Há 10 anos, Pérsio leva alegria a hospitais com o ‘Expresso Riso’

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 4 de abril de 2018!

 

Não é só fazer rir. Muitas vezes, um abraço, um olhar, uma palavra contam mais do que a gargalhada. Em outras, o riso vem mesmo como o melhor remédio.

O palhaço que usa jaleco branco precisa estar atento aos sinais.

Sinais que, há 10 anos, dão sentido à vida de Pérsio Pereira da Silva.

– O palhaço de hospital é interessado, não interessante.

Para levar alegria a hospitais, ele deixou o emprego de técnico cirúrgico e embarcou em um projeto voluntário. Não tinha patrocínio ou qualquer tipo de apoio.

– Esse trabalho me ajudou a enxergar a vida. Hoje eu sei que pequenas ações podem colaborar com o ambiente. E sinto que estou colaborando para que as pessoas vivam melhor.

A vontade de ajudar norteou sua escolha. Hoje, colhe e compartilha os frutos.

O grupo Expresso Riso, que completa 10 anos neste 2018, tem uma equipe com cerca de 120 voluntários ativos, que levam alegria a 11 hospitais em Ribeirão Preto, Sertãozinho, Pontal e São Paulo.

Pérsio acredita ainda que o projeto já formou mais de 500 pessoas como palhaços voluntários, em 16 cursos ministrados em Ribeirão Preto e dois em São Paulo.

– O Expresso Riso trabalha com a minimização do sofrimento, levando momentos de riso e bem-estar. O riso é a brincadeira. O bem-estar é o olho no olho, o carinho, o toque, a palavra, o abraço. Buscamos trabalhar não só com o palhaço, mas com a valorização do humano.

Não tem dúvidas de que sua escolha valeu a pena.

Expresso do Riso Ribeirão Preto

O sonho era ser jogador de futebol. Pérsio conta que chegou a passar em um teste no Centro Olímpico. A mãe, porém, não entendia o esporte como profissão.

– Ela me fez largar para estudar.

Estudo que sempre veio junto ao trabalho. O pai faleceu quando ele, o caçula de quatro filhos, tinha cinco anos. A mãe, então, precisou dividir as responsabilidades com os pequenos.

Aos 11 anos, Pérsio vendia salgados. E logo arrumou um emprego como office boy.

Quando a família mudou para Ribeirão Preto, em 2000, as dificuldades para arrumar trabalho foram grandes. Ele conta, então, que entregou panfleto em farol, vendeu sanduiches em estádio e foi estoquista em uma empresa, onde comercializou livros e se descobriu bom na tarefa.

Em 2006, voltou para São Paulo e, atuando como missionário em um projeto, conheceu o trabalho dos palhaços de hospitais.

Se interessou de imediato. O grupo, porém, não aceitava voluntários que não fossem médicos ou da área da saúde.

– Mas eu não desisti. Comecei a estudar a arte do palhaço.

Quando retornou para Ribeirão, estava determinado a começar um trabalho voluntário. Entrou em contato com hospitais e, em abril de 2008, criou o Expresso Riso.

– O ‘não’ de um projeto abriu as portas para outro.

Encontrou três amigos motivados a participar, teve o apoio da esposa, e começaram as visitas aos hospitais.

O grupo usava uma salinha na casa de Pérsio para se arrumar antes do trabalho.

– Foi crescendo!

Tanto que um ano depois ele teve que escolher. Na época, trabalhava como técnico cirúrgico, viajando pelas cidades do Brasil.

– Como entendo que o projeto é uma missão de Deus na minha vida, abri mão do meu trabalho.

Foram dois anos de sufoco.

– Tivemos ajuda de amigos, da igreja. E muitos milagres aconteceram. Às vezes, a gente estava sem nada para comer e aparecia alguém com uma cesta básica.

A situação só melhorou quando, a partir de 2010, começaram os cursos de voluntariado e passaram a divulgar mais o projeto. Conseguiram o patrocínio de uma empresa e foram ganhando asas.

Expresso do Riso Ribeirão Preto

Hoje, o Expresso Riso é empresa, com sede própria. Se mantem de doações, patrocínios, lojinha virtual, cursos de voluntariado que oferece.

Pérsio é quem coordena todo o trabalho.

Não deixa, entretanto, que passe muito tempo entre uma visita ao hospital e outra. Faz questão de se manter conectado com a essência do projeto.

Diz que toda quarta-feira atua como voluntário, dando assistência a moradores de rua. E explica:

– Hoje, o Expresso Riso é meu trabalho. Então, busquei outro projeto para ser voluntário.

Ser palhaço, para ele, é soma de arte e estudo.

– Toda profissão tem sua evolução. O palhaço também. Antes, o palhaço estava só no circo. Hoje, está em todo lugar!

O palhaço de hospital, assim, tem muito a aprender.

– Ele não faz graça. Ele é a graça. O palhaço trabalha com três princípios: olhar, sentir e agir. Tem pessoas que olham, sentem, mas não agem. Tem quem olha, e não sente e nem age. E tem quem não quer nem olhar. Por isso o mundo está como está.

Entre as histórias que mais marcaram, está a do paciente que faleceu no leito logo após sua chegada. Não era momento para riso, o palhaço sentiu.

– Minha reação foi tirar a máscara e dar um abraço na família. Não falei nada. Só senti. Lendo o ambiente, o palhaço vai saber como agir.

Para o futuro, o plano é continuar espalhando o bem Brasil afora.

– Valeu a pena? Eu olho para trás e fico até cansado. Mas faria tudo de novo! Se fiz sem saber o resultado, imagine se eu soubesse?

Para as fotos, Pérsio coloca o nariz vermelho e se transforma.

Muda a fala, a voz, o jeito de olhar. Em poucos segundos, arranca risos de quem está em volta.

Ser palhaço é trabalho por inteiro: ele soube desde o início.

 

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