Marcial já esculpiu mais de 105 mil chaveiros de madeira

O primeiro nome foi Fabiana.

Saiu por pedido da cliente, que trabalhava pelo centro e viu as plaquinhas de madeira que Marcial começara a fazer.

Ele conta que, até então, não pensava em criar chaveiros. Estava se aventurando em esculpir placas de madeira porque nem leite tinha em casa para oferecer aos filhos pequenos.

Em um desses dias de desespero, desmanchou um armário, transformou algumas placas em arte usando uma faca de pão e saiu para vender. Nas placas, escrevia nomes, signos, frases.

Foi 16 anos atrás. Não parou mais.

Foram os chaveiros, porém, que alavancaram as vendas. As plaquinhas mal davam para o leite, até a tal Fabiana chegar e encomendar um chaveiro.

Depois desse ele estima que produziu mais de 105 mil exemplares, com nomes de todo tipo. O mais diferente deles, Masausquinhas, nunca saiu da memória.

Em casa, tem mais de cinco mil nomes prontos e, se precisar, faz na hora.

Marcial Marajá Marcelino ganhou o apelido de “chaveirinho” pelas ruas de Ribeirão, que fez de local de trabalho diário. Quando não está por aqui, está na estrada.

Diz que já passou por 38 cidades e três estados do Brasil vendendo sua arte. Anota cada cidade por onde passa em caderninhos, que carrega consigo para registrar as inspirações que habitam a mente.

Mente que tem adereço exclusivo. A marca de Marcial é o chapéu com dezenas de chaveiros pendurados. Ele conta que em um dos rodeios que parou para vender foi abordado por um jovem filho de fazendeiro que lhe ofereceu o valor que fosse pelo chapéu.

Não vendeu.

– Esses são os primeiros chaveiros que eu fiz. É a história do começo. Eu não teria mais o início do chaveirinho.

 

Chaveirinho Ribeirão Preto

O nome já vem cheio de pompa. Marcial Marajá acredita que o pai tirou inspiração nos barões de café, na gente que àquela época, 40 anos atrás, eram donos de tudo.

Ele nasceu em Ribeirão, filho de mãe dona de casa, pai trabalhador rural, no Jardim Jandaia. Eram em 12 irmãos e, então, conta que de criança passava dias na rua para fugir das brigas que tinha em casa.

– A gente saía, se perdia e ficava na rua até o juizado de menores levar para casa naquela perua branca.

Aos nove anos, já vendia picolé. Trabalhou também em igreja e conta que viajou o Brasil, “até de avião” em suas palavras, como locutor de rádio.

Depois que se casou e teve dois filhos, deixou o mundo do rádio e passou pelas maiores dificuldades.

Abriu um restaurante que não deu certo. E diz, então, que antes de se descobrir artesão passou dois meses recolhendo recicláveis.

O segundo filho nasceu nessa época. Era campeonato paulista, jogo entre Comercial e Corinthians, e Marcial vendia picolés e recolhia recicláveis em frente ao estádio.

O filho decidiu nascer e não houve tempo de chegar ao hospital.

– Foi a Polícia Militar que fez o parto. E eu resolvi que precisava mudar de vida.

Começou a vender as plaquinhas na praça da Igreja Santo Antônio, nos Campos Elíseos. E logo estava no Centro, com a encomenda da tal Fabiana que deu origem ao seu negócio.

Chaveirinho vende chaveiros nas ruas de Ribeirão Preto

Marcial é um cara cheio de sonhos. Sonha, porém, com convicção de que vai realizar.

Diz que foi uma boa a entrevista acontecer por agora.

– Estou me lançando no meio musical e a gente não sabe o que pode acontecer, né? Logo não estou mais na rua.

Nas últimas eleições, se lançou candidato a vereador e garante que só teve 30 votos porque desistiu de fazer campanha.

– Teve a Sevandija, os escândalos, todo mundo envolvido e eu fiquei com vergonha. As pessoas me dizia: ‘Mas será que você vai ser diferente?’.

Conta que, mesmo sem terminar os estudos, lançou um livro com 700 exemplares de maneira independente, com a venda de mil chaveiros, e garante:

– Vai virar filme! A história é impressionante!

“O preço da honestidade” mistura política, corrupção, aventura.

E ele adianta que vem mais um livro por aí. Já está pronto, só aguardando o momento certo para a publicação. Mas prefere não dar detalhes da história para não estragar o lançamento.

Ele fala que tem 37 músicas registradas na Biblioteca Nacional. E um número que não sabe estimar de poesias escritas em casa, aguardando destinação.

A escrita hoje é paixão mais avassaladora do que os chaveiros. Precisa das vendas, porém, para manter as finanças.

Mas, como já disse lá em cima, tem certeza de que é por pouco tempo.

Quando pergunto como se define, pensa um pouco e chega a uma conclusão.

– Ah, eu sou um artista. Um artista de rua!

Vai embora com seu chapéu cheio de histórias e sua história cheia de nomes.

Acreditando que, logo-logo, chega lá.

 

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Todos os 2 comentários
  • Adriana Mello
    Responder

    Linda a história desse meu amigo!!
    O conheço a mais de 10 anos, e nesses 10 anos já encomendei vários chaveiros com ele, e sempre dando trabalho com mais de 2 nomes em cada chaveiro!

    Ele é um guerreiro! Sempre leio as postagens dele qdo posta no Facebook!
    Vcs estão de parabéns pela história contada com detalhes!!

  • Francismairy
    Responder

    Eu o conheço, já algum tempo,linda história,de honestidade,luta,e muita força de vontade, que Deus abençoe e ilumine sempre seu caminho,caminho que para mim será sempre de vitória,muita força meu amigo.

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