Com seu “bom dia” animado, José Carlos distribui gentilezas diariamente

Clique no play para ouvir a história:

 

– Bom diaaaaa! Bom diaaaa, com muita alegria!

Ninguém passa imune.

– Seja bem-vinda! Toma um café lá, filha!

A recepção do seu José Carlos Siqueira só não alegra quem está muito disposto a passar o dia mal-humorado. Para os outros, seu sorriso largo com o “bom dia” sonoro é a combinação certa de uma manhã melhor.

Quem passa pelo local com frequência já sabe disso. Chega distribuindo beijos ao funcionário, que é querido até do outro lado da rua. A gente perde as contas da quantidade de buzinadas que ele recebe em duas horas de conversa. Até quem está passando de carro quer retribuir à gentileza em doses altas do José.

Foi assim que eu o conheci. Procurei a unidade do convênio São Francisco, na avenida Presidente Vargas, para autorizar uma guia. Estava com um tanto de pressa, sem olhar muito para o entorno, e o “bom dia” dele atravessou meu relógio.

Impossível não parar e agradecer. Um dedo de prosa e ele logo me levou para ver a revista feita pelo grupo com uma reportagem em sua homenagem:

– Oh, aqui sou eu! Tá vendo? Minha história! Ih, filha: aqui todo mundo me conhece!

A recíproca é verdadeira: José Carlos, 64 anos, sabe das dores e alegrias de cada funcionário que passa por ali e de muitos dos pacientes.

– Hoje chegou uma moça para trabalhar e eu já disse: ‘Você não tá bem, né, filha?’. E ela: ‘Como é que o senhor sabe?’. Ela tá com dengue, sabia? Falei: ‘Vai pra casa!’.

 

 

Ele sabe quem está sempre ali e quem é novo na área. Conhece toda a vizinhança, os vendedores que trabalham nas ruas do entorno, o senhor de 85 anos que parece ter 60 de tanta caminhada que faz, a moça que buzina toda vez que passa – religiosamente.

Nem mesmo enquanto conta sua trajetória de vida deixa de prestar atenção ao redor. Sua função, afinal, é fiscal de patrimônio.

– Olha aqui quantos carros! Eu preciso ficar atento ao que acontece.

Vai bem além das delimitações do trabalho, entretanto. José Carlos Siqueira é fiscal das boas relações, da gentileza, das pequenas grandes boas práticas de convivência. Resgata a saudação básica, que parece tão esquecida por tanta gente.

Quantos esbarrões sem um único “bom dia”. Para ele, não tem economia. Estima que passam pela unidade umas 400 pessoas ao dia. Faz questão de dizer a todas elas:

– Bom diaaaaaa!

Ninguém passa imune? Até passa. Tem um ou outro grosseiro, que não se deixa contagiar nem pela alegria de José. Ele finge que não percebe. Para o próximo “bom dia” reforça ainda mais o sorriso e a sonoridade.

– Eu faço a minha parte! A pessoa vai sentir. Eu gosto de chegar em casa e saber que tratei todo mundo bem!

São Francisco Avenida Presidente Vargas

– Será que vai chover hoje?

Os assuntos são diversos. José Carlos mostra onde fica a autorização das guias, mas também dá conselho quando alguém pede. Ensina a oração de São Bento para quem dá espaço, fala sobre o tempo e a vida.

– Tem pessoas que perguntam se eu sou psicólogo, auto-ajuda. É que só o “bom dia” que você dá já levanta o dia de alguém!

De onde vem tanta alegria? É o que a gente fica a perguntar!

– Vem de Deus e de mim mesmo! O mesmo que eu sou aqui, sou lá fora. Você tem que ser a mesma pessoa!

A trajetória não foi feita só de “bom dias” alegres. Ele nasceu em Santos e conta que nunca conheceu seu pai.

– Não tenho nem o registro no nascimento.

A mãe era empregada doméstica e, além de José Carlos, teve outros dois filhos.

Com as dificuldades da casa, José foi viver em um educandário quando tinha por volta dos quatro anos. Saiu cerca de cinco anos depois.

– Mas eu não reclamo.  A educação que tive lá…

A família foi viver em São Paulo, onde ele passou a trabalhar como office boy por volta dos 13 anos, na empresa de bonecas do seu padrinho. Fazia um pouco de tudo: ajudava na confecção, nas entregas, pagava contas.

Ficou por cerca de sete anos e, depois, trabalhou em uma porção de lugares. Foi datilógrafo em uma transportadora, auxiliar de escritório, trabalhou em agência de turismo, entrou no ramo de livros.

– Já passei até fome! Em São Paulo, eu almoçava longe do pessoal porque eu só tinha pão e banana. Hoje, quem me vê não acredita!

Casou, teve dois filhos que moram em São Paulo e hoje é divorciado.

Conta que o interesse pela área da saúde veio quando cuidou do pai de um chefe, por cerca de dois anos. Pouco depois, em 1994, veio para Ribeirão Preto, trabalhar em uma distribuidora de livros. Trabalhou também com material médico, até entrar para uma empresa terceirizada que presta serviços para o São Francisco, há cerca de 20 anos.

Antes de chegar até a unidade da Presidente Vargas, cerca de três anos e meio atrás, passou por hospitais e centros médicos, sempre como atendente, recepcionando os pacientes, orientando, distribuindo “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”.

– Nos lugares onde eu passei o pessoal sente minha falta!

A cada quando, gosta de passar por São Paulo, rever familiares.

– Eu gosto de voltar lá para o pessoal ver que eu não virei o que eles falaram, que eu não seria nada. Hoje em dia, para mim, é só agradecer e viver mais!

São Francisco Avenida Presidente Vargas

José Carlos chega na unidade por volta das 5h40. Diz – peito estufado – que é o primeiro a chegar.

– Eu que tenho as chaves! Eu que abro tudo aqui!

Férias?

– Ih, quando eu tiro o pessoal pede para eu voltar logo!

Não tem modéstia! Se sente tão querido quanto é.

Diz que faz questão de acompanhar todos os serviços que são realizados no prédio.

– Eu que cuido do patrimônio, né? Vai que não fazem direito!

Tem um banquinho a sua disposição, mas não usa:

– Eu não gosto de sentar, filha! Não tenho dor! Gosto de ver o que está acontecendo!

Chega uma moça com um bebê, ele corre ajudar. Chega outra com a mãe, idosa, e lá está ele. O agradecimento vem, em forma de sorrisos e palavras. Se não vem, ele continua.

– Ih, tem gente que não dá “bom dia”. Só celular. Não quer saber a informação que você quer passar. Mas você tem que fazer a sua parte bem-feita. Eu vou te falar uma frase: ‘Deus não agradou todo mundo, não sou eu que vou agradar!’.

A maioria – ainda bem! – sabe retribuir a gentileza que recebe. São dezenas de abraços, buzinadas, sorrisos. “Não tem uma recepção melhor nessa cidade”, diz uma moça antes de ir embora. “Ele é sempre assim, desse jeito alegre”, conta um senhor. “Esse daí anima qualquer pessoa”, o outro complementa.

A cada frase, o peito de Zé Carlos vai inflando de alegria.

– A palavra-chave é humildade. Humildade é tudo.

Quando não está no trabalho, o passatempo preferido é dançar. Vai aos bailes e garante que arrasa no gingado. Conta que três anos atrás realizou o grande sonho. Comprou a casa própria.

– Eu sou o cara mais feliz do mundo! Graças a Deus!

Até pensa em aposentadoria. Parcial, será?

– Eu quero continuar trabalhando aqui! Se ficar em casa a gente padece!

O segredo para tanta disposição?

– Sabe o que é? É gostar do que faz! É assim que tem que ser feliz!

Vou embora sob uma chuva de beijos enviados com as mãos, uma dezena de votos para que meu dia seja abençoado e um pedido para que eu volte. Já estou a alguns metros, e seu José Carlos continua sorrindo e acenando. Será um “bom dia, com alegria”.

Alguém duvida?

 

Esta história foi produzida com o apoio do Proac, programa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo. 

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

 

Mostrando 11 comentários
  • Jéssica
    Responder

    sou funcionaria aonde José trabalha… não tem igual a alegria que ele transmite somente com um bom dia. Eu amo!

  • Renata
    Responder

    Um grande amigo que o São Francisco me deu, admiro muito sua história de vida e a maneira feliz de vive.

  • Dina Dantas
    Responder

    EU PASSEI TRÊS MESES NESSE HOSPITAL E CADA DIA O BOM DIA DELE NOS FAZ ACREDITAR QUE CADA DIA É. MELHOR E NOS ENCHE DE ENERGIAS POSITIVAS.

    • Luciana
      Responder

      Faz tempo que não o vejo trabalho na Portugal. Mas ele é muito querido e gentil com todos .Que Deus o ilumine sempre.

  • graziela
    Responder

    Seu Ze é sempre assim você nunca ve ele de maumor trabalho na emissao de guias ele sempre disposto a ajudar as pessoas ele merece a reportagem.
    Parabens seu Ze você merece.

  • gisele amelia
    Responder

    Pessoa maravimaravilhosa que tive o prazer de trabalhar,amigo para todas as horas.

  • paulo maestrello bartholomeu
    Responder

    É a pura verdade.
    Sobre o JOSÉ CARLOS
    UMA PESSOA FANTÁSTICA

  • Mayra
    Responder

    Ah seu “Zé” sempre atencioso com tds. ?

    • Mayra
      Responder

      ????

    • Mayra
      Responder

      No lugar do ponto de interrogação, era um símbolo de coração, mas não foi rs. ?

  • Marcelo Maranghetti
    Responder

    Eu e minha esposa Laura conhecemos o Senhor José no hospital Sinhá Junqueira a minha filha Pré Matura passou ok mês na UTI ,por ter nascido de 6 meses.Chegavamos lá todo dia muito triste porque não sabia se ela ia sair dessa UTI com vida e o Sr. José Carlos todo sorridente me recebia com bom dia fica tranquilo vai dar tudo certo,eu e minha esposa chorava muito ele ia nos abraçava e falava fica calmo ,até que um dia ele passou a me chamar de irmão todo mundo ficou olhando ele falou o que só por causa da cor ele é meu irmão ,eu nunca fiquei tão feliz por aquele momento ,quando ficamos sabendo que ele tinha saído do Sinhá ficamos muito triste mais logo eu vi na umidade do São Francisco da Presidente Vargas ,ele não é só um simples Porteiro ele é o Sr. José Carlos um homem que deve ter todo seu reconhecimento por tratar todos com igualdade ,fico feliz por ele ter sido homenageado , parabéns.

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