Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 23 de março de 2017.
Esta história foi narrada pela jornalista Rosana Zaidan. Para ouvi-la, é só clicar no link:
Na estrada que nunca tinha fim, com sol a pino e medo de nunca chegar, o Amaro de 19 anos pediu casa própria, família e emprego em oração. Passou um ano e três meses caminhando.
Até tinha como conseguir dinheiro para o ônibus de Recife a Ribeirão Preto: trabalhar foi rotina desde que se conheceu como gente. Mas se a vida nunca tinha sido fácil, não seria esse o caminho a escolher.
– Meu pai me falou: ‘O mundo é uma escola. Vai rodar o mundo para saber que volta o mundo dá’. E eu fui.
Foi e voltou. Em Ribeirão Preto conquistou o que pediu. No ano passado, foi ele quem acendeu a tocha olímpica. Homenagem à história cheia de beleza que escreveu – e continua a escrever.
Quando conheceu Ribeirão Preto, com seus 17, 18 anos, Amaro Pereira da Silva chegou de trem e acompanhado dos pais e irmãos. Venderam tudo no Recife e passaram mais de uma semana na estrada, em busca de uma vida sem seca e sem fome.
Chegaram sem nada. A mãe arrumou serviço de doméstica, o pai trabalhava na roça e os filhos ajudavam.
Amaro diz que a única conquista que a vida não trouxe foi o estudo. Tem tristeza, mas não vergonha de não saber ler e escrever.
– Eu não aprendi por muita batalha. A gente até ia para a escola, mas por falta de comida a cabeça não funcionava.
Aos 18 anos, não tinha documentos. Buscou tirar em Ribeirão, mas soube que – mal acabara de chegar – teria que partir para Recife, resolver as questões do Exército.
Deixou a família e partiu de ônibus. Antes de sair, o pai falou sobre rodar o mundo e Amaro guardou a frase – ao pé da letra – no coração.
Ficou um ano em Recife e, no tempo de voltar, decidiu:
– Vou de pé, para ver que volta o mundo dá.
Ele pode passar dias contando o que viveu nos 15 meses de viagem.
Dormiu no mato, pegou carona em trem, trabalhou de tudo quanto foi possível para comer. A parte mais difícil foi quando um parceiro que há semanas estava viajando com ele não aguentou continuar.
– Eu falei para ele que ia morrer ou viver, mas não iria voltar. E tive que seguir sozinho.
Perdeu a fé de chegar mais de uma vez. E retomou, também mais de uma vez.
– Diz que homem não chora… confesso que chorei, porque a vida foi dura. Mas com fé a gente remove montanhas.
Quando chegou, contou aos pai o que tinha feito. Até então, guardara para si.
– Ele nunca imaginou que eu ia fazer isso.
Em Ribeirão Preto, trabalhou de pedreiro, servente, mecânico de bicicleta, vendedor. Há 19 anos, é gari. Com tanta luta, comprou terrenos, construiu a casa própria, casou e teve quatro filhos: legado que é seu orgulho.
Ainda no meio das conquistas, decidiu que era tempo de agradecer.
Passou 30 anos viajando de bicicleta para Aparecida do Norte uma vez ao ano.
Começou sozinho e já no próximo ano um grupo de pessoas resolver acompanhar. Com o tempo, o grupo foi se desfazendo e ficou um só companheiro.
Amaro conta que esse único companheiro se perdeu no alcoolismo.
– Minha última viagem eu fiz sozinho.
Parou aos 61 anos, quando o amigo morreu praticamente em seus braços, na Aparecida que tantas vezes foi destino.
– A vida só é ruim para quem não quer nada com a vida. Agradeço por tudo que alcancei.
Amaro e sua bicicleta participaram de um tantão de corridas ao longo da vida.
– Nunca fui para ganhar nada. Mas com uma bicicleta velha e sem marcha ganhei muito troféu e medalha.
Aos 69 anos, não compete mais. Mas vai e volta para o trabalho de bike todos os dias. Faz a limpeza da praça Francisco Schmidt, na Jerônimo Gonçalves. São 26 quilômetros, quando faz o trajeto sem desvios. Sempre tem um parente ou amigo a visitar.
A empresa Estre, onde Amaro trabalha, enviou sua história para o Comitê Olímpico, que não teve dúvidas: escolheu o atleta da vida para acender a tocha olímpica em Ribeirão Preto ano passado.
Prestígio para a tocha.
Relembra o trajeto de ônibus até o parque e toda a multidão que o assistia, e chora. Contrariando, mais uma vez, o dito popular tão sem sentido.
– O meu melhor troféu foi essa tocha. É uma lembrança que vou levar daqui para o outro lado. Diz que homem não chora… eu choro!
Em janeiro, fez aniversário e reuniu amigos e família em festa. Iria exibir a tocha – que é troféu – e contar mais uma vez a história.
– Tinha tanto celular aceso que parecia vagalume. Todo mundo festejando… uma turma de garis, porque eu sou gari. E minhas filhas lá embaixo…
Diz que é feliz, “graças a Deus”. E que a gente “não pode ter medo de nada, não”.
Se bem que de avião está permitido. Nunca mais voltou para a praia depois que veio a pé de Recife. Sonha com o marzão que banhou sua infância. Mas só topa se for de ônibus.
– Nasci sem nada, construí muita coisa e vou deixar para as minhas filhas. A gente faz a nossa parte, né?
Quer trabalhar de gari até quando a empresa “aceitar”, esfregando, mais uma vez, o seu tipo único de humildade na cara de quem quer ver.
– Chega um tempo em que a gente tem um ponto final, né?
Amaro é lição que não se acha em livros e cadernos.
*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/
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Uma grande figura este homem, que tive o prazer de conhece-lo. o famoso Baiano, como nós chamamos. Foi uma grande homenagem quando conduziu a tocha olimpica aqui em Ribeirão Preto.
Ahhhh que coisa mais linda!
Onde eu posso encontrar ele?
Vou para o Brasil no meio do ano que vem e gostaria muito de me encontrar com ele e dar um presente!