Victor trabalha na Câmara de Ribeirão Preto e soma conquistas

É final de festa. Eu me sento em uma cadeira e paro para observar a criançada que se despede. Victor se senta ao meu lado. Não há timidez. Começa, da sua forma, a se apresentar para mim.

As dificuldades que tem na fala, em poucos minutos, são superadas pela vontade de se expressar. Em sons e poucas palavras, ele me conta que tem 29 anos e trabalha na Câmara Municipal de Ribeirão Preto. Depois, me mostra seu Facebook no celular e pergunta se podemos ser amigos.

Victor Cainelli tem síndrome de Down. A mãe diz que, ainda muito pequeno, ele precisou lutar pela vida, com problemas respiratórios e de circulação.

A fala não se desenvolveu, mas a vontade de se comunicar é imensa. Tanto que ele se comunica. E trabalha. E faz piadas que despertam gargalhadas largas.

Me diz que tem dois “Vitors” trabalhando na Câmara. Eu provoco: Qual é o mais legal? E ele, então, bate no peito e responde: “Eu, claro!”.

Conta que está em busca de uma namorada e que, agora, quer se casar – depois de “dar o fora” em umas tantas meninas com quem se relacionou.

A melhor coisa do mundo? Comer, ele não tem dúvidas – e eu compartilho um bom tanto da sua opinião! Tem muitos amigos? “Tudo, tudo!”, é a resposta.

Tem ciúme da sobrinha mais nova, gosta de ir ao cinema sozinho e de dormir na casa dos amigos. Visitou o parque do ídolo, Harry Porter, na Disney, e já está ansioso para a próxima viagem com os pais. “Você é feliz?”, é minha pergunta.

– Feliz! Muita saudade, amor e paz no coração!

Poucas palavras bastam para expressar sua força, que é muita.

Vitor e Sílvia Cainelli Síndrome de Donw

Victor é o filho do meio de Sílvia Cainelli. A mãe conta que sonhava com um menino, depois da primeira filha. No dia em que soube o sexo do bebê, um tempo feio de chuva se armou no céu.

– Eu fiz um link da minha felicidade com as dificuldades que estavam por vir. Era como um anúncio.

Recebeu o diagnóstico de síndrome de Down no dia em que Victor nasceu, ainda no hospital. Três décadas atrás, Sílvia diz, as informações não eram tão disseminadas e o preconceito era ainda mais latente.

A mãe teve medo do viria.

– Eu dizia que não o queria. Não aceitava o diagnóstico.

O choque durou poucas horas, porém. Quando ela e o marido chegaram da maternidade à casa da família, sua irmã fez o alerta: “Se você está falando que não quer o bebê, me dê ele agora! Ele fica comigo”.

– Eu respondi imediatamente: ‘Não! Ele é o meu filho!’. E o amor foi vencendo, crescendo. É um amor que supera tudo.

Mãe e filho não se desgrudam.

– Eu sinto necessidade de tê-lo por perto! Do abraço, do beijo dele. Onde eu vou, ele está comigo.

Victor foi se desenvolvendo em meio a alguns sustos. Foram repetidas internações em UTI, por problemas respiratórios e circulatórios. Sílvia relata que, em uma situação, o médico avisou que ele não teria mais do que seis meses de vida.

– Nós achamos que íamos perdê-lo muitas vezes. Mas continuamos fazendo de tudo.  E ele sobreviveu. É um guerreiro para a vida!

Ele encontrou nos esportes o maior aliado. Na natação, já foi campeão. E também aprendeu a tocar teclado.

Trabalhou em um órgão estadual de meio ambiente e em um mercado, antes de entrar na Câmara, há quase um ano.

Foi contratado após um projeto de resolução aprovado pelos vereadores em abril de 2017, que prevê a contratação de dois estagiários com síndrome de Down, com o objetivo de fomentar a inclusão.

Por lá, desempenha funções administrativas: cuida de documentos, leva ofícios que precisam ser assinados, ajuda a enumerar processos e cativa as pessoas ao redor.

Para o coordenador administrativo da Câmara, Jonatas Samuel Silva de Souza, trabalhar com Victor é uma “lição de vida”. Vai enumerando as qualidades do jovem:

– Ele é muito prestativo, alegre, carinhoso, com um coração que não é dele e querido por todos os funcionários, e vereadores.

A relação, ele diz, é de troca.

– Quando ele percebe que o clima não está legal, vem perto, quer nos abraçar. A gente acalma ele, ele nos acalma. É uma troca de energia.

Jonatas não tem dúvida: é possível incluir.

– Nós conseguimos ver de perto a evolução do ser humano. O Victor mudou muito desde que chegou. Nós acompanhamos, ensinamos e ele aprende.

No dia da entrevista, Victor havia acabado de chegar do trabalho. Foi logo contando para a mãe como havia sido seu dia, sem poupar empolgação.

– Ele é muito querido por lá!

Sílvia explicou, toda orgulhosa.

A mãe diz que, quando criança, Victor frequentou a escola regular por um tempo curto.

– Hoje, há uma pressão maior pela inclusão. Mas, na época, com uns seis anos, o Victor teve uma experiência muito ruim.

Ele, então, sabe ler com dificuldades, mas se esforça para aprender, como aluno do EJA (Ensino de Jovens e Adultos) no período noturno, terminando o Ensino Médio.

Sílvia teve o terceiro filho quando Victor tinha um ano e três meses. Com três crianças pequenas, ela conseguiu fazer faculdade de enfermagem, dividindo as tarefas com o marido e redobrando as forças.

Não esconde que é mãe “onça”, que briga, se for preciso, para que Victor tenha seus direitos respeitados. E abraça as vontades do filho. Atualmente, por exemplo, está em busca de uma nora.

– Ele quer ter uma namorada, a família dele. Sinto que será infeliz se não tiver.

O que quer para o Victor? Ela também não precisa de muitas palavras para responder:

– Quero que ele seja feliz. Busco a felicidade em tudo o que ele pede.

Vitor e Sílvia Cainelli Síndrome de Donw

Silvia acredita que as pessoas estão evoluindo. Mas o preconceito existe – e faz sofrer.

– Antes, quando o Victor nasceu, não se falava sobre Down, não havia filmes. Houve muito avanço. Mas as ideias ainda estão desabrochando, despontando. Tem muito a conquistar.

Para ela, a inclusão das pessoas – todas elas – na sociedade é a chave de tudo.

– É o convívio social, a empatia, as pessoas saberem acolher.

Na hora da foto, o sorriso de Victor sai mais espontâneo quando a mãe está ao lado, abraçando, dando beijo.

Conta para Sílvia que quer ir ao cinema e, quando a mãe pergunta se pode ir junto, porém, ele vai logo respondendo que não. Como todo jovem, quer ter sua individualidade.

Fala das amigas que tem na escola e vai logo pedindo para dormir na casa de uma delas, ao que a mãe responde: “Tenho que conhecê-la primeiro, Victor”.

Quando pergunto o que acha de Sílvia, olha para ela e diz:

– Te amo, mamãe!

Victor tem um sorriso maior que o rosto e Silvia tem razão: a gente sente vontade de estar perto dele. Está explicado, então, o “tudo, tudo” de amigos que ele tem e o carinho que recebe por onde passa.

Quando termino a entrevista, agradeço e ganho um sonoro “de nada” como resposta, com o sorrisão de sempre e abraço. Victor precisa de poucas palavras para cativar e conquistar a vida.

 

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Mostrando 12 comentários
  • Silvia Cainelli
    Responder

    Não consigo expressar tamanha alegria! Está lindo, já imaginava seu talento, mas me surpreendeu ainda mais! Daniela, você tem o dom para isso, fazer casa detalhe ser tão importante! Amei mesmo, obrigada por tudo!

    • Daniela Penha
      Responder

      Muito obrigada, Sílvia! Um grande alegria compartilhar essa linda história de vocês!

  • Marilena
    Responder

    Linda história do Victor..sou a tia Lena..amo demais …tds nós gostamos da presença dele..pelo carinho..sinceridade..E naturalidade.amo vitao

  • Bianca Cainelli
    Responder

    Lindaaa história!
    Daria um livro continuar escrevendo sobre este guerreiro, meu irmão!
    Obrigada Daniela!

    • Daniela Penha
      Responder

      Eu é que agradeço, Bianca!

  • Karina Nunes
    Responder

    Daniela…

    Sou tia, irmã, tudo postiça… Sim, eu sou tudo isso sim hehehehehe… O Victor é meu amor, minha paixão, meu padrinho de casamento e eu sou a Ka simplesmente a Ka dele…
    Eu o amo desde quando o vi pela primeira vez… Em 2011 em um evento onde ele todo meigo estava pintando o cabelo de azul e desde então nasceu o meu amor eterno por ele… Eu amei a matéria e cada detalhe da sua sensibilidade… Deus a abençoe grandemente… Tudo muito lindo.. estou emocionada. Um beijão…

    • Daniela Penha
      Responder

      Muito obrigada, Karina!!! Para mim é uma grande alegria contar essa história!

  • Layra Becher
    Responder

    Como não se emocionar ?? Amo vc querido ! ??

  • Matheus
    Responder

    Conheço o Vitor faz pelo menos 20 anos. Sempre acompanhou o pai dele e o tio dele em uma quadra de futebol na Vila Virginia. Palmeirense fanático. Menino alegre, adora um churrasco e fazer novas amizades. saudade daqueles tempos. Abraço Vitor!

  • Silvia
    Responder

    Victor foi um aprendizado na minha vida. Vc vê a responsabilidade dele no trabalho, vê a sensibilidade, o carinho. Se todos soubessem como aprendemos trabalhando com pessoas tão especiais como o Victor,ah o mundo seria bem melhor

  • Isabel Amaral
    Responder

    Amar o Victor é muito facil?? Fui professora dele por alguns anos, confesso ter aprendido muito mais do que ensinado! Parabéns pela matéria, inclusão de verdade se faz necessário em nosso país. Parabéns Victor, Mel ama vc?

  • Maristela do Carmo P.Candido
    Responder

    Exemplo de mãe. Amar,cuidar e confiar. Parabéns Silvia por tanto carinho e dedicação.

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