Estudantes levam ‘FelizIdade’ a pacientes do Hospital das Clínicas

A turma canta um rock nacional e as mãos, até então escondidas, saem debaixo do lençol para acompanhar o ritmo com palmas. O rosto se abre em sorrisos e a dor é trocada pelos versos do refrão: “O amor é o calor que aquece a alma”.

Em outro quarto, um senhor desliga o celular assim que os jovens entram: “Depois eu te ligo”. O show, feito com violão, algumas vozes e muita boa vontade, é imperdível.

– Ah, eles animam a gente!

O homem diz, depois de pedir a canção Jesus Cristo, de Roberto Carlos, e ser prontamente atendido.

Seu Nelson, 79 anos, tem muita dificuldade para falar e se alimenta por sonda. Enquanto a visita é feita de bate-papo, ele deixa a conversa para a esposa, Odila, que fala sobre o dia a dia no hospital e vai soltando um pouco os pesos que leva.

Quando o pessoal da música entra pela porta, tudo muda. Nelson pede Milionário e José Rico e descobre forças para cantar “Duas camisas”. “Se eu tiver, duas camisas/ E alguém chegar com frio/ Uma eu darei”. Os olhos enchem de água.

– Eu adoro, viu? Música eu gosto de todas.

Se esforça para demonstrar o quanto a visita daquela turma de jaleco, rosto pintado e adereços coloridos é importante.

Grupo Felizidade USP Ribeirão Preto

Toda segunda e quarta-feira estudantes da USP de Ribeirão Preto paralisam a correria do cotidiano por duas horas para levar alegria a pacientes do Hospital das Clínicas.

O nome do projeto, que comemorou 15 anos neste novembro, se explica quase sozinho: FelizIdade. Levar felicidade a pessoas da terceira idade foi o primeiro objetivo dos estudantes de Medicina, que criaram o grupo.

O professor Edson Garcia Soares, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, conta que foi procurado por um aluno, com a vontade de criar o projeto e abraçou a ideia. Nove estudantes de Medicina participaram dessa primeira turma.

Com o tempo, o grupo foi ficando mais diverso. Hoje, alunos de todos os cursos da USP Ribeirão Preto podem integrá-lo e o público é mais amplo. Além da geriatria, pacientes internados na unidade metabólica e na oncologia ganham um respiro da dureza hospitalar, com a animação que a turma compartilha.

São cerca de 70 integrantes, que se revezam entre as visitas. Um grupo gestor, formado por participantes com mais tempo de projeto, organiza as ações e o professor Edson segue como orientador do projeto. Ele explica:

– Esse contato ‘alto astral’ com os pacientes, além de tornar mais agradável o período de internação do paciente, possibilita que o estudante de Medicina adquira a capacidade de humanizar o atendimento médico antes de chegar ao seu momento profissional.

 

Antes das 18h, os estudantes já começam a se aglomerar na recepção do Hospital das Clínicas. Um ajuda o outro a deixar o visual mais alegre. O rosto ganha corações, sóis, cores. Chapéus coloridos na cabeça, colares floridos no pescoço e o violão – astro da visita.

A turma se divide em dois grupos: o da música e o do bate-papo. A ideia é conversar com o paciente e seu acompanhante por, ao menos, meia hora. Uma das integrantes tem a função de perguntar, previamente, se a pessoa quer receber a visita.

Enquanto a conversa flui, o grupo da música passa de quarto em quarto, tocando o que os pacientes pedem para ouvir.

O repertório é diverso: sertanejo, moda de viola, samba, rock, pop. Rodrigo Genari, 21 anos, estudante de Medicina, é quem puxa a maioria das canções na voz e no violão. Usa o celular para olhar os acordes e tirar os pedidos na hora.

O importante é que todo mundo seja atendido.

– Muitas vezes, uma música fala muito para os pacientes. Pode não ficar bonita aos nossos olhos, com o improviso, mas faz um bem danado para eles!

Quando menos se espera, o som contagiou todo o ambiente. A equipe médica não fica de fora, com uma palma aqui e outra ali. Uma enfermeira canta o refrão. E a dor vai se diluindo entre as batidas do violão.

Grupo Felizidade USP Ribeirão Preto

Por que fazer o bem? Os participantes do grupo usam palavras diferentes para a mesma resposta.

– A gente vem para cá querendo fazer o bem, mas recebe mais do que dá.

Vanessa Cabral, 20 anos, é quem diz. Ela participa do grupo há dois anos, desde que deixou Brasília para estudar Medicina em Ribeirão. Conta que buscou o grupo para melhorar sua comunicação com os pacientes e relembra a filha de um homem internado que buscou seu contanto para lhe avisar que o paciente já estava melhorando.

– A gente não tem noção do impacto que esse trabalho causa na vida das pessoas.

 

Maria Carolina Bexiga de Oliveira Couto há três anos é integrante do grupo, pelo qual se encantou à primeira vista, logo na primeira semana de aula.

– Fazer o bem? Preenche a alma. Até mesmo a escolha da minha profissão foi feita baseada em querer ajudar. Minha vida tem sentido assim.

Ela é conhecida como Melody, porque antes de entrar na faculdade cantava em bares e festas. Hoje, estudante de Nutrição, leva a sua voz para os corredores do hospital.

As histórias que guarda desse tempo de trabalho voluntário não cabem em qualquer potinho. Viu um paciente voltar do coma enquanto cantavam para ele.

– A gente soube, depois, que estava cantando uma música que o paciente gostava. O trabalho no grupo reabastece minha semana. Faz parte de mim.

Osny, 63 anos, estava acompanhando a mãe de 86 anos, internada havia três dias, no momento da visita. Ela mesma estava adormecida quando os jovens estraram. Foi ele, então, quem conversou com um dos integrantes do grupo, contou da rotina, da família e pediu “Borbulhas de Amor” quando a música chegou.

– É muito bonito eles virem aqui, doar o tempo deles para a gente. Emociona.

Cantou e, por alguns minutos, esqueceu da dor que o leva até ali.

A felicidade – ainda bem – é contagiante!

 

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Todos os 3 comentários
  • Silvio José Jacovelli
    Responder

    Que maravilhoso, belíssima reportagem, nobrissima atitude. Parabéns jovens, vocês fazem a diferença.?

  • Adriana Biscuola
    Responder

    É contagiante!!! Parabéns a todos os voluntários e a equipe da reportagem!!!

  • Gerinalda Yamada
    Responder

    Sou grata a Deus por meu filho fazer parte desse grupo de jovens que estão de parabéns !!!

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