Síria Ola Alajaty encontrou em Ribeirão um refúgio para a guerra

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A guerra na Síria começou em 15 de março de 2011. Ola Maher Alajaty comemorava 21 anos nesse dia. Motivo em dobro para não esquecer o que já era, por si só, inesquecível.

A jovem síria se formou em Odontologia um ano depois, em uma cidade próxima à Damasco, capital de seu país. O plano de ter o próprio consultório já ia se realizando. O espaço estava quase pronto, em Alepo, cidade onde ela nasceu e onde vivem seus avós.

Uma bomba jogou tudo pelos ares.

Jogou também casas da família, inclusive aquela onde ela passara a infância. Já fora da Síria, fugindo da guerra, Ola viu a casa dos avós explodindo em um vídeo no Youtube. Não pôde reclamar. As vidas de seus familiares foram preservadas. O que mais importa em uma guerra?

– A guerra começou no Sul e foi subindo. Ficou muito feia. Eu fiquei em choque. E pensava: perdemos o país, não vai acabar.

Viu amigos perderem familiares das maneiras mais violentas: tiro, bomba, sequestro. O prédio onde deveria estar, estudando, também explodiu.

– Deus sabe o que faz… eu acredito. Não tem nem como ir na polícia. O país está em guerra.

Quando Ola tinha menos de três anos seus pais decidiram se mudar para a Arábia Saudita. A jovem morou lá até os 17, mas nunca deixou de visitar sua família em Alepo. Era seu lugar preferido nas férias. O amor por sua terra é tanto que decidiu fazer a faculdade lá.

Havia outras possibilidades. Seus pais viajavam muito. Ola conheceu e fez estágios em alguns países da Europa. Hoje, fala cinco idiomas: árabe, inglês, francês, espanhol e português. Mas optou por ficar em seu país.

– Nós não achamos que teria guerra na Síria. Vocês têm a imagem da Arábia que é toda guerra e não é nada assim. Não era assim.

A violência fez com que precisasse sair de sua terra.

– Sempre vai estar comigo essa menina de Alepo. Eles destruíram quase o país inteiro, 96%. Eu sou esse 4% que falta.

Ola cresceu em um cenário de riqueza. Morando em Dubai, frequentava festas de princesas, tinha um quarto só para roupas e outro só para sapatos, podia viajar pelo mundo. Pessoas que conhecia compravam franquias de grandes marcas e abriam filiais em casa, só para degustarem como e quando quisessem.

– É uma riqueza que não existe em nenhum lugar.

Precisou deixar tudo isso para trás. Em 2012, foi morar no Líbano. Depois de dois anos, partiu para o Chile. Levou algumas malas – e só. Ao longo do caminho, foi perdendo suas coisas. Foi furtada, roubada, diz que chegou a ficar sem nada.

Em 2015, aterrissou em Ribeirão Preto, onde vive ainda hoje. Filha de pai sírio-brasileiro, ela tem nacionalidade brasileira também. Gosta do Brasil, mas não esconde a saudade.

– Não é a Síria. Não é a minha casa. Eu desejo morrer lá. Sinto falta de tudo…

Síria Ola Alataji encontrou em Ribeirão um refúgio para a guerra

A conversa com Ola é uma troca. Ela fala sobre um país que, até então, eu só sabia pelo que via na televisão.

– A Arábia é um lugar de paz. As pessoas não pegam nada de ninguém.

Desde menina, decidiu ir pelo caminho inverso. Diz que nunca aceitou as determinações do Oriente Médio. Seus avós são muçulmanos, mas, assim como seus pais, respeitavam suas decisões. Mesmo que precisassem brigar com a opinião alheia.

O pai trabalhava com construção. Hoje, seus pais estão divorciados. A mãe mora no Egito com a irmã de Ola e o pai está na Bélgica. Os avós continuam em Alepo, resistindo. Família dividida pelo mundo para fugir da guerra.

– Eu vou para o inferno se eu me vestir assim? De short curto? Deus não vê isso.

Escolheu seguir o Deus que mora no coração. Quando aprendia na escola sobre um Deus arbitrário, seu pai desconstruía essa ideia quando ela chegava em casa.

– Não sou religiosa. Foi por religião que perdi meu país. E por isso tem guerras no mundo. Cada um de nós fala com Deus todos os dias.

Ela explica que nunca precisou usar a burca. Namorou um jovem cristão e seus pais aceitaram, mesmo com a vizinhança toda ligando em sua casa para alertar sobre o “absurdo” que estava ocorrendo. Aos 22 anos, partiu para o Líbano com esse namorado. Moravam juntos.

– Isso não acontece. Não pode.

Fez suas próprias regras. No Chile, trabalhou como modelo. Tirou fotos de biquíni e a notícia chegou para amigos e familiares que haviam ficado no Oriente Médio. Os comentários foram duros. Para ela, não tiveram qualquer efeito.

Nas viagens que fazia com sua família, conheceu países do mundo inteiro. Construiu, então, suas próprias crenças.

– De todo lugar, eu escolho a cultura que me importa. Eu não concordo com o que eles fazem lá (na Síria), então eu procurava levar para eles coisas legais que eu conhecia.

Viu amigos fugirem para poderem viver sua orientação sexual.

– Esse tema não é aceitável de jeito nenhum. Matam ele.

Entre muitas discordâncias, defende e acredita em alguns preceitos culturais. Afirma que a mulher é melhor valorizada lá e explica seus motivos.

– O que é o valor de vocês? Lá, é casar. Isso para mim é valor, porque quando alguém quer casar com você, é para o resto da vida. Não só hoje e amanhã. Eu quero poder cuidar dos meus filhos e trabalhar, mas se eu quiser.

Diferenças culturais.

– A minha cultura é a árabe e eu sinto orgulho da nossa história. Há quantos milhares de anos nós existimos?

Síria Ola Alataji encontrou em Ribeirão um refúgio para a guerra

Ola chegou ao Brasil depois de um tempo sobrevivendo no Chile. Deixou o namorado no Líbano, porque sentia que era preciso mudar a vida.

Em terra chilenas, conta que vivia em um espaço minúsculo, onde não cabia nem suas malas, que ficavam em um depósito.

Conheceu Ribeirão com o pai, visitando um amigo. Chegou com a mochila e sem falar português. Foi aprendendo com a prática.

A vontade de ser dentista terminou com a bomba que explodiu seu consultório. Por aqui, fez cursos na área de marketing, recursos humanos, administração. Trabalhou em uma grande empresa, mas acabou não dando certo.

Agora, pensa em tentar algo na área de turismo. Faz também palestras para crianças e adultos onde compartilha um pouco de sua experiência mundo afora. Fala da guerra e das oportunidades que tem um país que vive em paz.

– Cada país tem sua dor. Mas a dor da Síria é outra. Aqui, é um país com oportunidades. O problema do Brasil é político. Quando você mostra para a criança as diferenças: lá não tem escola, comida, nada. Você consegue mudar uma pessoa.

Síria Ola Alataji encontrou em Ribeirão um refúgio para a guerra

Brasileira por nacionalidade, também se preocupa com o que vê por aqui.

– É roubo, homicídio a todo momento. O Brasil vive em guerra. É uma guerra da ignorância. Com tudo isso que está acontecendo, o que importa é churrasco e cerveja com os amigos. Isso é muito bom, claro. Mas o que você está fazendo para o seu país? Ninguém questiona por que os preços aumentam tanto? Nada vai mudar se o brasileiro não muda.

A preocupação de alguém que viu seu país ser devastado e, então, sabe o peso que tem uma terra em paz.

– Não tem um sírio no mundo que não foi muito machucado. Nós perdemos uma coisa que ninguém pode saber como é. Perdemos nosso país e os outros países estão fechando as portas. O Brasil nos recebe: entra aqui, fica à vontade.

Vai tentando ignorar os preconceitos que ouve: ‘Nossa, você é bonita! Nem parece árabe’, foi um deles. Quer acreditar que o preconceito vem da falta de conhecimento. Por isso, busca compartilhar o que sabe.

– Você pode ter o que quiser com sorriso, tratando as pessoas bem.

Ola não faz planos para o futuro. Tem dificuldade para falar desse tempo.

– Eu imaginei um futuro inteiro, para o resto da vida, e olha o que aconteceu? Mas eu agradeço a Deus porque eu vivi. Pude saber que o mundo é muito maior. Desde então, eu tô perdida no mundo. Não sei o que eu vou fazer do futuro, mas desejo que Deus me surpreenda.

Sente falta da família, que vê raramente.

– Tudo acaba. Os momentos felizes e os tristes.

E acredita que a guerra vai chegar ao fim.

– Eu sempre vou ser a estrangeira.

Para, quem sabe um dia, ter a opção de voltar.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Comentários
  • Fernanda Menegari Querido
    Responder

    Ola, obrigada por compartilhar essa estória dura consoco. Espero que sirva de experiência para nós brasileiros. Te respeito muito e saiba que estamos de braços abertos para você e sua família. Salaam Alaikum ?????? ?????

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