Após 24 anos de álcool e rua, Donizete volta a estudar e planeja o futuro

Donizete segura o lápis e vai escrevendo, letra por letra, nome e sobrenome.

Vez em quando, ainda custa a lembrar o que vem depois de uma vogal, mas segue no seu tempo e a escrita sai.

Aos 52 anos, voltou para a escola como aluno do EJA (Ensino de Jovens e Adultos) e, duas vezes por semana, frequenta aulas de pintura no Fundo Social da Prefeitura.

O aprendizado é força na luta contra o alcoolismo que durou três décadas.

Pela primeira vez em 27 anos, desde que saiu em busca de “andar para frente”, Donizete Aparecido Soares sente que está acertando o caminho.

– A minha ideia era ir para frente. Para ver se encontrava, às vezes, uma felicidade… eu queria uma mudança de vida.

Deixou a casa dos pais, em Minas Gerais, aos 25 anos, sem rumo e sem bagagem.

Saiu para “correr o trecho”, como diz. Andando a pé e de carona, parando de uma cidade em outra em busca de trabalho ou uma razão para ficar.

O álcool, porém, já era companheiro desde os 18 anos. E, cada vez que o caminho fazia uma curva repentina e as coisas pareciam ir para trás, Donizete buscava abrigo na cachaça.

– Eu começava a andar, via que não tinha expectativa e vinha a fraqueza. Não queria voltar para traz. Eu queria andar para frente.

Hoje, diz que está há quase três anos sem colocar álcool na boca.

Ficou seis meses em internação e, depois, foi acolhido pela ONG Mudando Vidas.

É o mais antigo da casa apoio, que chama de lar.

Donizete - História do Dia

Donizete cresceu na fazenda, na cidade Capetinga, interior de Minas Gerais. Os pais trabalhavam com a roça e ele seguiu o mesmo caminho desde menino.

A escola era inalcançável. Com 18 anos, começou a beber cachaça, mas não via qualquer perigo.

– A gente nega. Fala que bebe socialmente. Mente para si mesmo.

Depois que saiu da casa dos pais, aos 25 anos, nunca mais voltou.

– Eu queria melhorar de vida, ter um bom trabalho. Mas sem estudo, eu não ia conseguir.

Perdeu as contas das cidades por onde passou. Diz que conhece toda a região de Ribeirão Preto e chegou até o Paraná.

A cachaça era a companheira.

– O álcool ajuda a esquecer de algumas coisas. Mas, depois, você tenta encontrar uma saída e não consegue. Vira depressão dentro da gente.

Nem mesmo o diagnóstico de uma diabetes precoce o fez parar.

Das ruas de Ribeirão Preto, fez morada.

Chegou a passar mais de dois anos vivendo no Cetrem (Central de Triagem e Encaminhamento ao Migrante/Itinerante e Morador de Rua). Diz que tinha melhoras e recaídas constantes e chegou a pesar 55 quilos, antes de buscar ajudar.

Donizete conta que parou de beber sozinho e, antes da internação, ficou nove meses sem álcool. Tirava forças da fé e da vontade de mudar.

 – Eu não mudei para agradar ninguém. Foi para agradar a mim mesmo. Eu precisava mudar.

O medo da recaída o fez buscar ajuda.

– Eu queria me conhecer, saber onde estavam minhas fraquezas. A recaída é sete vezes pior.

Ficou seis meses internado em uma fazenda, com custeio de programas governamentais.

Por lá, conheceu Ricardo Tostes, que também estava em tratamento e resolveu criar uma casa apoio para dependentes químicos.

– Eu não tinha para onde ir. Não tinha família. Foi uma porta que se abriu.

Há um ano e cinco meses, ele vive na ONG Mudando Vidas. Recebeu apoio para voltar a estudar e frequentar cursos.

Todas as noites, vai à escola. De terça e quinta à tarde, frequenta as aulas de pintura. Já fez cursos na área financeira, panificação e sabe trabalhar como pintor.

Conta sua história para os pacientes que chegam à ONG.

– Eu não sei dizer o que eu sou. Deixo para as pessoas julgarem. Mas as pessoas em volta de mim falam que eu sou exemplo.

Donizete - História do Dia

Quando fala do passado, Donizete é tristeza.

– Eu tenho coragem, mas não tenho sorte. Não é fácil… mas também não é difícil.

É no presente que retoma a forças:

– Se ontem eu tava caído, hoje eu tô de pé.

Nem adianta convidar para festa, porque ele já avisa que não vai.

– Eu prefiro ir na escola do que em um churrasco. Eu não quero abrir mão da escola.

Vivendo um dia por vez, não planeja o futuro. Sonhar dá forças para seguir, porém.

Aprendendo a ler e escrever, ele quer conseguir um trabalho e realizar um sonho que nasceu lá atrás:

– Eu sempre quis ter uma casa minha e não morar no que é dos outros.

Logo se lembra, porém, do lar que está a construir na ONG.

 – Às vezes eu tenho o costume de falar: ‘Vou lá em casa’, porque me sinto, sim, em casa. Eles são minha família.

Abre, então, um sorriso aliviado.

Está, finalmente, indo “para frente”.

 

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