Vale a pena ler de novo: Resgatando brinquedos do lixo, Egnaldo se tornou “doutor”

História publicada pela primeira vez em 17 de julho de 2017.

 

Era dia de Natal.

Egnaldo e os irmãos acordaram cedo para dar tempo de recolher as garrafas de champanhe dos lixos. O material reciclável, na época, valia um troco.

Quando viu a caixa do carrinho Maximus amontoada junto as sacolas, a perna amoleceu. Teve dificuldades para se aproximar do pacote, extasiado pela expectativa de que fosse mais que embalagem.

A decepção durou dias e perturbou o sono do menino, que tinha por volta de sete anos na época e nenhum brinquedo novo.

Egnaldo diz que, mesmo com todos os brinquedos que hoje pode comprar, nunca sentiu a alegria que sentia nos sonhos, quando abria a caixa e o carrinho estava lá.

Encontrou, porém, um jeito de compensar a infância feita de tristeza.

O menino que pegava brinquedos velhos do lixo e consertava para ter com que brincar, se tornou o Doutor dos Brinquedos, dono do próprio negócio, especializado em consertar todo tipo de produto para os pequenos.

Os brinquedos novos – cheios de tecnologia – são o principal e mais rentável serviço. Ele, porém, faz questão de consertar os brinquedos antigos, que dão um tantão de trabalho e, muitas vezes, chegam como desafio.

– Na maioria das vezes, os brinquedos antigos chegam aqui por duas causas: pais que querem que seus filhos brinquem com os que eles brincavam ou famílias que perderam crianças e querem uma recordação.

É nessas peças que está a infância de Egnaldo e as histórias mais bonitas.

– Consertar brinquedos antigos é uma forma de eu ter contato com uma coleção de brinquedos que era o meu sonho na infância.

Consertando brinquedos, Egnaldo Moura de Jesus resgata passados. E devolve alegrias.

Egnaldo conserta brinquedos Doutor dos Brinquedos Ribeirão Preto

Egnaldo cresceu na grande São Paulo. Em 1976, quando tinha três anos, o pai morreu e a mãe ficou com seis filhos pequenos. A criançada recolhia recicláveis para pôr comida em casa e ele começou a ajudar com sete anos.

Tinham que acordar às cinco da manhã, para dar tempo de mexer no lixo antes que o lixeiro passasse, por volta das seis.

Conta que quando tinha entre 10 e 11 anos as obras do metrô da Vila Matilde, zona norte de São Paulo, estavam em andamento.

Eram mais de 100 funcionários, que comiam marmitas todos os dias. O material das marmitas também dava um troco na época e, então, catadores se acumulavam brigando pelas embalagens nos horários das refeições.

Egnaldo teve uma ideia. Arrumou um carrinho desses de mercado, um galão de água que enchia na vizinhança e passava oferecendo água geladinha aos funcionários.

– Eu cativei todo mundo. Eles guardavam a embalagem do marmitex para mim e, por dois anos, enquanto as obras duraram, eu não precisei andar a cidade toda atrás de reciclado. Ficava só por ali.

Era preciso ser criativo para amaciar a dureza dos dias.

Foi assim que começou a arte de consertar brinquedos.

– Minha mãe não tinha condições de dar brinquedos para a gente. Ela precisava comprar comida, mandar a gente para a escola. Não sobrava!

Egnaldo, então, recolhia os brinquedos que achava no lixo, levava para casa e consertava. Era o que tinha para brincar, no pouco tempo que sobrava entre o trabalho duro e a escola.

O carrinho que para outro menino já não servia mais, transportava Egnaldo para longe daquele mundo.

Decidiu ali que, um dia, iria consertar brinquedos como profissão.

Egnaldo conserta brinquedos Doutor dos Brinquedos Ribeirão Preto

Quando completou 14 anos, Egnaldo deixou os recicláveis para trabalhar como office boy e depois foi emendando um serviço no outro.

Depois dos 18, decidiu se alistar na Força Aérea. O sonho era ser oficial.

– Mas a concorrência era injusta… eu não tinha condições e nem tempo para estudar.

Acabou deixando a ideia de lado e foi trabalhar em banco. Conta, porém, que já nessa época pretendia colocar em prática o plano de consertar brinquedos.

Pegou o trabalho no banco para guardar dinheiro e conseguir viabilizar o projeto.

Foram quatro anos de planejamento antes de pedir as contas. Em 2005, com a esposa e a filha, partiu para Franca, onde abriu o primeiro escritório do Doutor dos Brinquedos.

A demanda dos fabricantes era maior em Ribeirão Preto, entretanto, e há sete anos a família vive por aqui e conserta brinquedos em uma loja no Centro.

Egnaldo diz que aprendeu a maior parte do que sabe sozinho, mas nesse percurso fez cursos de eletrônica e algumas especializações.

Hoje, conserta brinquedos que chegam a valer R$ 4, R$ 5 mil e garantem o sustento do negócio.

Se emociona, porém, quando fala da avó que levou um violãozinho simples e pediu que fosse feito o restauro para lembrar do neto que morreu, da moça que guardou a boneca “mãezinha” e agora realiza o sonho de ver sua filha brincar, do ursinho que bate no bumbo e faz a avó se lembrar da neta.

– Os objetos têm uma história. O valor financeiro, nesses casos, é o que menos interessa. A senhora podia comprar um violão novo em qualquer loja. Mas é preciso entender porquê ela está consertando aquele.

Conta que já chegou a buscar peças em outros estados, no desafio de restaurar um brinquedo antigo.

E diz que, quando a obra fica pronta, ele sente algo que chega perto da alegria do sonho, quando abria a caixa e o tão sonhado carrinho Maximus estava lá.

– Consertar me faz sentir um pouco daquela sensação….

Egnaldo conserta brinquedos Doutor dos Brinquedos Ribeirão Preto

Egnaldo conserta, em média, 300 brinquedos por mês.

Hoje, aos 44 anos, diz que está realizado.

– Eu faço o que eu quero, tenho o meu negócio e, principalmente, eu amo o que eu faço.

Pôde comprar todos os brinquedos que a filha – que já é adolescente – um dia quis.

Mas frisa:

– A maior herança que posso deixar para ela é a formação. Isso, minha mãe deixou para a gente, mesmo com toda a dificuldade.

As lembranças da infância terão sempre um gosto de tristeza, ele não nega. E não tenta fingir que é diferente.

Mas encontrou uma forma de resgatar o passado.

– Eu sinto que eu não tive infância. Mas hoje eu consigo resgatar os brinquedos para as pessoas. Esse era o objetivo.

Consertando brinquedos, Egnaldo resgata a alegria. E faz o presente feliz.

 

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