saímos brigando na revista e foi tudo premeditado!

choperia Pinguim Ribeirão Preto

Diz que “graças a Deus” nunca foi recusado por um cliente.

– Se você atende mal, o cara volta e vai falar: ‘Não quero aquele fulano!’. A primeira coisa que o garçom precisa ter é educação. Tem que ser traquejado no servir o cliente.

Teve alguns apelidos em quase 45 anos de história “pinguinzense”: tio, velhinho, Biloca.

– Cada espírito de porco me chamava de um nome!

Viveu momentos bons e outros nem tanto com a “brigada” do Pinguim, como diz. Quando perdeu uma filhinha de três aninhos por meningite, encontrou carinho nos amigos de profissão.

– Foi o momento mais marcante para mim. Eu perdi a noção do trabalho. Ia para o vestiário e chorava. E tive muita força dos colegas e dos gerentes.

Abílio teve quatro filhos e foi casado até seis anos atrás, quando perdeu a esposa. Mais uma “peça da vida”.

– Ela faz muita falta.

Quando fala do passado, a voz fica firme, as palavras são alegres. Com o presente, no entanto, não tem esse vigor.

– Às vezes me dá um choque. Eu fico pensando: que fim de vida que eu tive? Ficar assim de repente? Se tivesse machucado, quebrado… mas do nada?

As maiores alegrias dos dias de hoje são a família e o futebol. O radinho é o maior companheiro.

– Ele fica embaixo do travesseiro.

O aniversário é daqui alguns meses.

– Dia 14 de julho faço 90 anos… não tô muito forte, porque a idade vai baquiando.

Comemorar no Pinguim com um chopinho? Seria ótimo, ele responde com sorriso. Uma alegria do passado no presente.

Sorri para a foto, vestido com o uniforme que tanto enche o coração de orgulho.

– A gravata é amarela, é? Não é vermelha?

Seu bom humor ficou para a memória de Ribeirão.

– Eu vou embora, mas essa história vai ficar para a cidade.

Um encanamento que trazia chopp direto para as torneiras? Mas é verdade essa história? A quem me perguntar, vou responder como seu Abílio ensinou: “Como é que chega a água na sua casa? Então, é do mesmo jeito!”. Em história boa, não se mexe.

 

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Mostrando 9 comentários
  • Bia Amorim
    Responder

    Tô emocionada aqui <3
    um beijo bem grande no "tio do chope"
    que história linda

  • Bruno Ribeiro
    Responder

    Parabéns pela entrevista. Esta série é muito boa. São personagens como este que ajudam a contar a história de uma cidade e de um povo.

    • Daniela Penha
      Responder

      Muito obrigada, Bruno!

  • Daniela
    Responder

    Parabéns a esse profissional que ensinou muitos iniciantes como meu pai Mia cor Cardoso que também trabalhou por 40 anis no Pinguim!

  • Isaurinha.
    Responder

    Linda hiatória de vida!
    Sou casada há 46 anos ,e nosso primeiro encontro doi no pinguin há 49 anos no dia 8..de fevereiro.

    • Daniela Penha
      Responder

      Que história bonita, Isaurinha! Grande abraço!

  • Filipe Pereira de Miranda
    Responder

    Que história bonita! Ás vezes histórias assim mudam o dia das pessoas. Parabéns pelo trabalho.

  • Filipe Pereira de Miranda
    Responder

    Que história bonita! Ás vezes histórias assim mudam o dia das pessoas. Um grande abraço de Brasília e parabéns pelo trabalho.

    • Daniela Penha
      Responder

      Muito obrigada, Felipe!! Fico muito feliz com seu comentário!

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