Jornalista João Borda foi marinheiro antes de entrar para a televisão

A reportagem do dia é leve: nada de polícia ou política. A proposta é mostrar a captura de uma onça que tem assustado os moradores do Recreio Internacional, bairro de Ribeirão Preto.

O repórter escalado é João Carlos Borda.

– Eu tenho procurado fazer matérias mais ‘light’. As pessoas não podem achar que eu só vivo de coisas ruins.

A onça corre para um lado. Vai para o outro e entra na mata.

Enquanto os Bombeiros esperam o bicho sair, um cachorro pequeno e assustado aparece por entre o matagal.

Não há tempo de matutar. Borda narra a cena no microfone, com requintes de suspense policial: “Aí está saindo um sobrevivente da onça. O Totó conseguiu superar essa. Foi o primeiro refém a ser libertado”.

É o jeito Borda de fazer Jornalismo. Sua marca, tão conhecida entre o telespectador ribeirão-pretano.

– As pessoas me veem na rua e dizem: “Não desista da sua luta contra a corrupção. Vai em frente”. Eu só fiz o meu trabalho. A minha cobertura. Eu sou intenso no que eu faço.

A cobertura da Operação Sevandija, maior escândalo político da história de Ribeirão Preto, deu a João Carlos Borda essa alcunha de “repórter que luta contra a corrupção”.

– O jeito que eu levei a cobertura quebrou a forma convencional de fazer Jornalismo. Com a ironia e o sarcasmo eu consegui representar um pouco a indignação das pessoas. E me parece que elas gostaram disso, e aprovaram.

Carrega a reação do público com cautela.

– As pessoas estão sempre olhando se faço algo de errado. Já me perguntaram se sou candidato a alguma coisa. Eu procuro, dentro do possível, ser coerente entre minha personalidade no trabalho e na vida. Para mim, privacidade e vida pública andam juntas.

Acredita, assim, que a crise enfrentada pelo Jornalismo é resultado de um “divórcio” entre o jornalista e o fazer notícia, além de toda ruptura causada pelas redes sociais.

– Fazer reportagem é uma tarefa de duas etapas: noticiar o fato e cumprir um compromisso social. Nós estamos esgotando a função na primeira etapa. Entregamos o que o patrão pede, tiramos a roupa de trabalho e entendemos que não somos mais jornalistas. O compromisso social do jornalista é estar conectado com as pessoas, com a comunidade. E, dessa forma, não há como tirar a profissão da tomada.

Borda já sugeriu decoração de festa infantil para uma mulher que o procurou no Facebook. E aconselhou outra que dizia estar cansada de viver. Escuta o cotidiano de uma pessoa com o mesmo coração atento com que colhe uma grave denúncia de corrupção.

Para ele, é assim que o jornalista se faz. Com um acréscimo: são muitas doses de insistência e nenhum medo em incomodar.

– Nossa essência é perturbar. Sacudir o negócio. Se eu chego na prefeitura e as pessoas estão de cara feia, eu acho ótimo. Agora, se o prefeito me abraça, eu já não gosto.

João Carlos Borda EPTV Ribeirão Preto

João Carlos Borda, 53 anos, chega para a entrevista segurando um quepe branco e dourado da Marinha Brasileira.

– Essa daqui é a minha segunda paixão.

A história por trás do repórter sério tem cenas que surpreendem e arrancam risos.

Ele foi da Marinha Brasileira antes de ser jornalista e deixou o cargo porque a paixão pela comunicação não se continha à rádio do quartel. Tem um senso de humor peculiar para contar histórias.

É um paizão coruja. Apoia o feminismo – e procura ensiná-lo a sua filha de quatro anos.  Adora cantar e declamar poesias – depois de uma boa taça de vinho.

Além da faculdade de Jornalismo, fez Ciências Sociais e está no quinto semestre de Direito, torcendo para conseguir terminar o curso, entre uma chamada de urgência e outra.

– Essa semana eu estava na aula e a editora ligou: ‘Roubaram um carro forte. Tem que ir para lá’. Avisei a professora e fui. É assim: não tem hora!

O Jornalismo foi herança de família. Além do quepe que carrega nas mãos, ele também leva para a entrevista uma sacolinha cheia de “tipos”: letras de madeira usadas para fazer jornal, quando a tecnologia era uma ideia distante.

Era assim que seu pai, tipógrafo, imprimia o periódico que a família montou em Uruguaiana, Rio Grande do Sul.

Era 1967, Borda estava com dois anos, em plena ditadura militar. O pai batizou o jornal de “Espião”. Não bastasse isso, em uma tarde de impressões, percebeu que a tinta preta havia acabado e decidiu imprimir o jornal em vermelho.

– Não tinha qualquer ideologia política. Mas a nossa casa amanheceu cercada pelos militares. Até meu pai explicar!

Borda, temporão de oito filhos, também participava da produção do jornal. A primeira função que lhe deram – e que ninguém queria – era de lavar os tipos.

Nessa época, o nome do periódico já havia mudado para “Correio de Notícias” e João Carlos estava com 12 anos.

– Depois que o jornal era impresso eu tinha que lavar os tipos com gasolina para tirar toda a tinta e reutilizar em outra impressão.

Como era o caçula, ficou um tempo na função até conseguir passá-la a um sobrinho mais novo, e ganhar novos trabalhos.

Sua grande paixão não estava no papel, entretanto.

– Eu era obcecado por rádio.

Conta que atravessava as madrugadas frias do Rio Grande do Sul com um radinho debaixo das cobertas, ouvindo e imitando as grandes vozes. Quando passava da conta no volume, levava uns bons sopapos do irmão com quem dividia o quarto. De nada adiantava. O radinho continuava companheiro.

– Não teve uma rádio na região em que não tenha tentado fazer teste!

Chegava com a cara e muita coragem. Pedia para falar com o diretor e dizia que queria ser radialista. A primeira oportunidade que tentaram lhe dar foi para motorista de uma unidade móvel. Quando disse que só tinha 16 anos e não podia tirar carta, quase levou um sopapo como os do irmão nas madrugadas.

– Ele mandou eu me catar!

Decidiu, então, tentar outros caminhos. Outros mares, na literalidade.

Entrou para Marinha quando tinha entre 16 e 17 anos.

– Eu me realizei!

João Carlos Borda EPTV Ribeirão Preto

Não demorou a descobrir o alto falante que informava os marinheiros sobre a rotina do dia.

– Eu achava sensacional a voz se propagar. Fui falar com o comandante: ‘Quero fazer plantão nesse negócio’. Aquilo foi um orgasmo para mim!

A vida restrita ao quartel não condizia com o espírito já cheio de liberdade, no entanto.

– Eu tinha vontade de ir para a rua!

A única forma de sair era tocando na banda da Marinha. ‘Mas eu não sei tocar nada!’, respondeu ao colega, que logo se ofereceu: ‘Eu vou te ensinar a tocar prato. Prato você vai aprender’.

Mais uma vez, lá foi Borda conversar com o comandante.

– Falei que eu tocava prato. E consegui entrar na banda. Aí eu saía para as festas aos finais de semana e tinha como namorar.

E mais uma cena de risos se forma. Como a próxima que ele conta.

Foi bebê Johnson, com a ajudinha de uma amiga da família.

– Até hoje eu tenho vergonha.

Borda escolheu data de festa para nascer: 1º de janeiro de 1965 chegava ao mundo o menino. A mãe teve problemas no parto e o bebê nasceu no limiar com a morte. Fraquinho, tinha problemas para se desenvolver. E tomava leite caro, de compra penosa para a família simples.

O concurso de bebês mais bonitos da cidade tinha como primeira premiação a capa de revistas – que em nada interessavam aos pais.

– Eu era feio para caramba!

Ele conta, entre muita risada.

O bebê que conquistasse o segundo lugar iria ganhar o leite caro por anos e anos.

– Minha madrinha, que era enfermeira, fez uma maracutaia e eu fui escolhido. No dia da premiação, minha mãe conta que elas me maquiaram, para esconder as feridas que eu tinha na pele. Eu era feio mesmo! Mas, mesmo assim, as outras mães não acreditavam naquilo! Só sei que eu resolvi o problema financeiro da família!

Conta boas histórias dentro e fora do Jornalismo.

João Carlos Borda EPTV Ribeirão Preto

João Carlos ficou na Marinha por cerca de um ano.

– Eu tinha boas notas, mas muitas dificuldades em viver uma hierarquia rígida. Se eu tivesse continuado, esse lado questionador, argumentativo que o jornalista carrega consigo não seria possível.

Como já estava com 18 anos, não teve grandes dificuldades em ser aceito em uma das tantas rádios que fizera testes quando voltou para casa.

Aos 22 anos, surgiu uma oportunidade na TV Uruguaiana, do grupo RBS, filiada da Globo no Rio Grande do Sul.

A cada conquista como repórter, ele estabelecia uma nova meta.

Conseguir uma matéria em jornal estadual: cumpriu. Entrar em um jornal nacional: cumpriu. Foi somando conquistas – e entrando na casa dos brasileiros.

Na primeira matéria que foi para o Jornal Hoje Borda reportou a entrada de argentinos pela fronteira para participarem do Rock In Rio.

Quando tinha por volta dos 27 anos recebeu proposta para ser âncora em Caxias do Sul. E três anos depois conseguiu uma vaga em Campinas.

Teve a possibilidade de atuar na produção, o que poderia lhe render cargos de chefia. Mas voltou para a reportagem na primeira oportunidade.

– Esse status nunca teve peso na minha vida. O que sempre teve peso foi conseguir a realização das coisas que eu queria fazer.

Já como repórter de rede, mais uma conquista. Entrou no Jornal Nacional pela primeira vez com reportagem sobre uma pesquisa realizada por profissionais da Unicamp. Depois, vieram muitas outras.

Antes de chegar em Ribeirão Preto, em 2001, passou por São Paulo e pelo Rio de Janeiro.

Quando chegou à EPTV, a meta era participar do Globo Repórter. Não demorou a conseguir – e a repetir!

– Eu fechei todos os ciclos dos jornais da Globo. Não tem nenhum jornal da rede em que eu não tenha feito matéria.

João Carlos Borda EPTV Ribeirão Preto

Em 31 anos de Jornalismo televisivo, as histórias já rendem um bom livro – e até mais!

A profissão é montanha russa. Borda já deu muita risada, mas também ficou tenso de não passar ar pelos pulmões.

Como quando investigou a mulher do prefeito de uma cidadezinha. Ela trabalhava em uma unidade de saúde e errou na aplicação de vacinas, causando efeitos graves na população.

– A fama do cara era de ser violento. Eu avisei o cinegrafista: ‘Quando esse cara abrir a porta, vai dar porrada em mim e em você’.

A previsão falhou – ainda bem! Até investigando a família, foi recebido com festa: ‘Ô Borda, que prazer vocês aqui na minha casa!’.

Em reportagem especial sobre o contrabando nas fronteiras, acompanhou a Polícia Federal na divisa com o Paraguai.

– A própria polícia paraguaia atira. Era a noite. Uma tensão!

As ameaças são constantes – e de todo lado.

– É policial, é advogado, é político. Sempre tem alguém te ameaçando quando você toca nos interesses das pessoas. Mas a própria exposição que eu tenho já é uma forma de defesa.

Garante que nenhum tipo de ameaça o paralisa. Continua fazendo o trabalho que acredita.

– A sociedade não tem o poder para agir. E o poder público não tem mais vergonha de não agir. Em um país tão desrespeitado o jornalista não tem que se engajar? O Jornalismo vai ter que botar um pé no posicionamento!

Se preocupa com o cenário político. E cobra posturas.

– Quando eu olho para a gestão pública eu vejo uma carência de criatividade e vontade. Não acho que a falta de recursos financeiros seja barreira. Que lance criativo Ribeirão teve em qualquer área? Há uma preguiça para pensar e executar, e uma grande disposição para roubar.

Nem por isso, porém, desacredita.

– Eu tenho um olhar motivador. Onde tem caos, eu vejo saída. Como marinheiro eu vejo soluções: se tem um buraco no barco, dá para pegar os botes!

Se casou e teve dois filhos que, hoje já adultos, lhe enchem de orgulho pelas ideologias que cultivam.

O primeiro casamento terminou. E, quatro anos atrás, ganhou uma menininha de presente da vida, fruto de um namoro.

– Eu toco a vida na boa: dou banho, cozinho, visto, brinco de casinha, de teatro. Já escrevi história infantil para ela e estou escrevendo um diário. Quero que ela saiba o quanto os momentos que vivemos é importante para mim. E quero continuar escrevendo até quando ela tiver 15 anos.

É o único momento da entrevista em que ele se emociona. O olho fica feito aquário.

Afirma que não dá moleza, no entanto. Se a pequena tem medo de escorregar, o incentivo é para prosseguir. Se o menino da escola insiste em lhe bater, ensina a autodefesa. Repete que as meninas são incríveis e incentiva que sua filha queira ser heroína, como a “mulher maravilha”.

– Eu venho de uma terra machista. Mas eu mergulho no meu íntimo para mudar isso. Às vezes me flagro em discursos machistas. É uma construção cultural difícil de mudar. E meus filhos mais velhos me ajudam nisso. Eu me corrijo pelo olhar deles.

Entende que quebrou um padrão ao entrar na televisão brasileira. Conta que anos atrás lhe telefonou um desconhecido que compartilhava do mesmo sobrenome, dizendo que havia feito a árvore genealógica da família e chegado a uma origem francesa.

– Eu respondi: ‘Você acha que com essa minha cara eu tenho como ter vindo da França?’. Minha avó era paraguaia, meu avô, argentino. Eu sou essencialmente sul americano. E me acho lindo. A gente tem dificuldade em se ver como latino. Eu não. Procuro passar isso para os meus filhos.

Os planos para o futuro são no plural. Está escrevendo um livro sobre os crimes que entram pelas fronteiras do país, com lançamento previsto para este ano.

– Eu nasci na fronteira, cobri vários crimes nessas regiões e vou mostrar cinco ou seis vertentes exploradas pelo crime organizado. Qualquer ação que se faça no Brasil não funciona, porque as fronteiras estão desprotegidas.

Quer terminar o curso de Direito e até pensa em atuar na área. Mas também pensa em se aventurar pelo documentário, retratando realidades Brasil afora.

– Os projetos são como tormentas. Começam a chegar a você não sabe o que executar, como executar. Eu tento organizar isso.

Entre tanta atuação, em planos e ações, conta que dorme pouco, mas sempre arruma um tempo para cantar no karaokê, declamar poesias de Neruda, namorar e ler bons livros. Está sempre acompanhado deles, aliás. Se sobra um tempo entre uma entrevista e outra, viaja pelas páginas. Digo porque, dividindo pautas muitas vezes, pude presenciar a cena.

– Se eu sou feliz? Eu tenho 53 anos e ainda sou fascinado por certas coisas do Jornalismo. Eu ainda acredito que quando eu faço uma matéria sobre a corrupção aquilo vai impactar a vida das pessoas.

João Borda está na televisão. Vem boa história por aí!

 

Crédito foto 4: Carlos Trinca

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