Mensagens que Sergio distribui na avenida do Café já salvaram vidas

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 7 de maio de 2018! 

 

Todos os dias, Sergio Angelotti, 63 anos, deixa sua casa e passa oito, nove, doze horas no semáforo da avenida do Café com a rua Dr. Jorge Lobato distribuindo trechos do evangelho impressos em papel.

Estima que, em uma hora, distribui 250 mensagens. Em um único dia, são, no mínimo dois mil recados de fé.

Improvisou uma cobertura na cadeira de rodas, para se proteger do sol que queima Ribeirão Preto quase diariamente. E divide as ações em turnos de manhã, tarde e noite, para retomar o fôlego nos intervalos.

Há 17 anos sua rotina é essa. Houve um único momento de questionamento, já depois de uma década de ação. Conta que o coração foi tomado por angústia e pediu para o Deus em que acredita uma resposta.

– A gente está aqui para levar a palavra de Deus, independente de religião. A palavra pura e simples, a quem quer que seja. E ensinar o ser humano a amar o próximo, a fazer o bem, a ser melhor a cada dia. É isso que o evangelho ensina.

Continuou, com a convicção renovada. A mesma convicção que lhe faz usar sempre a terceira pessoa do plural nas suas falas. Sergio acredita que nunca está sozinho.

– Quem é “a gente?”. Sou eu e Deus.

Quando conta das vidas que ajudou a salvar, não fica com o crédito só para si. Uma mulher que queria se matar, um homem com a arma no carro para atentar contra o chefe e outro que queria matar a esposa infiel.

– Eles queriam tirar vidas. A gente se sente importante em poder ajudar.

Relembra as horas de conversa que teve com cada um deles. E que só ficou tranquilo quando o agoniado colocou um sorriso no rosto.

A cada sorriso que consegue arrancar dos motoristas sempre apressados, renova a sua convicção de todo dia.

– O amor é o mais importante. É disso que o mundo precisa: amor!

Não pede nada pelas mensagens que distribui.

– Quem quiser fazer uma oferta, faz como voluntário. E é uma oferta para Deus. O que eu faço não tem valor. Tanto faz uma oferta de R$0,05 quanto um valor maior. Não estou aqui interessado em dinheiro.

Diz, inclusive, que a prática de cobranças lhe fez trocar a igreja onde palestrava pela rua.

– A palavra de Deus não pode ser cobrada, divulgada dessa forma. Deus não quer sacrifício. Ele não paga aluguel, imposto, água. Quanto mais você faz por amor, mais Ele te abençoa grandemente.

Todos os dias, Sergio sai de casa para levar o que acredita a quem passa apressado – ou não – pela avenida do Café. A sua fé não cabe nos papeizinhos onde imprime as mensagens. Mas vibra em cada palavra.

Sergio mensagens de fé avenida do Café Ribeirão Preto História do Dia

Sergio conta que cresceu na região de Ribeirão Preto, na fazenda que o pai cuidava. Entre o primeiro casamento da mãe, o do pai e a união dos dois, eram em 11 irmãos.

Com menos de dois anos, teve paralisia infantil e perdeu os movimentos das pernas. A cadeira de rodas sempre foi companheira, mas não empecilho.

As únicas barreiras – que ainda hoje enfrenta – vêm pelo descaso do poder público. Há 17 anos ele entrega suas mensagens no mesmo lugar. Há 17 anos precisa se arriscar na sarjeta sem rampa para subir e descer da calçada.

– O descaso é muito grande. Essa é a dificuldade.

Na juventude, década de 70, chegou a morar em São Paulo, em busca da carreira de músico que era sonho.

– Eu já tinha agenda marcada para ir em programas de televisão, mas era muita dificuldade. Acabei voltando.

Voltou, se casou e montou uma empresa de eletrônicos. Fazia a montagem de mesas de som, consertava aparelhos, se especializou nessa área.

Quando o primeiro filho tinha nove anos, sua esposa ficou doente e faleceu.

– Ficou tudo muito difícil. Fui buscar apoio na igreja.

Se batizou e passou anos atuando em uma instituição religiosa evangélica. Chegou a organizar cultos ao ar livre na praça XV, Centro de Ribeirão Preto. E abriu uma casa de orações.

Se casou de novo e teve mais dois filhos.

– Até que veio o chamado para a abandonar tudo e ficar na obra missionária.

“O chamado”, ele explica, foi movido pelo que não acreditava.

– Eu me revoltei com os pastores que pedem dinheiro, com essa prática das igrejas. Tem pessoas enriquecendo às custas da palavra de Deus. Atingir as pessoas na simplicidade, sem sacrifícios, trocas e barganhas é o exemplo do evangelho.

Há 17 anos, então, Sergio compartilha o que acredita pelas mensagens que entrega no semáforo.

Conta que no começo chegou a pedir doações, para imprimir os papeis. Depois do momento de questionamento que teve, não tocou mais nessa questão.

– Não se deve pedir nada usando a palavra de Deus.

Ele conseguiu comprar uma impressora, em suaves prestações. E ganhou algumas máquinas também. Fala que vive das “ofertas” que recebe na rua – cerca de R$ 10 a cada 250 mensagens entregues – e de doações.

– Nunca me faltou nada. E eu não devo nada a ninguém. Tenho tanto que chego a distribuir para as pessoas. Tenho mais para dar do que para receber.

Sergio mensagens de fé avenida do Café Ribeirão Preto História do Dia

Sergio já se acostumou com o arregalar dos olhos de quem recebe a mensagem sem precisar entregar nada em troca.

– Muita gente acha que estou pedindo, que sou usuário de drogas, mas, quando percebem, pedem desculpas, ficam sem jeito, param o carro para conversar, querem até me levar para casa!

Já intercedeu em briga de casais, já incentivou muita gente a enxugar o choro.

– Quase todo dia isso acontece. E a gente fica feliz de ver isso acontecer!

Conta em detalhes os casos que mais marcaram.

A moça que passava por ali a pé e, depois de um tanto de conversa, confessou que já havia preparado tudo para o suicídio. O homem afobado que confessou o plano de atirar na esposa. E o outro, que, no final, chegou a lhe oferecer a arma.

Percebeu o nervoso naquele homem que sempre passava por ali. “Tá tudo bem?”, perguntou. “Não tá tudo bem, não”. Convenceu o homem a parar o carro e soube de seu plano.

– Ele disse que estava indo matar o chefe, com a arma no carro. Eu esgotei tudo o que sabia sobre Deus, bíblia, religião. Mas ele não mudava de ideia.

Um abraço apertado foi o que fez o homem se desarmar. Caiu no choro. E trocou a rota. Já se passaram cerca de nove anos, mas o homem continua a passar por ali. Sergio garante, porém, que o desfecho feliz não foi ideia sua.

– Eu olhei para o céu e veio a mensagem de Deus, em pensamento: “Pede um abraço bem forte para ele”.

Tem sua fé. E não há palpite que lhe faça mudar de ideia. Conta mais de um episódio em que “conversou” com o Deus em que acredita. E coloca no meio da conversa os elementos do diálogo entre amigos: “Ele ficou bravo”, “Aí, foi ele quem falou”.

Não se importa com a opinião – ou surpresa alheia.

– Isso é liberdade. Eu deixo Deus me usar para fazer o que ele quiser. Sem medo.

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Diz que se sente realizado. E feliz, todos os dias. Fala que não pertence a nenhuma religião, mas, sempre que é chamado, leva seu depoimento a igrejas.

– Eu acho que hoje sou mais religioso que antes. Sou um pouco de todas as religiões, para levar o evangelho simples, o amor de Deus, sem interesse algum para quem quer que seja. É disso que o mundo precisa: amor!

Os problemas?

– Servem para você crescer. A adversidade só vai durar enquanto você aceitar. Quando você se sente feliz e sente que nada está te atingindo, já venceu as adversidades.

Para o futuro, pensa em ter uma casa de orações, aberta a todas as religiões.

– Tenho o mundo pela frente. Posso ajudar muita gente. Mas não tenho afobação. Minha preocupação é viver um dia de cada vez.

Todos os dias, Sergio sai de casa para compartilhar o que acredita com pessoas que não conhece. O que leva alguém a uma atitude dessas? Sua fé – tão sua – é a única resposta.

 

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