Augustinho faz solidariedade com paixão por carros antigos

 

Texto e fotos: Daniela Penha

Ilustração: Cordeiro de Sá 

 

A bicicleta é a mesma. Há um tempo, ganhou pintura nova, restaurada como prêmio.

Tiveram que podar o pé de goiaba para resgatá-la. Estava um tanto esquecida e a árvore cresceu tomando para si parte da história de Augustinho. Quando percebeu, empreendeu um reparo rápido. Podou os galhos que abraçavam a magrela, fez o resgate e o restauro.

Agora, além de contar, materializa a memória exibindo, todo-todo, o veículo que comprou por volta dos 12 anos, deu início ao namoro que virou casamento e lhe carregou por uma década, ao menos 30 quilômetros por dia, para ir e voltar do trabalho.

Aí também foi questão de escolha. Para construir a casa/chácara onde vive ainda hoje com a esposa, rodeado pelos filhos, netos e bisnetos, teve que vender o primeiro carro que conquistara. “Mas não me arrependo, viu?”, faz questão de enfatizar. A bicicleta aguentou as pontas.

Depois da poda, a goiabeira voltou a crescer, compreendendo a importância de deixar intacta tão bonita memória.

– Foi muita luta. E sempre lutei sozinho, graças a Deus! Nunca peguei um centavo dos meus filhos. Isso é uma coisa que nunca fiz! Estão todos encaminhados.

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A chácara onde Augustinho vive com seus pés de fruta e recordações fica em estrada de terra, para sua alegria.

– Mesmo assim tem gente que passa a 80 km por hora! Imagine se asfaltar!

Entre Ribeirão Preto e Bonfim Paulista, ganhou postes na rua não faz mais que sete anos. Ele conta que hoje, já com a vida estabilizada, poderia morar em um apartamento de qualquer bairro da cidade, mas não larga seu cantinho por nada.

Galinhas e dezenas de cachorros dão boas-vindas. Embaixo das árvores ou nas garagens, seus tesouros estão guardados: kombis, fuscas, gols, carros antigos.

A paixão começou na infância. Queria ser motorista desde menino, desejo que o tirou da roça, trabalho de toda a família. Depois de perder duas colheitas seguidas de arroz, avisou o pai que estava deixando de vez a terra e foi em busca das rodas.

– Era meu sonho ser motorista de ônibus! Fui indo até conseguir!

Passou mais de 25 anos nesse trabalho, desbravando as ruas de Ribeirão de ponta a ponta e espalhando sua simpatia para todo lado.

– É como dizem: eu subi no degrau e não desci mais!

A paixão pelos motores só cresceu. E, quando a aposentadoria veio, pôde começar a coleção. Há pouco mais de uma década, soma carros antigos no quintal de terra. Passou a integrar a associação Califórnia Volks, como presidente “emérito”, como diz, brincando para explicar os oito anos na função.

– Com carro novo eu não esquento a cabeça. Mas carro velho… eu falo: põe minha kombi velha e um carro novo na praça para você ver qual o povo vai olhar!

Encontrou um jeito de fazer o bem com sua paixão por colecionar. Todo mês, a associação faz doação de alimentos arrecadados pelos próprios associados. Uma vez ao ano, realizam também um grande evento. O “Califórnia Volks Brother”, encontro de fusca e carros da Volkswagen, já entrou para o calendário oficial de eventos da cidade.

Pedem alimentos como ingresso e, depois, doam para quem precisa. O Mesa Brasil Sesc Ribeirão está entre os beneficiados. Desde 2014, ajudam o Mesa a realizar a ponte entre quem pode doar e quem precisa de ajuda.

Em seis anos, arrecadaram 9,5 toneladas de alimentos, que foram entregues, através do Mesa, para instituições sociais da cidade. Só no evento realizado em fevereiro deste ano arrecadaram 2,8 toneladas. Durante a pandemia, não pararam de ajudar. Realizaram uma campanha e conseguiram 680 quilos de alimentos.

– Parece que ajudar abre o coração da gente…

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Augustinho Muniz, 73 anos, não é de lamentos. Conta sua trajetória com astral lá em cima, mesmo quando a memória não é feita só de alegria. O bom-humor é seu companheiro.

– Eu comecei na roça com 12 anos. Já saía daqui para vender verduras!

Nasceu e cresceu em Bonfim Paulista, filho de lavradores, o único homem entre três irmãs. Às 22h, saía de casa com a carroça cheia. Chegava por volta da 1h da madrugada para abastecer os mercados e depois retornava para casa e ia ajudar na lavoura. Nem frio nem chuva paravam o trabalho.

Estudou até o quarto ano.

– Sou ruim para a escrever e ler! Agora matemática era o que eu gostava. Sou bom de cabeça!

O pai queria que ele fosse para o colégio de padres, o convite estava feito. Dizia que era só para conseguir um bom estudo. Depois poderia abrir mão da carreira. Mas não teve jeito.

– Sabe aquele moleque acostumado na barra da saia de mãe e pai? Eu era assim!

A compra da bicicleta, por volta dos 12 anos, também é história. Fora roubada de seu tio anos antes e reencontrada pela família. Não tinham como comprovar a propriedade, claro. E Augustinho fez de tudo para (re)comprá-la.

– Ela está comigo há mais de 60 anos!

Ficou com os pais na lavoura até completar 21.

– Foram dois tombos que eu tomei na plantação de arroz. Veio a seca e morreu tudo. No outro ano, veio tudo bonito. Tava indo bem. Veio outra seca e perdi a colheita de novo. Larguei mão.

Foi atrás do sonho sobre rodas. Conta que para entrar na empresa de ônibus teve que passar por um processo de seleção rígido, com testes em São Paulo. Sempre preferiu o transporte urbano, sem viagens.

– Nunca gostei de andar de gravatinha (uniforme usado pelos motoristas que viajavam). Gosto de andar mais relaxado!

Também por volta dos 21 anos conheceu sua esposa e companheira, Maria Antônia, em uma quermesse de Bonfim Paulista. E cá está a bicicleta em mais uma história. Para namorá-la, pedalava 25 quilômetros para chegar à fazenda onde ela morava. O namoro durou só 10 meses. Já foram logo para o casamento. Tiveram cinco filhos, “todos encaminhados”, como Augustinho repete.

Em mais de 25 anos dirigindo ônibus pelas ruas de Ribeirão, colecionou histórias. Atoleiros em bairros ainda de terra, amizades com muita gente querida ainda hoje.

– Olha, eu nunca fui roubado. Sempre tratei todo mundo bem!

Depois que vendeu o carro para construir a casa, começou as viagens de bicicleta. Ele conta que saía de Bonfim por volta das 3h para chegar na garagem, próxima à avenida Bandeirantes, por volta das 5h. Trabalhava até às 12h e voltava para casa. Depois, ia das 18h até 0h. E pedalava na madrugada.

– Nunca me aconteceu nada. Naquele tempo não tinha perigo.

A situação da família melhorou com a valorização da região de Bonfim Paulista. Tinham terrenos por ali, que foram vendidos e trouxeram prosperidade.

– Hoje a gente vive muito bem! Mas sou muito simples, viu?

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Augustinho carrega um coração gigante, que se deixa ver na sua risada gostosa e bem-humorada. A solidariedade já faz parte da trajetória há bastante tempo.

– Cansei de levar bronca por quebrar galho de criança, idosas que não tinham o dinheiro para a passagem. Às vezes, tirava do meu bolso. Sempre fui levando desse jeito!

Na romaria de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro, sua casa/chácara se transforma em parada para os romeiros. No quintal, uma imagem grande da santa faz a recepção. A família construiu dois banheiros a mais, para que os visitantes possam retomar a energia para a caminhada e, todo ano, oferecem suco, água, bolos, biscoitos feitos na madrugada. Para Augustinho, é uma forma de gratidão.

– Eu faço o que posso porque nunca me faltou nada!

Conheceu a associação Califórnia Volks em um passeio ao Shopping, cerca de 11 anos atrás. Já estava aposentado fazia mais de uma década. Ficou encantado pelos carros antigos e decidiu também colecionar. Os associados encontraram, então, uma forma de transformar o hobby em solidariedade. O grande evento com a arrecadação de toneladas de mantimentos já é realizado há uma década!

– Eu não sei nem explicar… poder ajudar é muito bom!

Já está preocupado. Torce para que a pandemia vá logo embora e o evento do ano que vem possa ser realizado. A ajuda não pode parar!

Seu Augustinho diz, algumas vezes, que é um “homem simples”. Não gosta de praia, viagens:

– Não perco tempo com isso!

Prefere investir seu dinheiro nos carros. E não economiza! Gastou mais de R$ 50 mil para restaurar sua kombi azul, uma paixão.

– Ficou bonitona, né?

Viaja só para os eventos de carros antigos. Já foi para tudo quanto é cidade do interior de São Paulo, sempre com a esposa, sua companheira.

– A gente tem que fazer o que gosta! E eu gosto mesmo é de peça velha!

Em sua simplicidade, vai compartilhando sabedoria.

– Existem pessoas com tanto orgulho, tanta coisa. Só pensam em si próprias. A vida da gente é muito curta. Eu queria viver 100 anos para ajudar os outros!

Posa para a foto segurando a bicicleta toda brilhante, dentro do fusquinha que já levou a família para Aparecida do Norte, na kombi restaurada que arranca suspiros. História contada e ilustrada com suas colecionáveis conquistas.

 

 

Clique AQUI e conheça mais sobre o programa Mesa Brasil Sesc São Paulo!

 

 

*Quer traduzir essa história em libras?
Acesse o site VLibras, que faz esse serviço sem custos:
https://vlibras.gov.br/

 

Comentários
  • Neusa Dalla Valle
    Responder

    Meu primo parabéns pela sua atitude ?

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