No assentamento Mário Lago, Nivalda luta pela terra e pelo espaço da mulher  

 

Texto e fotos: Daniela Penha

Ilustração: Cordeiro de Sá 

 

É dia de montar as cestas. No barracão, mulheres e adolescentes distribuem as tarefas. Estão em família. Vão pesando e organizando abobrinhas, alface, tomatinhos, hortelã, espinafre. Mesas mais verdes e cooperativa em ação.

– Alimentação é aquilo que você come para viver, não para adoecer.

A história de Nivalda com a terra vem de gerações, herança deixada pela família. Seu pai trabalhou a vida toda plantando cacau, frutas, legumes. Ela, então, não tem dúvidas:

– A gente se alimentava da produção do meu pai, vivia livre no campo. Por isso, nenhum dos sete irmãos tem problemas de saúde. Hoje eu sei que a gente é aquilo que a gente come.

Em sua trajetória tem muita história triste, mas vem sempre temperada com altas pitadas de garra.

Nivalda Alves de Jesus, 48 anos, nasceu e cresceu na Bahia, começou a ajudar os pais aos sete anos e a trabalhar como doméstica aos 11. Se casou aos 15, teve sua primeira filha aos 18 e outros sete em escadinha, todos de parto normal.

Enfrentou a violência doméstica e conseguiu livrar-se dela com muito apoio da família e dos amigos que fez ao longo da trajetória.

Trabalhou muito – e segue trabalhando. Foi morar no assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto, quando o movimento estava começando, 16 anos atrás. Vendeu a casa própria que havia conquistado para lutar pela terra. Ali, as mulheres têm o protagonismo. Ela é coordenadora da Cooperativa Mãos da Terra (Comater), formada por mulheres, participa da coordenação do assentamento e da direção regional do MST (Movimento Sem Terra).

– Há muito machismo, mas eu enfrento o que tenho que enfrentar. É preciso coletividade e formação, porque sozinhas não vamos a lugar nenhum e sem o conhecimento não conseguimos nada.

Assentamento Mário Lago Ribeirão Preto

Localizado na Fazenda da Barra, o assentamento foi regularizado em 2007, por meio da reforma agrária. São cerca de 270 famílias assentadas vivendo, em grande parte, da agroecologia. São quatro cooperativas em atividade. Com Mãos da Terra, formada por 60 integrantes, vegetais orgânicos, produzidos sem agrotóxicos, chegam para Ribeirão e região por meio de parcerias, projetos, feiras. Hoje estão, inclusive, na merenda escolar, por meio de convênios firmados com prefeituras como a de Ribeirão Preto.

– É muito bom saber que as crianças vão comer frutas, verduras e legumes naturais. Poderão crescer com uma alimentação diferenciada, consumindo vegetais, coisas que são realmente alimento.

A cooperativa também é parceira do Mesa Brasil Sesc Ribeirão, com a participação nas feiras agroecológicas e em ações do programa.

Nivalda relembra a oficina em que cozinheiras de 36 entidades que recebem doações de alimentos do Mesa Brasil puderam conhecer como são cultivados os orgânicos e, depois, aprenderam diversas receitas com a mandioca. A de pizza se tornou uma das favoritas.

– Eu nunca tinha pensado que dava para fazer pizza de mandioca! Tem que ver como fica gostoso!

Para Nivalda, a terra é sempre protagonista. E deve ser tratada como tal.

– É da onde a gente veio, para onde a gente vai, o que nos mantém.

Assentamento Mário Lago Ribeirão Preto

Lá em Santa Cruz Cabrália, Bahia, Nivalda cresceu rodeada de muito verde. Seus pais trabalharam por muito tempo para fazendeiros, plantando e colhendo vegetais.

Os sete filhos criaram ali os vínculos com a terra.

Aos 11 anos, ela começou a trabalhar como doméstica – família grande, todos tinham que ajudar. Foi morar na casa da “patroa”, como diz, e conseguiu “estudar um pouco”, nos intervalos do trabalho na casa. Na adolescência, seu pai se mudou para a cidade e entrou para o MST (Movimento Sem Terra).

– Ele foi lutar para ser assentado, ter a terra própria.

Ela, então, passou a trabalhar como balconista, atendente em comércios. Se casou aos 15 anos, com um homem de 21. Parou os estudos.

– Era paixão sem juízo… fui morar mais ele.

Se mudaram para Ribeirão em 1994, já com três filhos. Ele veio para trabalhar como pedreiro e ela, que tinha 21 anos, foi se virando como pôde. Trabalhou como diarista, cozinheira.

– Com sete anos eu trabalhava. Toda vida fui mulher independente.

O marido, porém, não deixava que ela estudasse, fazia de tudo para podar suas asas. Foram 29 anos de relacionamento.

– Sofri violência física, psicológica, de todo tipo. Mas consegui me libertar daquilo.

Foi preciso apoio dos filhos, dos amigos, das mulheres do assentamento para se divorciar quatro anos atrás. Diz que os aprendizados que conquistou no movimento para a terra foram os aliados.

– A formação te dá empoderamento, força e apoio.

Assentamento Mário Lago Ribeirão Preto

A família foi morar no assentamento em 2005.

Uma vizinha que conheceu na igreja estava vendendo farinha, polvilho, verduras e Nivalda quis saber de onde vinham. Se interessou em vender também, mas a vizinha logo respondeu: ‘Vender não, mas tem vaga para quem quiser participar da luta’.

– Eu vendi a minha casa e vim!

No começo, ela ia para o assentamento, mas voltava para sua casa. Depois de alguns dias, não conseguiu mais.

– Eu tomava banho, dormia na cama, mas ficava pensando neles, que estavam na luta e não tinham nada disso.

Começaram do zero no assentamento. E ela nunca mais foi embora.

– O lote é no nome da mulher. Nós conseguimos esse direito. E eu fiz parte disso.

Assentamento Mário Lago Ribeirão Preto

Nivalda acorda entre 5h e 6h para preparar as cestas ou gerenciar os projetos. As atividades são diárias – para a alegria de todos.

– A gente vive da terra!

Quando chegou ao assentamento, conseguiu terminar o Ensino Médio. Agora, pensa em continuar estudando.

– A liberdade te dá tudo! Antes da separação eu não podia…

Pensa em fazer faculdade. Algo voltado para a terra, como era de se imaginar.

– É isso que eu sei que é vida, pele da minha pele, está no meu sangue.

Quer que, um dia, as pessoas compreendam a importância do meio ambiente e dos trabalhadores e trabalhadoras da terra.

– A gente precisa da terra, pelo menos, quatro vezes ao dia. Ou seja, precisa de um trabalhador rural quatro vezes ao dia. Quando tem apoio, tem mais força para quem produz, para quem ajuda a produzir e quem recebe.

É preciso entender que nós somos parte de tudo o que é vida, ela diz.

– Se não respeitamos o meio ambiente, estamos desrespeitando a nós mesmos, aos nossos filhos porque tudo vem da terra.

No dia de montar a cesta que seria enviada para algumas comunidades por meio de parcerias, faltou um pouco de espinafre e jiló. Nivalda pegou o carro e foi na terra dos vizinhos, cooperados também. Colheu os vegetais, sem dificuldade.

– Tem que colocar a mão na massa, na terra.

Depois, voltou toda contente com a cesta mais recheada.

– Eu enfrentei Ribeirão Preto para estar à frente da cooperativa, criar meus filhos, entregar merenda nas escolas: papeis que eles diziam ser dos homens. Eu me sinto realizada.

A força de Nivalda tem raízes bem aterradas, cultivadas com muita coragem e sem agrotóxicos. Ela, então, vai crescendo igual árvore frondosa, em direção às nuvens.

 

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Acesse o site VLibras, que faz esse serviço sem custos:
https://vlibras.gov.br/

 

 

Mostrando 2 comentários
  • Reginaldo
    Responder

    Meus parabéns a essa mulher guerreira virtuosa nivalda vc tem meu respeito e minha admiração.

  • Kelli Mafort
    Responder

    Nivalda muito nos orgulha. Não deixa nenhuma mulher pra traz: vai pegando na mão de uma, empurrando a outra e com isso vai crescendo uma verdadeira organização de base, enraizada na terra libertada, como bem disse Daniela Penha que escreveu de forma emocionante essa história de vidas.

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