Rosa Cosenza: vanguarda e encantamento

Esta história foi narrada pela jornalista Rosana Zaidan. Para ouvi-la é só clicar no play: 

 

Vale a pena ler de novo! História contada pela primeira vez em 10 de julho de 2017!

 

Ela não tinha idade para estudar. Mas era na escola que queria passar os dias.

Pegava a lancheirinha de brincar, fugia pelos fundos da casa e caía no colégio Auxiliadora.

A proximidade ajudava o seu plano, é claro. Rosa Cosenza nasceu na esquina da rua Mariana Junqueira com a Cerqueira César, casa de Centro, família tradicional, bem ao lado do colégio que fez de quintal.

Era tanta afetividade que a família chegou a pensar que ela seria freira. Não correspondeu aos palpites familiares, apesar de frisar que sua fé é a parte maior de si.

Na época em que a mulher parecia predestinada a ser esposa e mãe, Rosa escolheu abdicar dos fardos. Casou depois dos 50 anos – e não teve filhos.

Escolheu usar o tempo estudando mundo afora.

Fez três faculdades – uma delas depois dos 50 anos – e um curso de formação à distância, mestrado, doutorado, foi aluna de Paulo Freire durante período no Chile, esteve duas vezes em cursos na França, foi duas vezes chefe de departamento na prefeitura de Ribeirão Preto, é a primeira e única mulher a assumir a presidência da Academia Ribeirão-pretana de Letras.

E eis aqui currículo bem resumido. O completo soma páginas e mais páginas.

Na casa onde vive – quintal verde, salas enfeitadas com livros, bibelôs e santos – guarda em uma estante de vidro as honrarias que recebeu ao longo do percurso.

Na parede, junto aos diplomas, está o título de cidadã emérita ribeirão-pretana e o diploma de Mérito Cultural.

– Eu acho que cada um tem uma missão. Eu já nasci com essa missão a cumprir: sempre me preocupei com o coletivo.

Aos 81 anos, Rosa é parte da história de Ribeirão Preto, somando em um mesmo caminho a cultura, as letras e o Direito.

Rosa Cosenza escritora de Ribeirão Preto no História do Dia

O pai fez carreira como funcionário da prefeitura. A mãe deixou a faculdade de farmácia para casar. Tiveram quatro filhos, um único homem.

Rosa era a filha do meio. Tinha na irmã mais velha um espelho. Por isso, tanta vontade de estudar antes da hora, seguindo os passos da outra, que já estava na escola.

Aos oito anos escreveu seu primeiro poema, com destinatário mais que especial. Falava da mãe e, desde então, nunca mais deixou de combinar palavras em poesia.

Pelas amigas, diz que era considerada “meio doidinha”.

Já no ginásio, criou o grupo “Sassarico”, inspirada pela marchinha de carnaval que falava da “vida no arame”. Contrapunha as regras do colégio, que exigia uniforme completo, com meias e nenhum adorno.

– A gente entrava normal. Quando chegava dentro da escola, colocávamos um cintinho na cintura e um lacinho vermelho, que eram proibidos. Quem tinha o lacinho era do Sassarico.

Hoje, a tal “loucura” é, em fato, sua vanguarda.

– A turma era criada para casar. Lembro da minha irmã mais nova bordando enxoval. Eu nunca tive essa preocupação.

A família era pautada por um forte catolicismo.

Mas os pais de Rosa escolheram deixar a filha livre para escolher o estudo no lugar do altar. Ela diz, aliás, que o pai foi estímulo.

Estava sempre a ler e fez Rosa acreditar nas palavras como a melhor opção.

– A palavra é tudo. O evangelho diz: ‘No princípio era o verbo’. A palavra é energia. O que você fala, acontece.

Passou na faculdade de Letras e, em 1953, partiu para São Paulo estudar em uma instituição católica. Morava em um pensionato coordenado por freiras.

E passou a vê-las por um outro viés.

– As freiras de lá era muito modernas. Davam festas, arrumavam a gente, estavam sempre nos animando. Toda essa liberdade foi uma mudança radical.

Tanto que não queria voltar para Ribeirão Preto. Veio um pouco contrariada, a pedido da família.

Rosa Cosenza escritora de Ribeirão Preto no História do Dia

No final da década de 50, recém-formada, Rosa começou a escrever para o Diário de Notícias de Ribeirão Preto e criou a coluna “Nosso encontro”.

Decidiu, então, que precisava aprender jornalismo e começou um curso por correspondência.

– Eu sempre achei que para assumir algo tinha que ter formação naquela área.

Na mesma época, entrou para a prefeitura de Ribeirão Preto como professora. Fez, então, sua segunda faculdade, de pedagogia.

– Se eu iria trabalhar com educação, eu tinha obrigação de saber.

Dava aula no curso de “Madureza”, para adultos que queriam voltar a estudar. Depois, passou por incontáveis escolas, foi diretora e, por duas vezes, assumiu secretarias: primeiro a de Educação e depois a de Cultura.

Quando assumiu a Educação, acabara de voltar do Chile.

Era 1965. A ditadura avançava com garras afiadas e Rosa passou a sofrer perseguição.

– Queriam me investigar. Achavam que eu era de esquerda. Eu era uma professora!

Recebeu um convite para trabalhar  na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no Rio de Janeiro, e pareceu providencial.  Era uma maneira de deixar o alvoroço.

Foi, sem imaginar como seria. Depois de alguns meses por lá, ganhou uma bolsa de estudos para um curso de Ciências Sociais, no Chile. Cada matéria era ministrada pelo professor de um país latino-americano.

– Adivinha quem era o professor de educação? Eu fui aluna do Paulo Freire! Muita coisa que eu fiz aqui foi graças a ele!

Voltou com toda a bagagem necessária para cuidar da educação em Ribeirão Preto. As homenagens que ainda hoje recebe mostram que o fez.

Ficou na Educação de 1969 a 1973 e na cultura de 1977 a 1983.

Como chefe do departamento de cultura, conta que criou o MIS (Museu da Imagem e Som), abriu a biblioteca municipal para o público, iniciou os festivais de teatro amador, organizou a feira de artesanato, a feira do livro, o 1º Salão de Fotografia.

– A cultura somos nós. Desde a pessoa que está na roça plantando mandioca, até a que está na academia fazendo ciência. A cultura é a tal realização da missão que você tem para cumprir.

No final da década de 80, se aposentou da prefeitura. A frase do “aposentar as chuteiras” andava longe da sua literatura, como era de se esperar.

Decidiu buscar um sonho antigo.

Um dos poetas preferidos, Álvares de Azevedo, havia se formado em Direito na Faculdade São Francisco.

O pai deixou Rosa escolher os estudos em lugar do altar, mas não aceitou quando a menina disse que queria ser promotora. Era muita “audácia” para a época.

– Quando eu me aposentei decidi, então, fazer Direito para tirar minha frustração.

Entrou na Faculdade de Direito de São Carlos e, nas noites de segunda a sexta-feira, dirigia 200 quilômetros para ir e voltar. Aos sábados, a aula era pela manhã.

– É muito amor, né?

Depois de formada, passou no exame da ordem e começou a advogar. Não bastava aprender. Rosa quis exercer a profissão do poeta.

Rosa Cosenza escritora de Ribeirão Preto no História do Dia

Rosa conta que sempre costumou andar com papel e caneta na bolsa, transformando em palavras suas observações sobre o mundo.

Essa é sua forma de criação: olha o mundo e escreve sobre o ele.

Com olhar atento, já publicou quatro livros e uma coleção com sete mini livros, que ela chamou de “gotas”. Além de artigos espalhados pelo mundo todo.

Na década de 90, entrou para a Academia Ribeirão-pretana de Letras e, ainda hoje, é a única mulher a assumir a presidência da instituição. É também membro da UBE (União Brasileira de Escritores), da Academia Ribeirão-pretana de Letras Jurídicas e membro fundadora da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto.

As letras que a levaram de Ribeirão para olhar o mundo pela primeira vez, hoje voltam a ser objetivo. Quer publicar boa parte dos textos que tem guardados em gavetas, cadernos e computadores.

Rosa acredita. Acredita nas palavras, na cultura, no Direito, nas pessoas, na fé. Sobretudo, na fé.

– Toda força para persistir vem de Deus. É essa força que me sustenta. O mundo é tão bem organizado que só poderia ter sido criado por uma força superior. O que move essa força é a nossa fé.

Por acreditar, enxerga uma mudança positiva vindo por aí.

– Se você voltar para o passado e estudar a história vai ver que todos os povos, quando chegaram no fundo do poço, encontraram uma forma de reagir. Se já não chegamos, estamos chegando. Estou pressentindo que vai haver uma reviravolta.

Diz que hoje, olhando para o passado, é toda gratidão.

– Eu agradeço todos os dias, porque fui abençoada. As coisas foram acontecendo na minha vida.

Além de publicar suas palavras, pretende também conhecer a Índia.

E, depois desses, virão outros planos, outros mundos a observar com seu olhar atento e ilimitado.

A Rosa menina fugia de casa para ir à escola.

A Rosa moça quebrou as regras impostas pela época.

A Rosa mulher se descobriu, então, sem fronteiras.

E continua indo livre, pelo vasto mundo do que traz – e sempre trouxe – encantamento.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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