Geraldo Duarte faz a diferença na Medicina

Esta história foi narrada pelo jornalista João Borda. Para ouvi-la, é só clicar no play:

 

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 17 de março de 2017!

 

– Então, menina: qual parte da história você vai querer?

Ele decide começar pelo nome. Era para ser Geraldo Hilton Duarte.

Geraldo para pagar a promessa da tia Germana. Hilton para seguir a rima dos irmãos mais velhos: Milton e Ailton.

Na igreja – família católica, do interior de Minas Gerais – o nome composto já era realidade no batismo. No cartório, o pai achou muito grande e deixou Geraldo Duarte.

Geraldo tem dois nomes: o que é, e o que poderia ter sido.

Vai ver por isso teve tantas idas e vindas entre o que podia ter sido.

Para a sorte de todos, escolheu ser o que é.

Aos 11 anos, deixou de ir à escola porque queria ser fazendeiro. Voltou para a sala de aula e decidiu, então, ser engenheiro. Mudou de ideia no primeiro ano do curso.

– Eu gostava mesmo é de gente.

E, então, tomou a decisão quase final. Geraldo (Hilton) Duarte decidiu ser médico.

Caçula, foi o primeiro entre os 14 irmãos a escolher a profissão. O primeiro em toda família Duarte.

A inspiração foi o médico Tácito Guimarães, único da pequena cidadezinha, daquele tipo que cuidava de todas as dores do povo. Ele só não fazia parto, é bom frisar.

Geraldo quase optou pela residência em Psiquiatria, inconformado com a forma como o paciente psiquiátrico era tratado na década de 70. Um professor fez o alerta: “O seu objetivo é bom, mas a saúde mental não vai se resolver em uma geração”.

Frustrado com uma realidade tão estática, optou pela Ginecologia e Obstetrícia. Preenchendo a lacuna do Dr. Tácito, Geraldo faria partos.

Desse caminho não desviou. Bem o contrário: é referência em infecções na gravidez, pioneiro nos estudos da Aids na gestação, um dos nomes responsáveis pela humanização do pré-natal.

Tão importante quanto: é o médico amigo, do tipo que escuta o desabafo da família toda e até fiador de paciente que precisava de casa já foi.

A mulher, que recém acabara de ter um bebê, descobriu uma traição do marido e haja confusão familiar! Geraldo escutava os lamentos a cada consulta.

Em uma delas, a paciente chegou com o contrato de locação nas mãos. Tinha saído de casa e fez o pedido, quase anúncio: “O senhor vai ser meu fiador!”. Teve como não aceitar?

Geraldo chegou em Ribeirão Preto em 78, para a residência na USP, e ficou. É professor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão e atende no Hospital das Clínicas. O currículo extenso vai de vice-diretor da faculdade à coordenador de grupos de pesquisa internacionais. Ele chega ao campus às 7h e só sai quando a luz apaga.

– Eu tive muita oportunidade na Medicina. Mas não dariam oportunidade para alguém que não trabalhasse.

Ajudou a fundar o Seavidas (Serviço de Atenção à Violência Doméstica e Agressão Sexual), criou o Amigo (Ambulatório de Moléstias Infecciosas em Ginecologia e Obstetrícia), ajudou na implementação de um SUS recém-criado.

Sempre atuou em uma área que poucos profissionais se interessavam em atuar.

– São os excluídos. A sociedade combate e a própria sociedade cria o veneno.

Brigou para incluir a sorologia que detecta o HIV no pré-natal de todas as gestantes, não só no grupo de risco.

– Tudo o que a sociedade proíbe ou condena o paciente não te conta.

O exame, ele defendeu sob uma enxurrada de críticas, seria a única forma eficiente de detectar o vírus e prevenir a transmissão vertical, que é a infecção do feto pela mãe durante a gravidez.

Hoje, graças a sua luta, a sorologia é obrigatória.

Também levantou a bandeira de que as mulheres com HIV não poderiam amamentar seus bebês e foi condenado por boa parte da sociedade médica. As pesquisas comprovaram sua tese, que também é a orientação dada hoje.

Por tudo, ficou conhecido como o médico que conseguiu reduzir a transmissão vertical, e foi convidado pela Organização Mundial de Saúde a ajudar a África. Esteve nos países africanos na década de 90 e depois em 2012.

Tem o otimismo estampado na retina brilhante. Diz que é um tanto médico e um tanto “juiz de paz”, e tira risadas. Ensina seus alunos a lidarem com o humano.

– Eu sou um cuidador. Eu ensino a cuidar.

Hoje, já não faz tantos partos, pelas tantas funções que ocupa. Quando surge uma oportunidade entre um corredor e outro do hospital, não desperdiça, porém.

– O nascimento de uma pessoa é de chorar, e eu choro. É o primeiro contato dela com a vida. Se eu pudesse, só faria isso.

Aos 64 anos, não pensa em tirar o pé do acelerador. Diz que não serve para pescarias, tempo livre, dias à toa. E, então, já tinha escolhido mais uma batalha médica.

Buscava implantar o pré-natal da família, com a inclusão do parceiro em todo o processo médico.

– O pré-natal não é da mulher. É família e até da comunidade.

O mundo foi surpreendido pelo vírus da zika, porém. E os conhecimentos de Geraldo se fizeram mais que necessários. Os projetos de pré-natal estão na espera, enquanto o médico integra os grupos mundiais de pesquisa da zika.

No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, criou o Ambulatório de Zika na Gravidez e na epidemia chegou a atender 20 pacientes por dia.

– A zika é o desafio do mundo.

Aceitou mais esse desafio com fé.

Não se sente deus, mesmo com tantos feitos. Acredita “Nele”.

     –  Tem situações que só Deus pode intervir. Não estão no nosso controle.

Diz que vai seguir em frente até quando “Ele” der forças.

– Nada como o tempo. O tempo mostra aonde a verdade deve estar; e não aonde eu acho que ela deve estar.

Finaliza – mas só o texto. Na Medicina, ainda tem muito a concluir.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

Assine História do Dia por R$ 13 ao mês ou faça uma doação de qualquer valor AQUI.

Nos ajude a continuar contando histórias!

Mostrando 2 comentários
  • Iara Correa
    Responder

    Meu caro estimado chefe e amigo. Deus o proteja sempre com bênçãos de saúde, paz e sabedoria. Abraços ?

  • Marilene Rosa Oliveira Brandão
    Responder

    Caro Doutor, Professor e Mestre!
    Professor Geraldo como é chamado carinhosamente pelos alunos.
    Tive a grata satisfação de conhecê-lo pessoalmente na ante sala do salão onde se realizaria a Colação de grau da 48ª turma, da qual a minha filha Tetzi Oliveira Brandão fazia parte. Conversamos um pouco, nos despedimos, pois a cerimônia já estaria prestar a começar, aí o Mestre nos falou,”a sua filha não será apenas uma médica, ela será uma grande médica”. Carrego comigo essa “profecia”, e vejo com imensa satisfação que está se concretizando.
    Obrigada por acreditar nela e, parabéns pela longa jornada em prol das mulheres!

Deixe uma resposta para Iara Correa Cancelar resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar

Inspirada em Cora Coralina, Tânia transforma em palavras as vivências de seus 72 anosAos 78 anos, Isaura pega recicláveis todos os dias no Paulo Gomes Romeo e conta história de muita luta