Movida por promessa, há 18 anos Fátima arrecada, reforma e distribui brinquedos para crianças

– Eu fico imaginando a casa do Papai Noel… na minha cabeça, eu acho que existe, sim. Tem que existir um lugar assim!

Que forma tem a casa do Papai Noel? Brinquedos para todo lado, equipe dividida em arrumar e empacotar presentes, alegria em cada cômodo.

Será, então, em forma de Noel a casa de Fátima?

Há 18 anos, quando os meses que encerram o ano se aproximam, a casa dela, em Miguelópolis, região de Ribeirão Preto, toma forma de brinquedo, embrulho, Natal. É gente que entra e sai entregando uma doação, ajudando a empacotar um presente.

No dia 24 de dezembro, Fátima veste a roupa vermelha, com barba e tudo, e sai pela cidade de Miguelópolis distribuindo o que arrecadou. Se é criança, ganha brinquedo. Nada é questionado ou avaliado. Criança é criança: não há distinção.

Quando o Natal acaba, ela guarda a vestimenta, mas o trabalho continua. De janeiro a dezembro, arrecada brinquedos novos e usados. Aos usados, dá uma nova roupagem: reforma, faz roupas, ajeita o cabelo das bonecas, conserta os carrinhos.

Quando o ano vai chegando ao fim, a maratona para as entregas recomeça, como um ciclo do bem.

Que forma tem a casa de Fátima Noel? Sua fábrica de brinquedos não é como nos filmes, com duendes e pompa. É melhor do que essas, porque é real. Feita de amor e solidariedade.

– Nesse mundo, a gente tem que ajudar. A gente só leva para cima o bem que faz, as amizades. Não leva dinheiro, não.

E um pouco de magia, porque não pode faltar. Fátima conta que conversa com os brinquedos, vai fazendo deles sua família Noel.

– Eu vou avisando: ‘Vou te embrulhar e você vai levar alegria para uma criança’. Parece que vivo para os brinquedos. É bom demais!

Ela não entrava na lista do Papai Noel quando criança. A família, muito humilde, não tinha recursos para presentes. Bem por isso, sente bem fundo, no coração, a importância do ajudar.

– Minha emoção é lembrar que eu não tinha nada e agora posso dar, para que as crianças tenham.

Há 18 anos, Fátima arrecada, reforma e distribui brinquedos para crianças de Miguelópolis

Arrecadar brinquedos para crianças surgiu como promessa. Fátima da Silva Ferreira, 56 anos, trabalhava como diarista na casa de uma família havia alguns anos. Quando o filho do casal nasceu, com um problema de saúde grave, a tristeza foi geral.

O bebê ficou 28 dias na UTI e, cada vez que a mãe voltava do hospital, era uma choradeira. Fátima, então, decidiu se apegar à fé.

– Eu disse para Deus que se ele não levasse o bebê, eu iria me vestir de Papai Noel todo ano e entregar brinquedos na rua.

Pôde começar naquele mesmo ano, 2000, com a notícia da alta. Até hoje, tem amizade com a família, que hoje vive em São Paulo, pelos cuidados de saúde que o jovem ainda precisa.

Eles participam todo ano das arrecadações de Fátima. E não são os únicos. Ela diz que chegam brinquedos de cidades da região toda e, muita gente, também participa desde o início, 18 anos atrás.

 

Ao longo do ano, ela vai reformando os brinquedos usados que ganha, deixando tudo preparado. Em dezembro, a força-tarefa para os embrulhos ganha reforço de amigos e familiares, já que é a época em que a maior parte das doações chega.

A entrega é na véspera de Natal, dia 24. No ano passado, arrecadaram 900 brinquedos e foi preciso um pequeno caminhão para as entregas. Fátima foi em cima, acenando e distribuindo, além dos pacotes, muito carinho para a criançada, que já fica na rua aguardando o “Papai Noel” passar.

– Eles esperam, querem tirar foto, a gente chora de emoção. Alguns falam para os pais: ‘Viu, Papai Noel existe, sim!’. É a coisa mais boa!

Ela acredita que a magia traz felicidade para miúdos e grandões.

– As pessoas tiram as emoções das crianças. Não pode tirar a infância delas assim! Elas choram e eu choro também.

Quando chega em casa, o cansaço é grande, mas a energia que se renova também.

– Chego cansada, mas muito feliz!

 

Fátima conta que cresceu na roça com os pais e sete irmãos, com quem dividia roupas e cadernos de escola, já que o dinheiro era pouco demais para que cada um tivesse o seu.

Começou a trabalhar aos 10 anos, como babá e doméstica, e deixou os estudos. A mãe preferiu que a filha trabalhasse fora da roça, para que tivesse uma rotina um pouco menos dolorosa. Aos 16 anos, Fátima se casou e aos 17 já era mãe. Teve dois filhos e ficou casada por 25 anos. Diz que se separou porque o marido não a respeitava.

– Se você não procurar ser feliz, ninguém procura por você.

Trabalhou como doméstica até os 45 anos, quando conquistou uma vaga no Cras de Miguelópolis (Centro de Referência de Assistência Social), trabalhando como monitora de convivência com crianças e idosos.

– Foi uma vida de muita luta. Por isso, ajudo todo mundo que eu posso.

Seus filhos, ela ressalta, aprenderam de pequenos a importância de se fazer o bem.

– A gente tem que ser humilde e ajudar quem precisa.

Além de arrecadar os brinquedos, ela faz visitas como “Papai Noel” a asilos, creches, instituições que a procuram. Se sente feliz, mas acha, porém, que faz pouco.

– Eu gostaria mesmo de fazer mais. Ainda ficam crianças sem brinquedos.

Até quando vai continuar?

– Até o resto da minha vida, se Deus quiser!

Na simplicidade de Fátima, moram os sentimentos mais grandiosos. Que forma tem a casa no Papai Noel? A mesma forma do coração de Fátima!

 

Fotos: arquivo pessoal

 

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