Thirso Cruz esculpiu grandes monumentos de Ribeirão Preto e região

O motoqueiro na rotatória da avenida Treze de Maio. Os músicos no Morro do São Bento. O Curupira que dá nome ao parque na avenida Costábile Romano, os muitos tipos que enfeitam os canteiros da avenida Ivo Pedreschi. O Cristo de 14 metros de altura ao alto da pedreira Said. Bustos que retratam os mais diversos rostos.

De Norte a Sul de Ribeirão Preto, há esculturas de Thirso Cruz. Das 128 obras listadas no “Guia de Monumentos em Lugares Públicos de Ribeirão Preto”, publicado pela prefeitura em 2008, 22 são de autoria do Thirso. Mas ele garante que há muito mais. Acredita que só na cidade tem mais de 50 esculturas expostas, sem contar o que espalhou pela região!

O monumento que dá boas-vindas a quem chega em Serrana, retratando a história de fundação da cidade, foi Thirso quem fez. Assim como as peças da igreja de Batatais.

– Eu ia fazendo e colocando nas praças, nos parques! Nem me lembro mais onde estão!

O artista não sabe estimar quantas obras fez em uma vida dedica à arte.

Thirso foi assistente e amigo de Bassano Vaccarini, que conheceu no grupo TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) em São Paulo e reencontrou anos depois em Ribeirão. Fez o restauro de muitas de suas obras.

Por mais de 30 anos, atuou como professor. Diz, então, que deu aula para muito iniciante que hoje é artista renomado.

Inventor fuçado, conta também que atuou como desenhista técnico na Faculdade de Medicina da USP, onde criou uma mesa de cirurgia que virava o operado sem esforço, um olho de plástico, a réplica de um coração, e muito mais.

O currículo é extenso e surpreende. Como quando ele conta que, apaixonado por animais, foi para o Rio de Janeiro aprender sobre a adaptação de animais silvestres em cativeiro. Voltou logo para Ribeirão, mas continuou com a mesma paixão.

A conversa é toda acompanhada por seus cinco cachorros. A cada movimento do dono, eles levantam a orelha em alerta. Se eu me mexo no sofá, pronto. Estão todos de pé, prontos para defender o protetor.

Hoje os cachorros são os grandes companheiros do artista, que soma 81 anos.

A história de Thirso chegou até mim por um post no Facebook. Uma amiga dele pedia ajuda para o grande nome de Ribeirão que atualmente vive com total simplicidade, tomando conta de animais que retirou da rua.

Há alguns anos, Thirso foi diagnosticado com hanseníase e, depois, teve câncer de próstata. Diz que as dores não lhe deixam trabalhar. E, então, foi acumulando coisas e mais coisas no quintal da casa antiga, que padece.

Algumas esculturas, relíquias do grande artista, estão lá, aguardando serem expostas para o mundo. O escultor que tanto encantou Ribeirão espera o reconhecimento.

– Valorizado? Ah, sou valorizado pelos amigos… mas tenho uma história com Ribeirão!

Thirso Cruz artista Ribeirão Preto

A memória de Thirso tem contrastes. Lembra de episódios em detalhes, como se fosse ontem. Aos 81 anos, porém, já tem dificuldades de recordar algumas coisas. Pudera! É muita história! Aqui, conto apenas parte resumida do todo.

Nasceu em São Joaquim da Barra e perdeu a mãe ainda criança. O pai distribuiu os seis filhos entre tios e Thirso passou, então, a viver em São Paulo.

Conta que pôde estudar em um bom colégio, com bolsa, e que aos seis anos já sabia ler e escrever, de tanto acompanhar as notícias da guerra nos jornais, que chegavam sempre atrasados.

Inventor nato, gostava de criar robozinhos. E se lembra do primeiro desenho que fez na escola, ganhando os olhares de todos. O objetivo era colocar as quatro estações no papel.

– Eu dividi a página em quatro e fiz certinho. A professora começou a me elogiar pela criação.

O teatro também começou na infância. Relembra que havia uma feira livre em frente de casa, inventava peças e apresentava no meio das barracas em troca de feijão, legumes.

Quando tinha entre 12 e 13 anos fez um curso de desenho que lhe ensinou muita técnica. Diz que chegou a entrar na escola da Aeronáutica, mas não deu certo:

– Era muita física, química… não consegui!

Descobriu o grupo TBC de teatro porque passava em frente para levar a marmita do irmão, que trabalhava como guarda municipal. Conheceu Bassano, que também integrava a turma. Mas perderam o contato logo depois.

O tio de Thirso foi transferido a trabalho para Ribeirão Preto na década de 50.

– Eu passei a morar aqui, a jogar futebol e fui fazendo arte.

Aos 18 anos, então, ele iniciou sua carreira artística, como aluno da então Escola Municipal de Belas Artes, instituição da qual foi professor depois.

Uniu as artes plásticas ao teatro, construindo cenários. Não deixou de lado as pitadas de invenção. Conta que criou um palco móvel que facilitava a montagem de grandes peças. Ao invés de descer o pano, desmontar o cenário todo correndo e montar de novo, era só girar a estrutura.

– Eu ganhei um prêmio por esse cenário!

E garante que não foi o único. Conta que somou prêmios de escultura nas cidades da região.

– O nome foi crescendo!

Em 1956, Bassano Vaccarini foi convidado para conceber pavilhões em comemoração aos 100 anos de Ribeirão Preto. Thirso soube que viria um diretor de São Paulo e se candidatou para ajudar nas obras. Não sabia de quem se tratava. Só soube pessoalmente. No reencontro, Bassano se lembrou do menino, jovem estudante de teatro.

Os dois foram parceiros e amigos.

– Ele dizia: ‘Você me ensina português e eu te ensino italiano!’. Foram anos de trabalho com ele. Só paramos quando ele morreu.

Thirso não deixou a amizade morrer, porém. Restaurou as obras do artista e guarda sua memória em histórias.

Thirso Cruz artista Ribeirão Preto

Thirso conta mais de uma história para mostrar o talento que tinha em fazer bustos. Um deles, de uma colega da Faculdade de Enfermagem, foi encomendado pela manhã e a família ficou de levar uma foto, no período da tarde, para que o artista pudesse se inspirar. Quando chegaram, porém, a obra já estava pronta. Não deixaram sequer retocar.

– Eu fiz com a transmissão do pensamento! Eu me lembrava do rosto dela.

Esculpiu o cristo de 14 metros de altura da pedreira Said, que se vê ao longe, no alto da rodovia Antônio Machado Sant’Anna. Relata que foram seis meses trabalhando, para esculpir no local, enfrentando os perigos da altura.

– Eu tinha que ir na ponta do Cristo para fazer a mão e era muito vento. Eu precisava me amarrar para não cair. Os urubus me faziam companhia.

Agora, toda a arte de Thirso é história.

Ele se casou, mas fala que não deu certo. A ex-mulher vive na mesma casa, mas nos fundos. Ele diz que os dois quase não se falam e logo se percebe a rixa existente.

Pelas doenças, perdeu a força necessária para esculpir.

– Já me acostumei com as dores.

Conta que contraiu dívidas, deixou de pagar os impostos da casa e, agora, se aperta com a aposentadoria. A maior necessidade, porém, não é financeira.

– Eu precisava de alguém para me dar uma mão nesse quintal. Me ajudar a limpar. Não tenho mais força.

Tem amigos, que o visitam com frequência. Alguns até se zangaram com a postagem nas redes sociais: “Precisa disso, Thirso? Você tá bem!”, bradou um deles.

Os cachorros, maiores companheiros, continuam acompanhando toda a conversa.

– A vida? É a coisa mais gostosa que tem! Deus deu o paraíso, com florestas, comida.   Logo, está vagando em falas longas sobre religião, mulheres, universo. Vai misturando histórias, criando obras quase artísticas em palavras. A vida é bonita. As pessoas que complicam.

De norte a sul de Ribeirão Preto, há obras de Thirso. O artista, com tanta história, ainda pulsa para garantir sua memória.

 

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Mostrando 2 comentários
  • Salviano Santos
    Responder

    Parabéns pela homenagem ao grande artista.

  • Elson Sposito
    Responder

    Excelente matéria, um grande artista Tirço, mas infelizmente como a grande maioria não tem o devido reconhecimento principalmente das pessoas influentes de Ribeirão Preto, assim como foi com o grande artista Leopoldo Lima, hoje esquecido e tantos outros. É lamentável ver tanta injustiça com esses artistas.

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