Bicicleta de Antônio leva verdura fresquinha

Entre uma verdura e outra, Antônio vai deixando a vida vir à tona. Arruma com cuidado os pés de alface, almeirão, rúcula na caixa da bicicleta.

Não gosta que o cliente chegue enfiando a mão. “Machuca as folhas”, explica.

E repete o cuidado com as memórias. Vai revelando uma a uma, pouco a pouco. De uma vez, a dor é muita.

– Se eu for começar a contar tudo o que passou na vida em 51 anos… é muita coisa demais! É uma história! Uma vida!

E parece, ele mesmo, surpreso com o tanto que viveu.

Antônio, o verdureiro do Centro de Ribeirão, que entrega o verde fresquinho de bicicleta, é história de dor.

– Quem vê o verdureiro aqui no Centro não sabe. Mas essa é a vida do verdureiro!

Foi criado “pelo mundo”, como diz. Passava períodos na casa do pai, outros com a mãe, outros com um vizinho, o avô, a madrinha.

– Minha vida foi indo de lá para cá.

Na maioria das casas, a agressão era constante.

– É, ueh! Meu avô amarrava na corrente para não fazer arte. Mas um dia amarrou na corda e eu fugi. Depois, não amarrou mais.

Aos nove anos, a mãe o entregou para um vizinho que, antes de levar o menino para o trabalho no cafezal, amarrava suas pernas e lhe batia.

– Um dia eu fugi, só com a roupa que tinha ido pro café. Passei dois dias só com um pão e uma banana que uma mulher me deu. E eu tinha nove anos…

Trabalhou de tanta coisa que a memória não conseguiu registrar. Cortou cana, vendeu abacaxi, cuidou da roça, vendeu mandioca…

– O trabalho na roça é um sofrimento danado…

Com 21 anos, chegou em Batatais, no sítio de um tio. E continuou trabalhando na roça até os 37, quando encontrou uma mão amiga, pela primeira vez em tanta vida.

Dona Maria era uma idosa que morava em Ribeirão Preto. Conheceu Antônio trabalhando na roça e decidiu ajudar.

– Foi a dona Maria que me tirou da roça. Ela me deu lugar para morar em Ribeirão, comprou uma carriola e mandioca para eu vender.

Ele começou vendendo mandioca de porta em porta do Parque Ribeirão. Conta, com orgulho de brilhar os olhos, que em seis meses comprou sua primeira bicicleta.

– Paguei R$ 240 na época. Nunca vou esquecer. A dona Maria inteirou o dinheiro. Ficou mais fácil que a carriola.

Antônio trocou a mandioca pela verdura e o bairro pelo Centro.

Há 14 anos, é o verdureiro conhecido por quem frequenta a área central. Há 14 anos, usa a mesma caixa de guardar verduras de quando começou.

– Tá servindo, uai! Vou trocar para que?

Todos os dias, Antônio percorre, em média, 10 quilômetros na sua bicicleta verde e chega a vender 80 maços de verdura.

O dia que acorda mais tarde é seis da manhã. E, então, as nove da noite já está dormindo. Só não trabalha aos domingos e feriados.

– Olha, você tem que tirar a foto logo, porque a verdura acaba rapidinho!

A freguesia confirma. Mal ele para na praça, e os pedidos começam:

“Tem alface americana?”

“Vai um rabanete!”

No mês passado, o preço da verdura subiu em R$ 0,50 e Antônio custava a dizer para o freguês. Fazia questão de explicar:

– Olha, é que o fornecedor aumentou e a gente tem que repassar! Todo lugar tá assim.

Chega a revelar as estratégias de venda.

– Depois das cinco e meia, que é hora de parar, eu vendo a R$ 3, mas agora não tem como.

É coração e humildade – não sobra espaço para estratégia.

O verdureiro diz que, em toda vida, nunca dormiu em uma cama boa, “dessas boas de verdade”. Hoje, descansa da rotina pesada em dois colchões empilhados no chão da casa alugada.

Conquistou feito maior, porém. Aos 25 anos, já morando em Ribeirão Preto, aprendeu a ler e escrever.

– Passei um dia na fila da escola. Tinha fila, como se tivesse que pegar senha para estudar.

Fez até o sexto ano e parou.

– Eu desisti, porque era muito difícil. Até o ser humano se estuda na sétima série! Mas antes eu não sabia nem falar com você. Agora eu sei.

Projeta na cabeça as melhorias que poderia fazer com uma bicicleta maior, quem sabe um carro.

– Eu podia vender um milho verde, um quiabo. E vende! Mas não soube juntar dinheiro nessa vida…

Se a vida é boa?

– Óia, pra dizer que é boa, não é. Só o fato de viver sozinho, não ter família… nunca tive uma família. A gente véve porque tem que viver. Mas a gente não é feliz…

Fala da dor com sorriso no rosto.

Sorriso estático.

Quase real.

– Ih, ninguém vai acreditar que esse verdureiro tem tanta história! E tem mais coisa… é só para você ter uma ideia.

Vai embora esboçando felicidade. Faltavam só seis maços para esgotar o estoque de verdura do dia. Ele estava certo de que no caminho terminava de vender.

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