Pavão frequenta aulas de Física há dois anos e vira mascote da turma

A primeira aula de Osvaldo não foi lá muito tranquila. Ele chegou todo pavão, abrindo as asas e dando um grito bem estridente. Ninguém ficou na carteira, de tanto espanto. A professora também levou um susto.

Os começos nem sempre são fáceis, já se sabe. Renata Morri Perroni não sabia é que daquele primeiro encontro tumultuado iria nascer uma amizade inusitada.

Desde aquela manhã, cerca de dois anos atrás, o pavão é aluno assíduo de suas aulas de Física no Centro Paula Souza, em Ribeirão Preto. Até entra em outras salas, mas em nenhuma permanece tanto como nessa.

Ganhou até nome, para responder à chamada e aos chamados dos alunos. Foi um deles quem batizou: “Vamos chamar de Osvaldo!”, pensando que o nome – com ar mais antigo e formal – cairia bem para o bicho imponente e um tanto desengonçado.

Ele chega cedinho, por volta das 7h30, entra pela porta da sala, que fica aberta à sua espera, e escolhe como quer ficar. Às vezes, come o milho que a professora traz em um potinho e vai embora. Em outras, fica quietinho assistindo à aula.

Tem até foto do mascote apresentando trabalho junto com os alunos. Dá para acreditar? Eu só acreditei porque vi – e gravei – com meus olhos.

Cheguei à escola por volta das 7h40. Cinco minutos depois, Osvaldo apareceu em cima do muro. “O Osvaldo chegou!”, os alunos eufóricos avisavam.

Pavão frequenta aulas no Centro Paula Souza

Como se soubesse que estava sendo esperado, saltou para o chão e começou a se mostrar . Comeu milho, entrou na sala, desfilou pelo corredor, posou para as fotos com Renata e, só depois, subiu de volta no muro e foi embora.

– Ele é parte das aulas, da nossa rotina.

Tanto que, se ele não aparece, a professora fica inquieta. Foi assim na semana passada. Osvaldo ficou cinco dias sem comparecer – um recorde! Renata já não se aguentava de saudade e preocupação. Pegou o telefone e ligou no bosque: “Cadê o Osvaldo?”.

O Centro Paula Souza faz divisa com o Parque Municipal Morro do São Bento, que abriga o Zoológico da cidade, o que explica a visita dos pavões (e de outros animais que aparecem por ali). O inusitado, porém, é que o bicho seja assíduo nas aulas, parte da turma.

Do outro lado da linha, Vinício Biagi Pecci, biólogo responsável pelo Programa de Educação Ambiental do parque, ficou surpreso: “Mas quem é Osvaldo?”. E conheceu a história encantadora, como diz:

– Eu sabia que os pavões voam para o centro, mas não imaginei que um deles estivesse assistindo às aulas. De Física ainda!

Pronto! Osvaldo ganhou mais um apelido, agora entre os funcionários do bosque:

– É nosso pavão Einstein!

Vinício conta, entre muitas risadas!

Ele explicou para Renata que logo Osvaldo deveria voltar às aulas. É época de reprodução, os pavões trocam as asas e podem ficar mais reservados. Mas logo passa!

Não deu outra! Dia seguinte, lá estava ele, de volta a sua rotina escolar!

Pavão frequenta aulas no Centro Paula Souza

Renata é professora do Centro Paula Souza há cinco anos. Nasceu e cresceu em Barretos, se mudou para Ribeirão Preto acompanhando o marido, transferido do trabalho. Escolheu ser professora porque gosta do contato com os alunos e da rotina nada tediosa da sala de aula. Todo dia é um aprendizado diferente, todo ano novos alunos, com novos desafios.

Quando um pavão integra a turma, então, a mesmice fica bem longe da escola!

Osvaldo foi se tornando assíduo e a professora, então, passou a carregar uma lata cheia de milho. A hora do recreio é mais cedo para ele.

Ela conta que, todo ano, é uma nova adaptação. A sala que faz divisa com o bosque, onde ministra as aulas, é de alunos do primeiro ano do Ensino Médio, que chegam à escola sem conhecer o pavão. O primeiro encontro, assim, é de susto e alvoroço. Depois, a turma entende que Osvaldo chegou primeiro. E tem prioridade por ali.

– Ele se torna querido por todos. Os alunos sempre querem trazer o milho, também se preocupam se ele não aparece.

Na escola toda, então, se sabe da fama do bicho. Ele é inspiração para trabalhos e invenções. Eduardo Goulart, 17 anos, criou um jogo de videogame e desenhou o pavão voando, como um personagem. As cotias, que deixam o bosque para passear pela escola por buracos no muro, também estão no jogo.

– Eu queria criar algo diferente, que chamasse a atenção. Pensei nos bichos do bosque, que estão sempre por aqui com a gente!

Pavão frequenta aulas no Centro Paula Souza

Osvaldo também já ganhou desenho, feito por Thiago Henrique, 15 anos. A professora Renata está alimentando com milho o aluno pavão – seria predileto?

E não para por aí. O voo do bicho é tema das aulas de Física, assim como seus outros movimentos. Osvaldo é muito aprendizado!

Ele tem um problema nas patinhas e, então, é um tanto desengonçado. Manca um pouco para andar, tropeça às vezes, fica para trás na turma, como Renata diz.

– É nosso pavão com necessidades especiais!

Ninguém se importa com as dificuldades de Osvaldo. Pelo contrário: é mimado até. Ganha milho na mão e tem autorização para pintar e voar.

– Quando ele entra na sala e ninguém dá bola, abre a cauda e grita, para chamar a atenção. Outro dia, estava assistindo à aula, deu um grito, abriu o rabo e deu uma desfilada. Nós demos risada e entendemos que ele estava apresentando um trabalho!

Vem sempre acompanhado de outros amigos e amigas. Tem até um pavão fêmea, que os alunos apelidaram de Shirley e dizem ser namorada de Osvaldo. Ninguém entra e assiste a aula como ele, porém.

– Eu sou suspeita para falar… Tenho muito carinho por ele!

Pavão frequenta aulas no Centro Paula Souza

Para Vinício Pecci, a história de Osvaldo traz conscientização:

– Nós temos que refazer essa ponte de integração entre as pessoas e a natureza. Nosso bosque é um bioma no meio da cidade!

Além dos pavões – mais de 60 – e outros pássaros, cotias e bugios vivem soltos no ZOO Fábio Barreto, passeando por todo bosque – e até fora dele, algumas vezes.

Vinício explica que há uma parceria entre o ZOO e o Centro Paula Souza, justamente pela frequência com que os bichos decidem passear por lá.

Renata conta que as pacas, por exemplo, adoram comer as cajamangas. Não deixam uma só amadurecer, para a tristeza do vigia. Dois lagartos enormes moram no estacionamento, encantados pelo pé de amora. Vez que outra, os pavões botam seus ovos por ali e é preciso ligar com rapidez para que os funcionários do bosque façam o resgate a tempo de evitar um predador. Vinício comemora esse contato:

– Fizemos palestras, conversamos com os professores. Já se estabeleceu uma relação de muito respeito!

Pavão frequenta aulas no Centro Paula Souza

O veterinário do ZOO, César Henrique Branco, explica que os pavões vivem soltos principalmente para promoverem o controle de bichos como baratas e escorpiões no bosque, alimentação de primeira para o paladar dessas aves, que também se alimentam de ração, milho, frutas e verduras.

Quando filhotes, eles são levados para a quarenta e cuidados pela equipe do bosque, o que faz com que cresçam mansos. Até o veterinário se surpreendeu com a afetividade de Osvaldo, porém:

– Eu ouvi isso e fiquei pensando: será que é isso mesmo?

Se depender da professora e de seu aluno, essa história terá ainda muitos e muitos capítulos. Naquela sala de aula, onde há sempre um potinho de milho, Osvaldo é muito bem-vindo!

 

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