Hilário quer o Direito ao alcance de todos

O pai de um amigo foi atropelado.

Era quem sustentava a casa de contas muito apertadas e a família passou, então, pelas piores dificuldades. A situação só melhorou quando ele conseguiu a aposentadoria.

Hilário Bocchi diz que tinha mais ou menos oito anos quando o fato ocorreu. Se lembra, porém, em detalhes. Foi ali, tão cedo, que decidiu o futuro.

Já sabia que queria ser advogado, como o pai, mas determinou seu foco de atuação.

– Eu entendi que queria ajudar as pessoas com o Direito. O que ajudou aquela família era o que o meu pai fazia. E era aquilo que eu queria fazer.

Se formou em Direito e se especializou, como o pai, na área trabalhista e previdenciária.

No escritório de advocacia – com filiais em Campinas, São Paulo, Araraquara, Sertãozinho e Serrana – ele já havia cumprido a meta de ser um advogado bem-sucedido. Só no registro de Ribeirão, são 145 mil clientes cadastrados.

Percebeu, porém, que ajudava, mas esbarrava nas normas que não permitem, por exemplo, prestar serviços gratuitos.

Há dez anos, então, se tornou empreendedor social. Criou uma empresa que ajuda pessoas de baixa renda do Brasil todo a conseguirem benefícios sociais e previdenciários. E leva informações a quem não tem.

– A plena cidadania começa quando você exige seus direitos. Mas como você vai exigir direitos se não os conhece?

Hilário Bocchi advogado Ribeirão Preto

Hilário é aquela pessoa que todo ribeirão-pretano já viu, pelo menos uma vez, estampar a tela da TV ou algum post pelas redes sociais.

Ele carrega consigo câmera, tripé e microfone. E não perde a chance de gravar um vídeo explicando sobre acidentes de trabalho, direito à aposentadoria especial ou outro tema de importância.

Nas férias, gravou no monumento Los Dedos, em plena praia de Punta del Leste, Uruguai.

– Se a lei é a regra que rege a sociedade, o mínimo é que todos conheçam essa lei. O que a gente tenta é transformar a lei da sociedade em um esporte. Não tem como assistir a uma partida de futebol se não souber as regras.

Hilário, então, agrega Direito à Comunicação com o objetivo de levar informação a quem precisa. E promover integração social.

– É muito simples: as pessoas que precisam estão longe da informação. Temos que levar informação a quem não tem.

Em 10 anos, a equipe da empresa social AposentFácil já percorreu mais de 60 cidades em todo Brasil, além dos trabalhos feitos em Ribeirão, levando informações sobre benefícios sociais.

O foco são comunidades carentes, favelas: lugares onde os direitos não são respeitados.

Como empresa, a equipe também faz trabalhos pagos para clientes que têm condições financeiras para pagar.

– A gente fala onde der: no sol, na terra, em galinheiro, no mato. O importante é conseguir chegar até as pessoas.

No site AposentFácil o cidadão pode desde baixar conteúdo gratuito sobre aposentadoria, até ter acesso a um modelo de declaração de união estável, ideia que surgiu há cinco anos, quando Hilário passou a integrar o projeto Voluntários do Sertão, que leva serviços de saúde e cidadania para cidades do interior da Bahia.

Ele monta uma equipe de voluntários e, por uma semana, oferece gratuitamente serviços de aposentadoria, obtenção de benefícios, união estável.

Na última edição, organizou uma cerimônia de casamento, com pompa e festa.

– É triste saber que tem tanta gente abandonada Brasil afora e ninguém olha para essas pessoas. É isso que me move: encontrar essas pessoas e levar conhecimento para elas.

Hilário Bocchi advogado Ribeirão Preto

Aos 52 anos, Hilário diz que não se sente realizado. Por um bom motivo:

– Se eu me sentisse realizado, teria parado. Agora, se eu estou conseguindo fazer o que quero? Isso eu estou!

Entre os muitos projetos em andamento, está elaborando um aplicativo para auxiliar pessoas com deficiência e suas famílias na obtenção de benefícios.

Quer inaugurar uma página para falar sobre os direitos LGBTTs, tema que o levou até Cuba, para palestrar no Congresso Internacional de Advogados.

Percorreu seis países e tem ainda uma lista a percorrer colhendo materiais sobre a previdência na América Latina para escrever o livro “Reforma da Previdência”.

Ele diz que todos esses investimentos sociais saem do próprio bolso. E não reclama.

– É a realização de um sonho pessoal.

Para ele, quem poderia levar informação não tem interesse em fazê-lo.

– As pessoas que estão no poder não são aquelas que querem ajudar quem necessita. A era da informação só vale para quem pode pagar.

Sempre que chega a um lugar que carece de direitos, tem dificuldade de partir. Por isso, recruta profissionais voluntários na cidade em questão.

– A ideia é deixar um legado, para que o trabalho não acabe quando a gente for embora.

A meta para o futuro é deixar o escritório de advocacia para os filhos – dos três, dois seguiram o Direito – e se dedicar só ao trabalho social.

Lembra o caso do paciente com câncer que não tinha acesso a tratamento, da adolescente escravizada pelo tráfico, do idoso que sofria maus tratos. E diz que há milhares de outros gravados da memória.

Quer continuar fazendo o que se propôs aos oito anos, quando percebeu, na história do amigo, que o Direito pode ser humano. E que a lei, feita para gente, é muito mais que burocracia.

 

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