Com rim doado por Fátima, Antônio ‘nasceu de novo’

Dentro de Antônio, mora um pedacinho de Fátima.

Parece poesia, mas é feito de realidade. Realidade poética e hospitalar.

Quando Maria de Fátima soube da possibilidade de fazer morada em Antônio, não pensou duas vezes. Afinal, em coração, os dois já eram mesmo ligados.

O coração é todo poético. Mas o rim que Fátima doou para Antônio é todo realidade.

– Acho que tá funcionando mais meu rim do que o dela!

Antônio já tomou posse da doação, e brinca. Os dois caem na risada.

Quando o choro vem, ela segura a mão dele, faz carinho no rosto, seca com a mão as lágrimas que chegam.

– O que ela fez para mim não tem preço. Foi Deus que colocou ela no meu caminho!

Depois de três anos de hemodiálise, sem poder tomar um gole de água mesmo no dia de maior calor, Antônio faz planos para o futuro. E carrega a sensação de renascer.

Passou pelo transplante no dia 23 do último agosto.

O rim que era de Fátima está funcionando muitíssimo bem no corpo do marido. Para alegria dela, que é a mesma dele.

– Não tem palavras, preço… Poder ajudar é gratificante. Não tem explicação…

É ela quem diz.

Fátima e Antônio - transplante de órgãos Ribeirão Preto - História do Dia (1)

Fátima e Antônio se conheceram nas ruas de Monte Alto, onde vivem. Ela estava andando de bicicleta com uma amiga em comum e ele saía pelo portão. “Quem é esse?”, ela foi logo perguntando para a amiga.

Não demorou para a paquera virar namoro e menos ainda para o casamento sair, em 3 de novembro de 1990, ela com 25 anos e ele com 20.

Antônio sempre trabalhou como caminhoneiro e era Fátima quem cuidava dos dois filhos e da casa, na expectativa do caminhão apontar na esquina anunciando mais uma chegada.

Os problemas de saúde, porém, é que não demoraram a apontar.

Já por volta de 99, Antônio ficou internado com a triglicérides muito alta. Em 2004, ele teve um AVC e passou 17 dias no hospital. Logo depois, descobriu a diabetes altíssima. E, em 2014, os rins desistiram de tanta batalha.

Quando descobriram a falência renal, a hemodiálise foi solução emergencial. Três vezes por semana, Antônio deixava Monte Alto para o procedimento em Jaboticabal.

Por alguns dias, teve companhia. A sogra sofria do mesmo problema e já fazia hemodiálise havia oito anos. Morreu em uma das sessões, ao lado do genro, por um câncer no intestino.

– Eu falei para ele tomar minha mãe como exemplo. Ela nunca faltou a uma sessão de hemodiálise. Não desistiu. Morreu por outra coisa, não pelos rins.

Com a hemodiálise, a rotina da casa mudou por completo. Antônio não tinha mais condições de trabalhar, não se alimentava direito e não podia ingerir, sequer, água.

Por um ano, parecia não haver chances de mudança.

Até que Fátima escutou uma vizinha da mãe contar a história da outra vizinha que havia doado o rim para o marido, depois de descobrir que eram compatíveis.

– Eu fiquei com aquilo na cabeça! E já pedi para o Antônio perguntar para o médico.

A conversa entre vizinhas deu início à maratona do casal.

Fátima queria – mesmo – ter um pedacinho morando em Antônio.

Fátima e Antônio - transplante de órgãos Ribeirão Preto - História do Dia (1)

Foram dois anos de exames e tentativas.

O primeiro grande passo foi descobrir que marido e esposa eram compatíveis e que a ideia do transplante poderia ser realidade.

Fátima, no entanto, precisava estar com a saúde mais que perfeita para ser uma doadora. Quando a maratona parecia estar chegando ao fim, em maio de 2016, ela descobriu que tinha o vírus da tuberculose, apesar de nunca ter manifestado a doença.

Seis meses de antibiótico foi a receita para quem já esperava a data do transplante.

Depois, foi a vez do Antônio descobrir uma pedrinha na vesícula, que precisou ser retirada em cirurgia.

No começo de julho deste ano, finamente uma data de transplante. Os dois se prepararam, foram para o hospital e, já na véspera do grande dia, Antônio teve diarreia. De novo, o transplante teve que esperar.

– Mas a gente não desistia. Eu tinha fé de que, na hora certa, iria acontecer.

O mês de agosto chegou e a ligação tão esperada veio num domingo. Fátima estava na casa da irmã que fazia um bolo, quando acabou o ovo.

– Eu peguei a moto e corri em casa para buscar.

Tempo exato para atender a ligação do médico avisando que no dia 20 os dois deveriam estar no Hospital das Clínicas para a preparação. Estava marcado: dia 23 de agosto o rim de Fátima iria mudar de casa.

Fátima e Antônio - transplante de órgãos Ribeirão Preto - História do Dia (1)

Fátima diz que, no dia do transplante, estava tranquila. E feliz.

– Eu tinha uma alegria… minha pressão ficou a mesma da hora que eu entrei até a hora que eu saí do hospital.

A cirurgia durou cinco horas. Ela teve alta três dias depois. Ele saiu depois de duas semanas.

– A primeira coisa que eu fiz foi tomar uma garrafa de água! Agradecer a ela é todo dia. Todo dia eu agradeço!

Antônio voltou a ter vida normal.

Fátima é quem prepara a dieta e controla tudo com cuidado.

– Por isso melhorei!

Ele nem pensa em contestar!

Para o futuro, sabe bem quais são os planos. Um plano, no singular.

– Viajar!

Ele fala, e logo cai no choro de novo.

– Quero ver os parentes tudo… A gente não podia fazer mais nada…

Quer voltar para a estrada. Mas, diferente dos tempos de caminhoneiro, agora a viagem é em família.

– Não tem como dizer o quanto é bom dar uma vida melhor a outro ser humano… Ele é o pai dos meus filhos!

Fátima ainda busca palavras para tudo que viveram. Antônio confidencia um relato da mulher.

– A Fátima quer viver 100 anos!

Ele diz que não precisa de tanto. Mas, já que é a vontade de Fátima, quer estar ao lado dela. A ligação dos dois, afinal, vai além do amor.

Parece poesia, mas é feito de pura realidade.

 

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