Artista jornalista, Vitor pintou história na comunicação

Este texto foi produzido por Murilo Badessa durante a oficina “Como contar histórias de personagens reais?”, ministrada no Sesc Ribeirão Preto por Daniela Penha, criadora do História do Dia. Os participantes foram convidados a escreverem um perfil, a partir das técnicas compartilhadas durante a oficina. 

 

“Será uma honra”, respondeu via WhatsApp. A entrevista foi marcada um minuto depois do convite, agendada para o dia seguinte e respeitada com pontualidade britânica. Se ao meio-dia tínhamos que conversar, ao meio-dia estávamos conversando. Como um lorde inglês – da forma que muitos o chamam no trabalho – Vitor Maciel me contou o vai e vem de sua vida costurada à linha dupla. De ponto em ponto, o artista jornalista uniu a arte à comunicação.

Nascido na década de 1970, em Campos Gerais, cidade com 30 mil habitantes ao sul de Minas, o rapaz é uma dessas pessoas ‘pau para toda obra‘, sabe? Nele, há de tudo um muito. Pinta, é locutor de rádio, expõe telas na Europa, já foi dono de uma casa de açaí, trabalhou na BBC de Londres e, com certeza, fez alguma outra coisa que se esqueceu de me contar.

O caminho para tantas vírgulas, no entanto, não é simples e nem apressado. Como a primeira palavra do capítulo de um livro, o que inicia essa história é a dificuldade do personagem – real – em se adequar às traquinagens dos irmãos na fazenda da família. Filho mais velho e refinado, gostava mesmo era de desenhar.

O primeiro curso de pintura, ponto-chave para o que viria, foi presente de uma parente muito querida, a Tia Zina. Sabendo do que o menino era capaz, ela decidiu lhe presentear e, talvez por acaso, acabou lhe oferecendo a oportunidade de ser. Com 12 anos, reproduzir partes da Capela Sistina não era pesadelo e muito menos dificuldade.

A medida que a memória permitia, lembrava e ria com carinho do passado interiorano. “Para você ter uma noção, Campos Gerais não tinha rádio e o que acontecia por lá era avisado pelo alto falante da igreja”, diz, ao explicar como a tia foi informada das aulas.

O curso acabou, mas, a partir daí, a vida já estava de mãos dadas com a arte. Aos 18 anos, prestou vestibular pela primeira vez e não foi aprovado em Arquitetura, profissão pela qual poderia transformar os traços em matéria. A frustração, palavra utilizada por ele mesmo para definir o momento, não demorou a ter fim, entretanto.

Como um recado divino, se recordou que, certa vez, ao ler um versículo da Bíblia na missa, fora elogiado pela voz grave e empostada que possui. Pronto, o primeiro ponto cruz dessa trama dupla foi bordado.

A cidade natal havia crescido e, finalmente, uma rádio funcionava por aquelas bandas. Sem formação acadêmica, se enfiou na ‘Montanhês FM’ pelo gogó e, com a confiança de Afrânio Filho, o chefe, passou a anunciar os sucessos já antigos de Leila Pinheiro e Ella Fitzgerald. “Era uma emissora adulto-contemporânea, em um município agrícola. Nem todo mundo gostava da nossa programação”, conta dando risada.

Estranho para uns, conhecimento para Vitor. Lá, passeou pela Música Popular Brasileira, conheceu o trabalho de Al Jarreau e até participou do jornal da casa. “Aprendi que, mesmo com as críticas locais, não poderia me abalar. A audiência da ‘Montanhês’ vinha das cidades vizinhas, como Alfenas e Três Pontas”, esclarece aliviado.

O empurrão da FM foi suficiente para fazer com que o jornalismo se tornasse uma opção de vida. Estudou, foi aprovado no vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e passou a frequentar a boemia belo-horizontina. No ‘Café com Letras’, localizado à rua Antônio de Albuquerque, na Savassi, esteve em contato com jornalistas, artistas plásticos e dançarinos. Fez amizades em um espaço, até hoje, indicado pela refinada programação cultural e pelas ricas prateleiras de livros.

Já jornalista, a sorte foi lançada em Ribeirão Preto, onde o irmão morava. “Fiquei alguns bons anos. Fui contratado pelo pessoal da ‘Diário FM’, trabalhei na ‘Rádio 79’, onde fui adotado pelos mais velhos, e tive a grande oportunidade de fazer inglês e estudar para ser tradutor”, pontua.

O problema é que o interior de São Paulo era pouco para alguém como Vitor. A convite de um primo, em 2004 decidiu passar uma temporada na terra da rainha Elizabeth, onde os três meses previstos se tornaram quase dois anos.

As grandes experiências de sua história estão justamente lá, mais de oito mil quilômetros de distância do Brasil, em uma grande ilha, para lá do Canal da Mancha, na Inglaterra.

A rua onde morava tem nome de monarca – Victoria Road – e é composta por dezenas de sobrados construídos no período da Revolução Industrial, iniciado principalmente no Reino Unido. No abrigo das casas conjugadas e charmosas, descobriu como a vida pode ser diferente e prazerosa também longe do ninho.

Abrindo e fechando o zíper de uma bota cano alto marrom que vestia no dia da entrevista, lembrou-se das “maluquices” no lugar onde se dirige do lado direito. “

Conheci gente do mundo todo. Tenho amigos franceses, espanhóis, uma ex-namorada de Zaragoza… A Europa era um mar de oportunidades”.

E quem disse que ele não aproveitou para navegar? Muito do esperto, ficou os primeiros três meses na farra, mas também procurou por empregos. “Quando descobri onde ficava o prédio da BBC, não dei sossego até conseguir falar com alguém do Jornalismo. Quase religiosamente, visitei a portaria da emissora todos dias”.

A insistência valeu a pena. Não é que o garoto avesso às traquinagens dos irmãos conseguiu uma vaga como trainee em um dos maiores grupos de comunicação do mundo?

Nessa parte da conversa, a vitória fala mais alto e, sem um pingo de soberba sequer, ele me mostra duas fotos reveladas em 38×25. Uma é dele com a chefe que lhe estendeu a mão na BBC, a outra é da redação onde trabalhou por oito meses. “

Olha como os computadores eram antigos! Dessa sala, noticiávamos o que acontecia na Europa para os países falantes da língua portuguesa”.

O trabalho do mineirinho cruzou oceanos e chegou ao Brasil, à Portugal e até deu pulo em alguns cantos da África. As pautas? Política, ataques terroristas, família real. Coisinha básica…

Não distante da arte, o rapaz que usa boina em plena Ribeirão Preto também participou de alguns cursos de desenho na Inglaterra e devorou os imensos museus europeus.

A vida cosmopolita fez bem, mas precisou chegar ao fim. Em 2005, a mãe, dona Maria Anésia, teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e precisou de cuidados. Como uma Alice que cai no poço com destino ao País das Maravilhas, Vitor está de volta ao “meio do mato”. Buckinghan vira cafezal.

Sem muitos detalhes, não fala sobre problemas. O pai já havia morrido, a mãe morreria dali alguns anos, mas dessas tintas não veremos as cores. “Deleto essas coisas ruins”, diz sorrindo.

De volta ao Brasil, teve de rebolar para se restabelecer. Aí entraram a casa de açaí, passagens por Varginha como gerente em uma distribuidora de vidros, aulas de inglês e até algumas ‘forcinhas’ para uns amigos mineiros que abriram uma casa de shows.

Como um bom brasileiro, fez do limão uma caipirinha. Nunca parou de pintar, se sustentou das telas que vendia, trabalhou em rádio gospel e chegou a ficar quatro meses em Barcelona trabalhando com arte.

Artista jornalista, Vitor atualmente grava locuções em algumas rádios de Ribeirão Preto e não tem medo do que vem pela frente. Com os talentos, criou um passaporte para o mundo.

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