Tomé aprendeu a ler e escrever sozinho e sonha em publicar um livro

Uma semana. Foi todo o tempo que José Cláudio Tomé passou na escola.

Fez uma peraltice de menino, foi expulso e, depois, diz que não teve mais “oportunidade” de estudar.

Mesmo assim, seu sonho é feito de letras. Letras que une – sem conseguir explicar como – e faz virar poesia.

– Eu não sei como aprendi… Só sei que comecei a escrever…

O primeiro poema nasceu da tristeza. Na década de 60, perdeu um filho com menos de dois aninhos por doença sem diagnóstico. Para aliviar o coração, já tão machucado, escreveu.

– Eu falo que é um milagre de Deus. Peguei folha, caneta e fui escrevendo. Aprendi sem professor…

Nunca mais parou.

Guarda as poesias em pastas e caixas no armário da casa simples onde mora, na zona Norte de Ribeirão Preto. Acredita que são mais de 200, mas a conta exata mesmo, não tem.

O rascunho é feito à mão. Mas a versão final é digitada letrinha por letrinha na Remington. Recolhendo recicláveis, ganhou a máquina de escrever de alguém que iria descartá-la. Mandou arrumar e transformou em tesouro.

Nos últimos tempos, aprendeu a forma de escrever que mais agrada.

– É com o nome das pessoas! Uma homenagem!

Faz acrósticos com nome de gente querida, como a neta, e nome de gente famosa.

A imprensa de Ribeirão Preto está representada nas letras, bem como o apresentador Rodrigo Faro.

– Quem sabe eles dão uma força para eu realizar meu sonho?

Tomé sonha com letras juntinhas, impressas em livro. Para quem nunca pôde estudar, imprimir seu nome na capa seria um troféu.

– Por que esse sonho? Para mostrar a minha qualidade. Uma pessoa que não teve escola, não teve estudos… é um incentivo!

Quem há de se importar com os erros de português diante de todo sentimento que ele faz virar versos?

José Tomé escritor autodidata Ribeirão Preto - História do Dia

A trajetória que Tomé conta é feita de histórias tristes. Tanto que a gente custa a acreditar na alegria que ele conserva entre as frases.

Nasceu em Minas Gerais, o mais velho de quatro irmãos. Aos oito anos, morando em Campos do Jordão, perdeu o pai por problemas de coração.

A mãe trabalhava como empregada doméstica para sustentar a casa e cabia a Tomé tomar conta dos irmãos.

– Eu fazia todo o serviço: lavava, cozinhava. Era minha tarefa. Se não fizesse, apanhava mesmo.

A pobreza fazia faltar comida no prato.

– Minha mãe só trazia comida a noite, quando chegava da casa do patrão.

Moravam em um barraquinho que fazia divisa com uma plantação de peras. As frutas que caíam no telhado de madrugada anunciavam que, pelo menos naquele dia, a barriga iria roncar menos.

– A gente escutava o barulho das peras caindo e, no outro dia, o chão estava forrado.

Entre a tristeza, encontrava brechas para ser menino.

– A gente fazia muita peraltice! Amarrava bombinha no rabo do cachorro!

Uma delas, porém, quase acabou em tragédia. Criança cuidando de criança…

O irmão caçula não parava de chorar. Tentado acalentar o bebê, buscou na cozinha um pote que pensava ser açúcar.

– Eu dei soda cáustica para o meu irmão. Até hoje ele tem a cicatriz na boca! Apanhei de vara de marmelo. Sabe o que é isso? Ela enverga, mas não quebra. Deixa vergão…

Quando tinha 11 anos, trocou o barraquinho pelas andanças sem fim. A mãe havia se casado de novo, mas o marido lhe agredia. Cansada, fez os quatro filhos enfiarem as poucas roupas numa sacola e saíram a andar.

– A gente era como andarilhos sem destino. Às vezes, arrumava lugar para dormir. Às vezes, dormia no meio do mato.

Se lembra de buscar os restos de carne no matadouro da prefeitura, em uma das cidades onde ficaram por algumas semanas.

– Eles davam os pedaços duros, que a gente chamava de barbela. A gente ia pulando para casa. Cozinhava aquilo, comia.

Passavam alguns meses em um lugar, partiam de novo. Até chegar a Guaxupé, a 300 quilômetros do destino inicial, onde fincaram raízes por mais tempo.

Foi nessa cidade que Tomé pensou realizar a vontade de estudar, já aos 15 anos. Se matriculou com o irmão, mas a empreitada durou uma semana.

Fizeram uma brincadeira que o professor não gostou e foram expulsos, sem possibilidade de desculpas.

Passou, então, a dobrar os turnos de trabalho. Ia com o pau de arara até a zona rural mal o dia amanhecia e só voltava a tarde. Carpia café, cuidava do pasto, fazia o trabalho pesado da roça.

José Tomé escritor autodidata Ribeirão Preto - História do Dia

Resolveu sair para o mundo depois de perder a irmã para ele.

Ela tinha por volta dos 12 anos e se envolveu com um homem mais velho. Um dos irmãos arrumou briga e a menina saiu de casa sem deixar rastro.

– Até hoje eu não sei se ela está viva ou morta. Foi quando eu decidi, depois de tanto sofrimento, que era hora de mudar minha vida.

Um dos irmãos acompanhou. E foram muitas idas e vindas até conseguirem, por fim, um emprego em usina, na região de Ribeirão Preto.

– As pessoas chamavam a gente de peão. Não olhavam nos nossos olhos. Nos viam como marginais.

Foi preciso meses de serviço pesado para que o patrão percebesse que se tratava de gente do bem. Começaram, então, a trabalhar dentro da usina e a situação foi melhorando.

– Sem saber ler e escrever, eu fazia a dosagem da cana para ela virar açúcar. O tonel ficava na minha mão. Era muito orgulho!

Foi nessa época, aos 22 anos, que Tomé se casou pela primeira vez com a mulher com quem viveu por nove anos e teve cinco filhos. Foi nessa época também que ele tomou a decisão que – acredita – abriu seus caminhos.

– Deus me abençoou e, mesmo sem estudo, sem escola, eu consegui tirar carta profissional.

Passou um ano com a carta no bolso até conseguir um emprego na área. E trabalhou como motorista até se aposentar. Conta que tem 23 registros diferentes na carteira.

Por motivos diversos – inclusive o perfil namorador que tomou para si depois do divórcio – não conseguiu parar no mesmo emprego.

Mas, em 1995, conseguiu a aposentadoria que ajuda a manter as contas da casa onde vive com a segunda esposa.

José Tomé escritor autodidata Ribeirão Preto - História do Dia

Toda essa história está nos versos que Tomé escreve.

Suas poesias falam sobre amor, perdas, a rotina de motorista, o sofrimento.

Mais recentemente, passou a escrever também poemas religiosos.

– Para quem está na escuridão, é uma luz!

A inspiração, ele diz, chega sem pedir licença.

– Eu vou para a máquina e esqueço de almoço, janta. Enquanto não termino, não paro.

A segunda esposa fez algumas poesias virarem cinzas, ele confessa.

– Na época que eu era namorador, escrevia muita poesia para as mulheres. Queimei tudo!

O romance de outrora dá lugar ao amor de avô, com versos dedicados à neta. E aos acrósticos baseados em gente de todo tipo.

Ao longo da conversa, Tomé repetiu, ao menos cinco vezes, sobre a falta de estudo que tanto entristece. “Sem estudo, sem escola…”

Escrever é seu orgulho.

 – O livro não é vontade de ganhar dinheiro. É a vontade de ver o nome de uma pessoa que foi analfabeta e conseguiu conquistar um sonho.

Continua, assim, a sonhar.

– A vida é uma mistura de tristeza, alegria, felicidade. Essa poesia fala sobre tudo isso aí.

Prosseguir, ele bem sabe, é o melhor dos versos.

 

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José Tomé escritor autodidata Ribeirão Preto - História do Dia

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