José Carlos: história de trabalho e amor pela Biblioteca Altino Arantes

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 12 de setembro de 2017!

 

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Para ouvi-la, é só clicar no play: 

 

– Você sabe que às vezes eu nem acredito que tô aqui até hoje?

O convite veio da vizinha da frente, que era a diretora na época. José Carlos Gomes, aos 15 anos, já tinha paixão confessa pelos livros.

– Eu acho que levei a sorte grande!

Aceitou a proposta e – sem perceber – é o funcionário mais antigo da Biblioteca Altino Arantes de Ribeirão Preto.

Há 54 anos, passa os dias entre os livros e os leitores. Aos 68 anos, é o leitor mais assíduo da biblioteca que cuida.

– É que faço com tanto prazer que não percebo o tempo!

O pai apresentou o mundo mágico das histórias.

Só sabia escrever seu nome, mas viajava longe com a imaginação. Quando era conto de assombração, o menino custava a dormir por dias.

A professora do quarto ano deu o primeiro livro, quando José começou a entender das palavras. Guardou o exemplar por anos a fio, junto com os outros tantos que tomou gosto em colecionar.

O menino construiu uma pequena biblioteca particular com os livros que recolhia das ruas. Na época, o artigo era de luxo. E a família não tinha condições de comprar.

– A gente morava na rua Floriano Peixoto, onde morava também muita gente rica, que lia muito. Eles descartavam revistas, gibis, livros e eu pegava. Lia tudo o que encontrava, até mesmo apostilas. E guardava em uma prateleira que eu fiz.

O convite para trabalhar em uma biblioteca de verdade foi uma passagem – só de ida – para a história de uma vida. Que continua a escrever.

José Carlos biblioteca Altino Arantes Ribeirão Preto - História do DiaJosé Carlos – embora botafoguense – nasceu na chácara Palma Travassos, onde hoje é o campo do Comercial. Os pais trabalharam ali por um bom tempo, antes de se mudarem para o Centro de Ribeirão.

Além de José, tiveram outros 15 filhos. Oito morreram quando bem pequenos, por enfermidades de todo tipo.

– Agora eu vejo o quanto eles lutaram para não deixar faltar café da manhã, almoço e jantar.

A mãe cuidava da casa, o pai trabalhava com um pouco de tudo e os filhos tinham que ajudar. A escola, porém, era regra. Que a ajuda viesse no horário contrário a aula.

José fez todo o ensino no Otoniel Mota, escola pública tradicional da época. E, antes de começar na biblioteca, trabalhou como guia de pessoas cegas e ajudou o pai a fazer jardins.

Entrou na biblioteca Altino Arantes para fazer um pouco de tudo: serviços externos, colocar as fichas de empréstimos dentro dos livros que retornavam das ruas, no tempo em que todo o serviço era manual.

O dinheiro que ganhava ajudava em casa e, mais para frente, tornou possível a faculdade.

O menino, porém, se embaralhou no caminho. Pensou que queria ser médico e tentou o vestibular, sem sucesso. Partiu, então, para Ciências Biológicas, mas a empreitada durou só dois anos.

– O professor falou que a partir de tal dia a gente iria mexer com peças humanas. Cheguei em casa e fiquei pensando: ‘Isso não é para mim’.

Trocou pelo curso de Letras. Lugar de onde, de fato, nunca saiu.

Conta que teve propostas, com salário melhor, para trabalhar em outros lugares depois de formado. Nunca conseguiu aceitar. A biblioteca tem braços feitos de livros para envolver.

Foi mudando de cargo com o tempo. Passou a fazer as fichas dos livros, catalogar as inscrições, até atender os leitores, parte preferida.

– O que eu adoro fazer é conversar, indicar e receber indicações também. É uma troca!

Hoje, é o administrador da biblioteca.

Mas diz que só ocupa sua sala particular, longe dos livros, para os trabalhos burocráticos. Gosta mesmo de ficar andando por entre os corredores.

Se aposentou em 97, mas deixar o trabalho é assunto de muitas reflexões.

José Carlos biblioteca Altino Arantes Ribeirão Preto - História do Dia

José não tem ideia de quantos livros já leu em tanta vida. Mas sabe que não passa um só dia sem leitura.

– Muitos livros transformaram minha maneira de pensar, encarar o mundo, interpretar questões. É uma somatória de leituras que vão modificando a gente.

Uma de suas funções na biblioteca é selecionar e comprar boas obras para o acervo que está sempre crescendo. É preciso leitura de sobra!

Ele viu gerações de leitores entrarem e saírem pelos corredores.

Com alguns, criou elos feitos das melhores palavras.

Hoje, tem gente que passa por ali só para dar um oi. A internet modificou a forma de ler e muitos leitores assíduos estão trocando as prateleiras pelo tablet.

Antes, ele relembra quase saudosista, os corredores ficavam cheios de alunos em busca de conteúdo para pesquisas, que agora estão ao alcance de um clique.

Mas José – sorriso que toma lugar fixo no rosto – não é do tipo pessimista.

– As coisas vão conviver. Como tem sido com o rádio e a televisão, a televisão e cinema. O importante é que as pessoas leiam. Ler é fundamental para as pessoas melhorarem no sentido ético, humano e compreenderem esse mundo que a gente vive.

José Carlos, leitor assíduo, tem só quatro exemplares em casa. São poetas de cabeceira, para o caso de faltar o que ler em uma emergência.

Todos os livros que compra e ganha vão para as prateleiras da biblioteca – depois de lidos.

No tempo que ele não viu passar está o maior dos “porquês”.

– No fundo, eu acho que essa biblioteca é minha!

Diz, com o mesmo riso fácil de toda a conversa.

Logo, fica pensativo e refaz.

– Eu sei que ela não é minha… Não é questão de posse, mas de parte. Eu sou parte dela e ela é parte de mim.

Na biblioteca à qual pertence, vai buscando encaixar, entre uma leitura e outra, a chegada do amanhã.

– Eu não penso, mas eu tenho que pensar. Uma hora, vou precisar partir…

E ele, que é tão cheio de vocabulário, perde palavras.

– Mas eu não sei responder como vai ser… É algo que estou me preparando já faz um tempo. E preparado mesmo eu não estou. Estou consciente de que eu fiz meu trabalho.

Busca bons argumentos para, enfim, deixar a aposentadoria chegar: tempo para ler, rotina sem horários, dias livres depois de 54 anos.

– Vou tentando me convencer… Mas sei que vou sonhar muito com a biblioteca! Também sei que mudanças são necessárias.

Confessa, com um riso tímido, que não troca o companheiro papel por tablet algum. Na contracapa da mudança, vai continuar o leitor assíduo da sua biblioteca.

Ele bem sabe, depois de meio século que não sentiu chegar: entre um livro e outro, o tempo passa sem alardes.

Basta um convite, quem sabe da vizinha em frente, para uma bela história começar.

 

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Comentários
  • aristides marchetti - ribeirão preto
    Responder

    Conheci o Zé Carlos ainda em 1965, quando, aos 8 anos, comecei a frequentar a Biblioteca Cultura Altino Arantes.
    Tornei-me sócio em 1967 e nesses 52 anos raros foram os dias em que não frequentei a amizade do Zé.
    A Biblioteca é uma marco na história de Ribeirão Preto a qual vem sobrevivendo “aos tempos de modernismos”, como diria José Cândido de Carvalho, mantendo aquele lugar um nostálgico ponto de contato com o Passado.

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