Para fazer o bem, Vinicius não mede distâncias: esteve na África e viaja todo sábado para contar histórias no HC de Ribeirão   

Sábado é dia de churrasco, encontro com os amigos, filmão na Netflix? Para Vinicius, só se for depois do trabalho voluntário.

Todos os sábados, ele viaja 50 quilômetros da cidade de Batatais, onde mora, ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto para levar alegria em forma de histórias a crianças internadas.

Há um ano, desde que concluiu a formação no Centro de Voluntariado de Ribeirão Preto, essa é sua rotina nas tardes de folga.

A distância que percorre semanalmente, entretanto, fica pequena perto da viagem que fez com o objetivo de compartilhar solidariedade. Em outubro de 2018, passou por um intercâmbio social na Zâmbia, África, atuando como auxiliar de professor em uma comunidade em situação de vulnerabilidade.

Agora, já pensa no próximo destino. Ajudar é o que dá sentido à vida, ele diz, nos fazendo entender que não estamos sozinhos nessa jornada.

– O benefício é o mesmo. Você vai para ajudar, mas também é ajudado, recebendo amor. Não dá nem para mensurar quem é que mais recebe. Você dá e ganha amor. E fim.

Vinicius intercâmbio ZâmbiaVinicius intercâmbio Zâmbia

Vinicius José da Silva, 28 anos, conta que desde pequeno carrega a vontade de ajudar. A vida exigiu maturidade cedo. Começou a trabalhar aos 13 anos, na escola de uma tia. Diz que o pai tinha problemas com o uso do álcool e a mãe trabalhava o dia todo como enfermeira, em longos turnos.

– Foi uma infância difícil, mas as dificuldades me fizeram ser quem eu sou hoje.

O trabalho voluntário, assim, foi ficando nos bastidores, esperando o tempo certo para acontecer. Quando tinha cerca de 16 anos, passou a trabalhar como recepcionista em um hospital da cidade de Batatais e, quando terminou o Ensino Médio, conquistou uma bolsa para a faculdade. Conta que conseguiu uma vaga em Relações Públicas, em uma faculdade de Campinas, por um programa do Governo Federal. Mas não quis deixar a mãe e o irmão sozinhos.

– Abri mão de um sonho para ficar com a minha família.

Ingressou, então, em Administração de Empresas, na Unip de Ribeirão Preto, também com bolsa de estudos. Ainda estudando, conseguiu um estágio em banco e, depois de formado, conquistou uma vaga de emprego em Batatais.

Foi aí, com a rotina mais estabilizada, que decidiu resgatar aquela vontade antiga de desenvolver um trabalho voluntário, com regularidade. Fez uma busca na internet e conheceu o Centro de Voluntariado de Ribeirão Preto, que oferece formações e programas diversos: http://voluntariadorp.org.br/web/.

Para se capacitar como contador de histórias em hospitais, passou quatro meses viajando duas vezes por semana, uma semana sim e outra não, para o curso, oferecido gratuitamente pela instituição. Saía do trabalho no final da tarde, pegava o ônibus de Batatais para Ribeirão, estudava até às 21h e fazia o caminho de volta.

– Sabe algo que preenche? Não fica cansativo!

Comemorou a formatura como uma grande conquista.

– Eles entregam o jaleco branco que nós usamos para contar as histórias no hospital. Tem uma cerimônia.  Nos preparam para sermos futuros voluntários. E eu não via a hora de começar!

Começou e não parou mais – com a responsabilidade que o trabalho exige.

– O hospital não é um ambiente agradável, principalmente quando uma criança é internada. Nós procuramos levar um momento mágico para elas.

Os benefícios, ele garante, não cabem em uma só lista.

– Além de levar alegria, há o estímulo à leitura. Uns querem que eu leia a história, outros querem ler e pedem a minha ajuda. É um momento único.

Conta o caso da mãe que não sabia que seu filho gostava de ler. Quando viu a criança encantada pela história do livro de Vinicius, percebeu a importância da leitura.

– Você se sente abençoado. Parece um dom, sabe?

Vinicius intercâmbio Zâmbia

Tanto que Vinicius sentiu vontade de ir além. Levar o trabalho voluntário para outo continente. Conta que já havia ido à África, em 2016, para um intercâmbio de estudos. Conheceu por lá pessoas que viajavam com objetivos sociais, e se encantou.

Começou a pesquisar opções.

– Eu escolhi a África porque há ali uma cultura muito forte. Gosto de conhecer o diferente. Além disso, há uma precariedade grande nas comunidades. Essa ajuda tem impacto muito forte.

Vinicius intercâmbio Zâmbia

Na Zâmbia, sua função era auxiliar o professor de uma sala com 63 crianças. Já na chegada, percebeu o quanto era bem-vindo. Foi recebido com festa!

Levou materiais escolares como folha sulfite e lápis coloridos daqui, sem imaginar que por lá a simplicidade é ouro.

– É difícil para eles conseguirem copiar o que está na lousa porque não tem material. Um espera o outro acabar para usar o mesmo lápis.

Na sala de aula pequena, com telhado de zinco e poucas carteiras improvisadas com pedaços de madeira, as crianças se apertavam para que todo mundo pudesse aprender.

– Para ir ao banheiro, elas tinham que pular as carteiras ou passar por baixo, de tão apertado.

Vinicius conta que o alojamento onde ficou também carecia de estrutura. Não havia chuveiro, a cama era improvisada, o calor era sufocante, cozinhar era difícil.

Quando pergunto se valeu a pena, porém, responde mais que depressa:

– Não me arrependo! O amor que recebi das crianças foi capaz de superar todas as barreiras.

Mostra as muitas fotos e vídeos que fez. O sorriso de ponta a ponta da criançada, escondendo toda a dificuldade de uma rotina escassa. E quando é dia de música, então? Elas comemoram, como se um grande presente tivesse sido ofertado.

– Elas valorizam muito um abraço, pegar na mão. Gostam de sentir.

No dia de se despedir, levou tinta e pediu que as crianças colocassem a marca das suas mãos em uma grande folha, colorindo todo o espaço. Do lado de fora da sala, se formou um alvoroço de pequenos das outras turmas, encantados com as cores, querendo participar também.

Vinicius partiu, já pensando em voltar.

–  O que mais marcou foi o amor que elas conseguiram transmitir. Eu fui para ensinar, mas também aprendi muito. Da próxima, já penso em ficar mais tempo.

Vinicius intercâmbio Zâmbia

Já está programando as futuras férias, pesquisando os lugares onde sua ajuda se faz mais necessária, onde a troca de cultura é intensa.

– Eu não sei viajar sem um propósito. O trabalho voluntário expandiu meus horizontes. Trouxe alegria. A vida tem mais emoção.

Enquanto os meses de folga não chegam, ajuda aqui, em sua própria região, ocupando os sábados  com solidariedade, sem se preocupar com as pequenas e grandes distâncias.

– Não há barreiras para quem quer fazer um trabalho voluntário. Se você quer, consegue. Você pode ir onde quiser. Só precisa ter o desejo. Isso vem de dentro.

Fazer o bem é contagiante, ele bem sabe.

 

Fotos: arquivo pessoal do Vinicius

 

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Vinicius intercâmbio Zâmbia

Comentários
  • Herbert Oliveira
    Responder

    Precisamos de mais pessoas como o Vinícius que não mede esforços para ajudar ao próximo. Sem dúvida é um exemplo de ser humano! Parabéns pelo trabalho!!!

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