Carlos: atleta da vida e do halterofilismo

– É muito bom estar de volta! Fazer o que eu gosto…

Faz, mais ou menos, quatro anos que acompanho a trajetória de Carlos Roberto Silva Miranda. O conheci no Centro de Ribeirão Preto, rua São Sebastião. Eu trabalhava no Jornal A Cidade e Carlos vendia balas na esquina da redação.

Passava por ele e me questionava: quanta história deve ter esse jovem com energia de menino! Escrevi sobre sua trajetória pela primeira vez em um blog que tive no A Cidade ON.

Em novembro de 2017, o entrevistei de novo, para o História do Dia. Lembro de ter saído de sua casa triste, triste. Carlos me contara, na época, que havia desistido de competir.

– A vida é difícil, tudo bem. Mas não sei por que é tão difícil…

Ele foi campeão nacional de halterofilismo paralímpico duas vezes e ganhou um campeonato regional – entre 2005 e 2007.  O esporte foi sua reconexão com a vida após o acidente que lhe tirou o movimento das pernas. Competindo, retomou a vontade de prosseguir, passou a planejar o futuro, voltou a sorrir.

Depois de uma nova lesão, no entanto, veio para Ribeirão Preto cerca de cinco anos atrás em busca de uma cirurgia que lhe deixasse voltar a praticar o esporte. Para se manter por aqui, passou a vender balas nas ruas do Centro.

Conseguiu a cirurgia, voltou a treinar, mas as necessidades financeiras falaram mais alto. Me explicou, lá em 2017:

– Foi tanta dificuldade, tanta coisa que eu passei pelo esporte que eu perdi aquele brilho nos olhos que eu tinha quando treinava e competia.

Mas nisso eu não acreditei. Carlos, mesmo quando dizia desistir, continuava com os mesmos olhos brilhantes ao relembrar das viagens e dos treinos em busca de títulos.

Foi só questão de tempo – ainda bem! No final do ano passado, ele me mandou uma mensagem, em letras festivas: “Vou voltar a treinar!”.

E voltou. Com tudo – e mais um pouco.

– Tô muito cheio de energia!

Vigor que se reflete nas competições e no dia a dia. Carlos acorda às 5h para estar na academia às 5h30. Conseguiu um apoio da Workout Sport Clube e não precisa pagar a mensalidade. O Armazém Suplementos oferece sua suplementação mensal. Todos os dias, então, treina por duas horas e depois vai direto para o trabalho.

Continua vendendo balas no Centro de Ribeirão, onde chega por volta das 8h30 e fica até o movimento sinalizar que é hora de partir. Todo o trajeto é feito de ônibus ou empurrando sua cadeira de rodas pelas ruas nada acessíveis de Ribeirão.

De volta para casa, no final do dia, não tem descanso. Além de cuidar dos afazeres junto com o marido, atendem a clientela em um pequeno negócio próprio. Compraram recentemente uma máquina de imprimir e tirar xérox, para complementar a renda.

De fato: é preciso muita energia para seguir acreditando no sonho de ser atleta. E lutando por ele. E ele acredita. No mês passado, voltou a competir.

Juntou as economias, buscou apoio aqui e ali e foi para Curitiba participar da etapa regional do Circuito Brasil Loterias Caixa de Halterofilismo, organizado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro. Se classificou e conquistou vaga para a etapa nacional, que será em São Paulo, no mês de setembro.

O objetivo é conseguir se classificar entre o 1º e o 3º lugar para conquistar uma bolsa, recurso do Governo que permite a atletas como Carlos continuarem treinando.

– O problema é que, com o que a gente ganha, não dá para pagar as viagens, as passagens.

Carlos, que decidiu dar mais uma chance ao sonho, precisa de apoio para continuar. Ir em frente sempre, sem deixar o desânimo nocautear a fé.

Todos os dias, vendendo as balas, recepciona quem passa com um sorrisão no rosto. Fala “bom dia”, mesmo que, muitas vezes, não receba nada em troca.

– A vida? Eu defino como amor. Mas é o que as pessoas estão se esquecendo.

Carlos campeão de halterofilismo paralimpico Ribeirão Preto - História do Dia

Carlos começou a vender balas aos três anos, para ajudar em casa. Na época, não precisava das rodas da cadeira. Eram as perninhas que iam e vinham sem cansar.

Cinco irmãos, mãe e pai morando em Uberlândia e trabalhando em equipe, sem hora para terminar.

Quando tinha nove anos, o pai colocou um filho na garupa da moto e Carlos de improviso no tanque. O carro furou o pare e o menino só acordou três meses depois.

O pai abandonou Carlos, a mãe e os quatro irmãos logo após o acidente.

O menino ficou um ano e meio internado, aprendendo a conviver com o novo corpo. As pernas não mais respondiam.

– Não me imagino melhor. As oportunidades que Deus me deu foram as melhores. Sou grato. Aprendi a viver.

O discurso é de vitória mesmo se o pódio é triste.

Quando deixou o hospital, de cadeira de rodas, voltou a vender balas.

Mas a vida preparava mais.

Um instituto ofereceu bolsas para pessoas com deficiência que quisessem jogar basquete e lá foi Carlos. Gostou tanto que passou para o halterofilismo e decidiu ser atleta.

Escolheu o esporte como sonho.

Em pouco tempo, era campeão no halterofilismo paralímpico. O treinador Wéverton Santos, que criou o CDDU (Clube Desportivo para Deficientes de Uberlândia), conta que não tinha dúvidas do potencial do menino:

– Ele só parou porque teve um problema.

Caiu da cama e lesionou de novo a coluna. Era preciso cirurgia para resolver e, então, decidiu buscar tratamento no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, três anos atrás.

A cirurgia foi feita em agosto de 2016, com sucesso.

Carlos até voltou a treinar, mas as contas foram ficando apertadas e pagar a academia deixou de ser prioridade. Foi convidado para voltar a competir, mas não teve patrocínio para a viagem. Desistiu, na época. Trocou o sonho.  “O foco é juntar dinheiro para comprar uma casa. Não vejo possibilidade de mudar de vida pagando aluguel”, contou, então.

E conseguiu manter a ideia por alguns meses. Não o suficiente para apagar o sonho. “O brilho no olho” nunca se apagou. E, por isso, decidiu voltar.

Não sabe até quando. Não sabe se vai dar certo.

Mas, novamente, está disposto a tentar.

Aprendeu, bem cedo, que desistir não pode ser um caminho. Já disse, lá em 2017:

– Tem que ter fé em Deus. Acreditar, acima de tudo. Sempre vai ter um dia melhor que outro.

Amanhã, a rotina recomeça. Às 5h Carlos já está de pé, pronto para o treino: na academia e na vida. Qual deles é o mais pesado?

 

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Comentários
  • bruna
    Responder

    Linda essa historia…

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