Márcio Coelho e Ana Favaretto: 29 anos de parceria e música

As entrevistas de Ana e Márcio foram feitas separadas – pela primeira vez na história do duo, nas memórias dela. Um não ouviu o que o outro disse. E nem foi preciso. Como nos palcos, afinaram os acordes para a mesma melodia.

Deram as mesmas respostas para uma, duas, várias perguntas. São quase três décadas dividindo a estrada, afinal. É Ana quem diz:

– No ano que vem completamos 30 anos de amizade, companheirismo, parceria e, há pouco tempo, amor.

Ana Favaretto e Márcio Coelho relutaram em ser “dupla”.

– A gente achava que era algo do sertanejo.

Mas não teve saída. O caminho musical foi se revelando assim em duo, em dois.

Começaram em banda. “É tudo cena dela” foi frisson na Ribeirão Preto que encerrava a década de 80. Lançaram disco, fizeram turnês, encantaram com uma música diferente.

Ana saiu da banda, depois voltou. Mas entre os integrantes houve discordância sobre os rumos a seguir: parte queria ir para São Paulo e a outra ficar. E o grupo se dissolveu.

Márcio, então, fez algumas empreitadas na carreira solo. Mas Ana estava sempre ali, fazendo a produção, desenhando a capa, participando no vocal.

Já era Márcio e Ana desde sempre. Só faltava nomear.

O universo infantil foi se delineando entre o acaso e a paixão. Receberam um convite em 1993, para musicar livros infantis. Márcio leu mais de 100 livros e montaram o primeiro show, que não pôde ir para os palcos por burocracias autorais.

– A gente pensou: Já estamos com o show pronto. Vamos fazer música para criança!

Ela conta.

O primeiro CD, “Vida Colorida”, foi lançado em 2000. E depois dele vieram outros seis títulos infantis, além de quatro álbuns adultos. Ou melhor: 10 álbuns para todos. As músicas que fazem ultrapassam o rigor da faixa etária determinada.

Passaram a integrar o Movimento da Canção Infantil Latinoamericano e Caribenho e colheram referências no mundo todo. Conquistaram uma porção de prêmios.

Uma das respostas que repetem sem precisar combinar é sobre o fazer música para criança.

– A música não tem que ensinar alguma coisa obrigatoriamente. É preciso respeitar a capacidade intelectual da criança.

Nas palavras dela.

– Se eu tiver que usar uma palavra, eu vou usar. A criança pode buscar o dicionário, perguntar para o pai. É preciso respeitar a capacidade intelectual da criança. Escrever para criança não é só usar diminutivo.

Nas palavras dele – que bem poderiam ser dela. 

 

 Márcio Coelho e Ana Favaretto música infantil

Ana

Ana nasceu em 11 de outubro de 1964.

Depois que começou a cantar para gente miúda, está sempre trabalhando no dia em que se celebra a vida: a dela e a das crianças (12 de outubro). Como uma ligação pré-determinada pelo tempo.

Não reclama.

– A gente curte muito o que a gente faz. Achamos nossa essência. Nunca teve um dia em que saímos para um show reclamando.

Ainda adolescente ela pensou que iria seguir os caminhos do pai dentista. Foi ele mesmo quem lhe abriu os olhos, porém: “Acho que não é isso”.

Se até o pai já havia percebido, não havia um porquê para a teimosia.

Uma das coisas que ela mais gostava de fazer quando o acompanhava no consultório era observar como eram confeccionados os aparelhos ortodônticos. Usava as técnicas que via como inspiração para produzir colares e brincos que vendia.

Pensou nisso quando trocou a ideia de ser dentista pela de ser ourives.

Descobriu que em São Paulo havia um ourives grego e passou a viajar de Ribeirão Preto para lá uma vez por semana, aprendendo a prática.

– Havia um preconceito muito grande, porque a profissão mexe com fogo, ferramentas super pesadas. Não era considerado um trabalho para mulher.

Bobagens para os ouvidos de Ana. Logo ela começou a trabalhar com uma família de ourives em Ribeirão, somando conhecimentos.

O “mestre” de São Paulo, porém, foi quem deu o impulso para um outro caminho. Disse que a jovem precisaria ter uma formação. “Todo ourives tem que ter um título. Continuar aprendendo”, ele frisou.

Ana pensou e decidiu, então, que esse título só seria possível com arte.

Passou a fazer faculdade de artes plásticas, se apaixonou por gravura em metal e foi até para Ouro Preto estudar a técnica. Só voltou por um chamado maior.

Ela conta que sempre cantou em coral. Um deles era formado por grandes músicos do cenário ribeirão-pretano no final da década de 80. O pessoal que encantava nos bares e fazia a noite ribeirão-pretana tão badalada também emprestava a voz nesse coro.

E a música era tão presente na rotina de Ana que quando um convite veio ela não precisou refletir para aceitar.

Um dia, então, um amigo ligou lá para Outro Preto: “Ana, vai ter um festival muito legal. Você vem cantar comigo?”.

– Ah, eu já disse logo: ‘Tô indo!’.

Voltou para cantar. Mas não imaginava que cantaria tanto!

 

Márcio Coelho e Ana Favaretto música infantil

Márcio

Márcio nasceu no Rio de Janeiro, em 27 de agosto de 1961. Cresceu na Capital, mas contava os dias para as férias de interior na casa da avó, tomando banho de rio e se encantando com a cultura do “Boi Pintadinho”, folclore repleto de instrumentos de percussão.

De família seresteira, não precisou descobrir a música. Sempre esteve perto dela.

Aprendeu com um dos tios a tocar seresta no violão e o outro se incumbiu de apresentar o samba. Aos 10, 11 anos já se entendeu compositor, ou “cancionista”, como prefere dizer, na criação de sua primeira música.

O pai não colocou muita fé. Márcio tinha a voz suave demais, perto do vozeirão dos tios que se inspiravam nas “grandes vozes do rádio”, entre elas a de Herivelto Martins e Ataulfo Alves.

Conta, inclusive, que nessa mesma época dos 10 anos foi expulso do coral da escola. “Você não canta. Você fala”, julgou a professora. Quisera ela pudesse ver o quanto falar com música pode ser encantador!

Já na adolescência, em um Rio dividido entre “blacks” e “cocotas” (que também quer dizer patricinha e playboy), ele, branquelo e loiro, escolheu ficar com a cultura negra.

– O Rio, preconceituosamente, era dividido. Eu me vestia como os blacks, frequentava os bailes, ouvia a música negra e convivia com pessoas negras, mas era branco. Por isso, eu era abordado: ‘Mas tu é black ou cocota?’.

Com 15 anos, foi classificado em um festival pela primeira vez. Que ainda hoje lhe rende um tanto de vergonha. A música era do tio, mas Márcio – com o aval e organização do compositor – a apresentou como sendo sua.

– Foi uma mentira. Eu me incomodei tanto que no ano seguinte fiz um samba e fui classificado de novo. Aí, o samba era meu de verdade.

Foi quando ganhou seu primeiro violão dos bons, presente da secretária de educação e do pessoal da pasta. Os pais, vendo que a coisa era mesmo séria, decidiram pagar, então, uma escola de música ao Márcio, que já tinha lá seus 18 anos.

Estudou junto com grandes nomes, como um dos netos do Cartola. O professor, porém, nada sabia de música brasileira. Os alunos ficaram um mês nas aulas, se uniram e criaram um grupo de choro. Saíram a tocar pela noite carioca.

Márcio chegou a receber um convite de uma grande gravadora nessa época. Mas, para gravar, teria que deixar o grupo e cantar o que fosse determinado.

– Eu até comecei a ir nas reuniões. Mas as músicas eram muito ruins! Não fui curtindo e dei um pé na bunda da gravadora. Me arrependo muito! Perdi uma chance.

Perdeu uma, mas agarrou várias outras.

Entrou na faculdade de Jornalismo e, em plena ditadura militar, foi entendendo o que era lutar pela liberdade. Via a repressão e, com arte, brigava contra ela.

– A faculdade era totalmente libertária. Fazíamos teatro, festas: podia tudo!

Começou a fazer teatro profissionalmente. E acabou largando a faculdade para viver de arte e aventura. O pai atrasou o pagamento por um ano. Quando lhe entregou o dinheiro para colocar a mensalidade em dia, Márcio achou por bem dar outra destinação ao montante.

– Eu fiz um livro de poesias, fui em um show do Gilberto Gil e viajei de carona com meus amigos: tudo o que eu nunca tinha dinheiro para fazer!

Hoje, a troca rende gostosas risadas. E um capítulo em tanta história!

Foi na época em que tocava em Caraguatatuba que ele conheceu a mulher com quem se casou e construiu família. Por ela, ele decidiu dar uma pausa nas “noitadas de boêmia”.

Estava com uns 23 anos na época. E a noite litorânea era animada.

– Mas era muita festa, bagunça: eu ia dormir às 6h e acordava às 18h.

O amor falou mais alto. A amada morava em Cravinhos e trouxe Márcio para a vida tranquila do interior.

Tranquila, nem tanto. Já chegou com agenda de cantorias. Logo, estava nos bares de Ribeirão Preto. Conheceu Ana e mais um tantão de músicos, criaram a banda “É Tudo Cena Dela” e fizeram muita música de interior numa época em que as capitais eram rotuladas como os únicos lugares possíveis de se fazer sucesso.

Ensaiavam com rigor militar. Quem chegasse atrasado pagava multa (!).

– Foi um sonho! A banda estourou! Conseguimos fazer um LP independente. Na época era muito difícil, muito caro. E nós fizemos.

Ele não esconde: quando a banda acabou por discordância entre os integrantes, sentou e chorou – literalmente.

– Foi um dos dias mais tristes da minha vida. Eu nunca esperava realizar música no interior e deu certo. E eu sabia que ali acabava um sonho.

Um sonho teve fim, mas outros muitos vieram.

Márcio trabalhou na Secretaria de Cultura de Ribeirão e diz que, nesse momento, deixou a vida de bares.

– Eu passei a ser o músico do dia. Foi minha chance de sair da noite, porque eu não gostava. Nós fizemos muita coisa bacana!

O caminho foi de muitas descobertas. Fez faculdade de música, se entendeu cancionista infantil e depois foi orientando de Luiz Tatit (grande músico e linguista) no mestrado e doutorado dedicados a pesquisar semiótica e música.

Deu aula para grandinhos e miúdos. Tem 110 canções gravadas e perde as contas de quantas compôs em 47 anos de obras.

– Eu posso encher o peito e dizer que sou cancionista. Faço música para criança e isso é muito legal!

 

Márcio Coelho e Ana Favaretto música infantil

Em duo, em dois

A parceria de Ana e Márcio é das antigas. O amor – do tipo romântico, porque como amigos já se amavam – é mais recente.

Na juventude, os dois se casaram com outras pessoas e viveram suas famílias.

A proximidade e amizade sempre foram parte da rotina, porém. Tanto que eles são compadres, apadrinhando os filhos um do outro.

Ana se separou faz cerca de 17 anos. Márcio ficou viúvo sete anos atrás. E os dois foram percebendo que havia um jeito de espantar a tristeza das perdas

Há cinco anos, além de parceiros de música e de estrada, são namorados.

– Eu não tenho nenhuma intenção de ficar sem a Ana. E acredito que ela também não tenha. Não tinha como ser outra pessoa. A nossa intimidade é muito grande.

A admiração com que falam um do outro já seria terra bem fértil para o amor nascer. A cantoria dá o embalo.

É muita música em quase 30 anos de estrada! E, se depender do duo, vem muito mais por aí. Ana tem uma lista de motivos para continuar.

– Fazer música para criança é sempre um desafio. A criança não mente. Se ela não estiver gostando, vai fazer outra coisa. Então, é como se a gente pulasse de paraquedas sem saber se ele vai abrir a cada show. Sempre deu certo!

Já têm CDs prontos, esperando o dia de tocar por aí, e viagens internacionais programadas.

No cenário político conturbado, escolheram – juntos – um partido a tomar. E fazem disso um grande objetivo, até mesmo quando estão nos palcos.

– Hoje a política me move. Eu sinto que posso fazer alguma coisa para melhorar a situação.

Nas palavras dele.

Vão construindo mais um capítulo da história, que já tem muitos acordes no arranjo.

– A música me deu tudo. Não falta mais nada. Eu faço o que eu gosto!

Nas palavras dele – que bem poderiam ser dela.

 

Crédito da foto em destaque: Maurício Froldi

 

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Comentários
  • Ana Favaretto
    Responder

    Quanta sensibilidade! Muito obrigada por contar tão bem nossa história.
    Vida longa ao seu lindo projeto.
    Você agora faz parte de nossa história!
    Obrigada!

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