Thaiane luta pela ‘maternidade real’

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 27 de abril de 2017!

 

Pela primeira vez desde 2010 o número de cesáreas não cresceu no Brasil. O fato foi divulgado com comemoração pelo Ministério da Saúde no mês passado.

Thaiane Guerra Caetano também comemora. Se sente parte da mudança que tem feito as mulheres optarem pelo parto natural.

Desde que descobriu que é possível parir sem violência, tomou para si essa luta.

Uma vez nesse mundo, não saiu mais.

De enfermeira do setor de urgência, passou para a área obstétrica, fez curso de doula e se especializou em partos. Partos em que a vontade da mulher é respeitada.

Hoje, amplia as discussões para o pós-parto, os tabus da amamentação, a forma humana de criar filhos.

E aplica sua luta em casa. O primeiro menino nasceu de parto domiciliar. Grávida do segundo, Thaiane, 30 anos, se prepara para repetir o processo.

– Muitas pessoas preferem ficar de olhos fechados porque abrir dói. A mulher passa a ter que lutar muito, brigar muito para ter suas vontades respeitadas.

Thaiane fez enfermagem, mas sua história com o parto não começou no curso. Pelo contrário. Ela conta que não gostava de fazer plantões na área de obstetrícia.

– Alguma coisa me incomodava no nascer. No primeiro parto que assisti, fiquei horrorizada com a violência.

Se especializou na área de urgência e emergência e, depois de formada, trabalhou com pacientes em estado terminal.

– Percebi ali que o nascer e o morrer são feitos da mesma linha, mas em pontos diferentes. Primeiro precisei respeitar a morte, para depois entender o nascimento.

Foi só quando a irmã engravidou, em 2009, que ela começou a pensar o parto. Nessa época, trabalhava em Pronto Socorro e atendimento em rodovia. O plano era prestar concurso e ser aprovada no Samu.

Foi surpreendida por um universo que, até então, desconhecia. E só conheceu porque buscou encontrar para o sobrinho uma alternativa sustentável à fralda descartável.

– Eu encontrei uma comunidade de fralda de pano. A moça que usava tinha tido um parto domiciliar e relatava aquilo na internet.

O primeiro pensamento foi: ‘Quem é a louca que tem um bebê em casa em pleno 2009?’.

Dois anos depois, Thaiane teve seu primeiro filho, em um parto domiciliar.

 

– Eu senti o peso da sociedade. Não tinha um sistema médico que me favorecesse, eu estava à margem. Era como se eu estivesse à deriva com a minha escolha.

Seguiu firme com a sua decisão, apesar de tudo. E não passou perto de se arrepender.

– O nascimento do meu filho foi a experiência mais fantástica da minha vida. A partir dali, era um caminho sem volta. Eu senti que tinha que levar isso a outras mulheres.

Três anos depois, começava a atender partos como enfermeira obstétrica e doula.

– O que eu não gostava na maternidade não era do parto, mas da infantilização da mulher no parto. A responsabilidade do parto cabe ao médico e à mulher cabe o enxoval. Ela é jogada em um procedimento baseado no medo e na submissão.

Thaiane conheceu um grupo de mulheres que não estava preocupada com enxoval, mas com a melhor forma de trazer seus filhos ao mundo.

Ela somou à esse grupo, que até então era pequeno. E viu o movimento tomar força.

 – As mulheres é que tem que ser tocadas. Então, foi um movimento social. E, agora, vem um movimento muito mais forte, que é o cultural.

Mas e aí? A escolha do parto foi consciente, a mulher teve suas vontades respeitadas e um bebê veio ao mundo. Quais os passos do pós-parto?

Hoje, essa é a principal luta de Thaiane.

– A gente se prepara para o parto como se fosse a maior montanha do mundo e, quando a gente vê, o pós-parto é maior ainda. Está tão enraizado que amamentar dói, que o bebê tem que ser doutrinável… A mulher não consegue nem pedir ajuda!

Thaiane entende que a amamentação é um dos maiores tabus dos dias de hoje. Seu primeiro filho mamou até os cinco anos e até mesmo de médicos a mãe ouviu repreendas.

 – A sensação é de que você está fazendo algo totalmente saudável para o seu filho, mas visto como errado pela sociedade.

Ela entende que a relação da mãe com o filho é construída de maneira intensa desde a gestação. E deve ocorrer sem intervenções, sem palpites.

– Se deixada em paz, a mulher sabe como cuidar do seu bebê. É preciso fazer a mulher enxergar que tudo bem ela estar no caos durante o pós-parto. É assim. Você vai ser colocada  à prova o tempo todo, vai perder sua identidade, mas vai passar.

E defende a maternidade real: sem rótulos, regras, fotos de mulheres lindas no pós-parto que não é tão lindo assim.

– O começo é muito difícil e a gente acha que não vai dar conta. Mas é um momento de construção. Aquele bebê é o único no mundo e quem sabe cuidar dele é a mãe. Mas aprender é doloroso.

Aos 30 anos, se prepara para a chegada do segundo filho com intensidade. E avisa:

– As pessoas acham que por trabalhar com isso é mais fácil, mas não é.

Tem medo e se preocupa, ser humano que é.

– Tudo que é incontrolável traz ansiedade e medo. Eu tenho medo da dor, da frustração, de intervenções. Mas não deixo o medo me controlar.

Conta que até os 17 anos tinha o costume de dormir com a mãe. De repente, decidiu deixar a pequena São Joaquim da Barra sozinha e partiu sozinha para Ribeirão Preto estudar. Passou em Enfermagem na USP um ano depois.

– Minha mãe sempre dizia: dormia comigo e, quando resolveu mudar, foi logo morar sozinha. E eu sempre tive esse espírito. Nunca fui de fazer o que a sociedade espera que seja feito.

Thaiane não sabe que dia o seu bebê vai nascer, como vai ser o parto, o pós-parto e tudo o mais que ter um filho traz. Se prepara a cada dia, porém.

– Ter um filho é aceitação. E não é ‘aceita que dói menos’. É ‘aceita que você entende’. Já que vai ser difícil, então curte o caminho.

Pela primeira vez desde 2010 o número de cesáreas não cresceu no Brasil. Thaiane participa da mudança. E quer continuar participando. Sabe que há um longo caminho pela frente.

 

 

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