Vinte anos após adoção, Bianca conseguiu colocar nome dos pais no registro de nascimento

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No Judiciário, o processo durou 12 meses. Para Bianca, foi uma construção que começou quando tinha cinco anos e entrou naquele carro com destino a Ribeirão Preto, deixando para trás o passado de abandono.

Maria Madalena conta que já havia se convencido a não tentar. Deixaria a pequena nomeá-la como quisesse. Em poucos minutos, entretanto, Bianca já escolhera chamá-la de “mãe”. Foi assim: do coração.

– Eu falo que era para ela ser minha filha de qualquer jeito. Ela só nasceu no lugar errado.

Para corrigir o tal erro de percurso, Bianca decidiu que queria levar o nome dos pais que a criaram na certidão de nascimento. Formalizar o amor, para agradecer por tê-lo recebido. Quando os pais a buscaram como filha, tinham uma guarda provisória que durou a vida toda.

– É uma forma de retribuir o amor que eles me deram e mostrar para todo mundo quem é o meu pai e quem é minha mãe.

Quando fez 15 anos, o pai de criação teve a ideia do registro como presente. Tentaram de maneira pacífica, conversando com o pai biológico de Bianca e pedindo que ele formalizasse o que era realidade desde menina, quando foi morar com os pais de criação, que eram seus tios-avós, para não ser entregue ao Conselho Tutelar.

O homem não aceitou, porém. Disse que a filha era sua, apesar do pouquíssimo contato com ela. E a família acabou desistindo.

Na véspera do aniversário de 16, um ano depois, ela perdeu o pai de criação em um acidente de carro. O registro, então, ao mesmo tempo em que parecia mais distante (como realizar a adoção de um pai que já morrera?) se tornou um objetivo:

– Eu senti que eu devia isso para ele.

Os anos foram passando, até ela decidir que não queria mais esperar. Em 2018, aos 24, recém-casada, procurou uma advogada, contou sua história e soube que o percurso seria desafiador, mas possível.

– Foi um desafio. Não é uma decisão inédita, mas também não é comum. O caso da Bianca prova que é possível acontecer a adoção no pós-morte.

Diz a advogada Najla Ferraz de Oliveira, que cuidou do processo.

Passaram um ano convencendo a Justiça de que Bianca é filha de Maria Madalena Bermudes da Silva e Cláudio Santos da Silva. Os três irmãos de criação assinaram declarações confirmando a adoção, a família juntou fotos e mais fotos ao processo, além das cartinhas que Bianca escrevia ao pai quando criança.

– Nós tínhamos comprovações suficientes de que a relação entre eles era de pai e filha.

A advogada enfatiza.

Levou um ano, mas quando a nova certidão chegou, Bianca chorou de alívio. Um choro de “missão cumprida”, como diz. Passou a ser Bianca Bermudes da Silva também na certidão (agora, com o Zanandrea que veio do marido).

– Eu só sou o que eu sou hoje por eles. Aqui eu conheci o que é uma família, fui para a escola, tive amor.

Logo após o processo dar certo, ela teve seu primeiro filho, Théo, que está com quase dois meses e já leva na certidão o sobrenome do avô e também da avó. Bianca fez questão que fosse assim e a avó se emociona para falar:

– Para mim, o sobrenome não faz a diferença. O que faz a diferença é isso: ela se casou, tem a família dela e continua aqui, sendo minha filha. Eu tenho cinco netos e o Théo é o único que leva também o meu sobrenome no registro.

Bianca conseguiu formalizar adoção da Justiça mesmo após a morte do pai adotivo

Bianca nasceu em Santo André, grande São Paulo, a mais velha de três irmãs. Sua mãe biológica tinha 16 anos quando engravidou. Os pais logo se separaram e as filhas viviam pulando de casa em casa, cuidadas por um e por outro parente.

As lembranças dessa época são feitas de panelas e casas vazias. Ela conta que constantemente ficava cuidando das irmãs mais novas, sozinha em casa. Também se lembra que deixou de comer para dar o pouco que tinha para as pequenas.

Foi o avô que decidiu dar fim à situação, quando soube que os pais biológicos estavam prestes a perderem as meninas em ação do Conselho Tutelar.

Meses antes, elas haviam passado alguns dias na casa dele, em Ribeirão Preto. Ficaram pouco tempo, mas o suficiente para que Bianca conhecesse os tios-avós que viriam a se tornar pais. Seu avô era irmão do seu pai de criação.

– Desde o começo, minha afinidade maior foi com a Bianca. A gente não tinha condições de ficar com as três, mas eu disse que ficaria com ela.

Quando o tio-avô ligou dizendo que seria mesmo necessário buscar as crianças em definitivo, Maria Madalena conta que não tiveram dúvidas.

 – Ver uma criança sofrer… passar necessidades… me sensibilizou. O que eu senti, de fato, foi amor.

Bianca chegou com a cabeça cheia de piolhos e uma porção de roupas emboloradas dentro de um saco preto. Foi tudo para o lixo: a tristeza e as vestes. Recomeçou, renasceu. Entrou no carro reconhecendo sua mãe.

Bianca conseguiu formalizar adoção da Justiça mesmo após a morte do pai adotivo

Madalena e o marido já estavam com os três filhos grandinhos quando decidiram adotar Bianca. O mais novo tinha 16 anos e a mãe 45. Não tiveram medo de recomeçar.

Ela diz, porém, que levou a criação de Bianca a rédeas curtas.

– Isso é responsabilidade. Eu não podia tirar ela de lá e deixá-la largada aqui.

Garante, entretanto, que criou os filhos biológicos com a mesma “braveza”. Checava tudo o que Bianca fazia, buscava e levava para todos os lugares, queria que a menina entendesse o certo e o errado.

– Ela foi criada com as mesmas regras e o mesmo amor. É a mesma coisa. Não tem diferença.

Aprendeu com a sua mãe, avó de Bianca, que ficou sozinha para criar nove filhos depois que o marido morreu de enfarto. Madalena era uma das mais velhas e ajudou a criar os irmãos.

– Isso de criar, educar já está em mim. Minha mãe estava grávida quando meu pai morreu. Ela era brava e exigente.

Hoje, olha para a filha e se orgulha do caminho que ela traçou.

Bianca se formou em administração de empresas, se casou há 2 anos e teve o pequeno Théo, que tira uma soneca enquanto a conversa está acontecendo.

– Ela é uma pessoa de valores. Era isso que eu queria para os meus filhos. Os quatro são.

Bianca conseguiu formalizar adoção da Justiça mesmo após a morte do pai adotivo

Ainda em licença maternidade, Bianca vai todos os dias para a casa da mãe. Passa as tardes com Madalena, que está sempre rodeada também pelos outros quatro netos.

– Ela é meu exemplo, minha inspiração para ser mãe do Théo. Me inspiro nela todos os dias.

Madalena, por sua vez, se emociona quando tenta definir o que é ser mãe. Por alguns momentos o choro, tão raro de sair, não deixa as frases nascerem.

– Ser mãe? É doação… Não consigo falar… É quase que deixar de viver a própria vida para viver a vida deles. Se vale a pena? Só vale a pena!

Bianca escuta tudo com os olhinhos brilhando. Todo esse choro tem raízes na alegria. Na vida que começou quando Madalena e Cláudio decidiram amar além dos rótulos e da burocracia.

– Muitas pessoas não dão valor aos pais que as criaram, crescem revoltadas por serem adotadas. Eu cresci agraciada.

O amor de Bianca é feito de gratidão.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

 

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Comentários
  • GISELE FELIX
    Responder

    E com lágrimas nos olhos que vou deixando meu comentário.
    Conheci Bianca através de um grande amigo, hoje casado com ela. E sempre que nos falamos digo a ele que linda família que Deus deu a ele de presente.
    Lendo a história de vida que Bianca tem, explica toda a luz que erradia sobre ela.
    Que esse seja apenas mais um exemplo de que o amor de mãe esta no sangue sim, mais que o amor de mãe que surge do coração, não tem nem explicação.

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