Sem a visão, Márcio se formou biólogo e fez doutorado na USP

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Para ouvi-la, é só clicar no play:

 

A cegueira para Márcio foi se instalando pouco a pouco. A cada nova perda de visão, novos desafios. Teve que aprender e reaprender muitas vezes em 50 anos de vida. Continua ainda hoje nesse processo que, ele espera, nunca acabe.

– Meu mundo não é tão diferente do seu. Você também tem que, todo dia, matar seu leão. Quando eu enxergava, tinha medo de altura. A superação era estar ali e me sentir bem. Isso era uma barreira instransponível. A deficiência dificulta, mas não é uma barreira instransponível.

Quando concluiu o doutorado em Psicofísica, na USP de Ribeirão Preto, em 2014, já havia perdido completamente a visão dos dois olhos. E somava no currículo a graduação em Biologia na Barão de Mauá, o mestrado em Psicofísica também na USP, décadas de trabalho como técnico do Laboratório de Citogenética da USP.

Começou aos 12 anos, por insistência do pai, que era funcionário lá e conseguiu que um professor aceitasse o menino como ajudante. Conta que foi mudando de cargo conforme aumentava a idade, até se formalizar como funcionário após os 18 anos.

– O que eu consegui na universidade, com muito esforço, foi fazer com que as pessoas percebam que, apesar da minha deficiência, eu tenho também uma eficiência.

Em 16 anos, terminou o Ensino Médio no supletivo, passou no vestibular, concluiu o curso, entrou e saiu do mestrado e do doutorado, retomando o tempo em que ficou sem estudar.

Nasceu com uma doença rara chamada retinose pigmentar. O olho direito só tem a percepção de claro e escuro. O esquerdo tinha 75% da visão, o que lhe possibilitou tirar a CNH e viver sem tantas barreiras até os 20 anos.

Na adolescência, deixou a escola e voltou algumas vezes pelas dificuldades de inclusão. Estava no Ensino Médio, aos 20 anos, quando teve uma das perdas de visão, com o deslocamento de retina. O olho esquerdo passou a ter apenas 15%. Ficou quase totalmente sem enxergar. Passou um ano buscando tratamentos, se readaptando. Quando tentou voltar à escola, não encontrou todas as portas abertas.

– A escola não acolhia. Naquela época, para o universo da deficiência, as coisas não existiam. Não houve aceitação do corpo docente e meu estado emocional estava debilitado.

Só voltou a estudar em 1997, aos 27 anos. O apoio de uma companheira foi essencial para que retomasse a confiança. Conta que teve que mentir para ser aceito no vestibular.

– Eles alegavam que não tinham formas de me inserir nas aulas e me impediram de fazer a prova. No ano seguinte eu menti. Disse que havia retomado a visão, mas precisaria de ajuda apenas para fazer o vestibular. Consegui passar e já sabia que, se eles tentassem me impedir, eu poderia recorrer.

Terminou a graduação escolhido como orador da turma na formatura.

– As pessoas se deparam com o desconhecido e não querem sair da zona de conforto. Querem que o outro desista, para que não tenham que criar uma situação nova. Depois, a faculdade me aceitou de braços abertos.

Entre um desafio e outro, vai transformando pensamentos, rompendo muros. Não pretende parar no doutorado. Já faz planos para o pós-doc e quer ser professor universitário.

– A maior dificuldade é social. A barreira que a sociedade te coloca. As pessoas dizem que sou exemplo de superação. Não vejo assim. A superação é algo pessoal. Eu supero, você supera.

Márcio Penha biólogo

Os desafios foram surgindo para Márcio à medida em que a retinose foi avançando.

– A cada nova situação, você busca um novo caminho, seus recursos mudam, a sua forma de enxergar o mundo muda.

Quando tinha 75% de visão do olho esquerdo, enfrentava a dificuldade de leitura – e só. Aos 18 anos, pôde retirar carta e, inclusive, insistiu em continuar dirigindo mesmo com o descolamento que deixou apenas 15% da visão.

A irmã também trabalhava na USP. Ela ia na garupa da moto, dizendo o caminho e ele guiava, quase no escuro. Um acidente – sem vítimas – alertou de que era necessário parar.

– Aí, você passa a depender, pedir carona. É uma dificuldade de mobilidade.

Também foi realocado dentro do laboratório de citogenética, onde desempenha funções desde os 13 anos. Começou no laboratório de evolução, aos 12.

Seu trabalho era cuidar das moscas, usadas para uma experiência. Pela pouca visão, não conseguiu impedir que moscas diferentes entrassem no espaço, causando um cruzamento genético.

– Eu fiz uma especiação aos 12 anos. Mas o professor me pediu para matar todas as moscas. Eu havia terminado com a pesquisa dele.

O pai não desistiu, porém. Logo, lhe arrumou vaga com outro professor. Passou a auxiliar como técnico nos estudos de cromossomos, para a análise de síndromes.

– A deficiência tem uma história. Até na genética. Os genes que não são bons passam a ser eliminados para que não se propaguem na população.

Precisou, então, provar para si mesmo e para o entorno – tão acostumado a ver a deficiência como falha – que há bem mais do que cromossomos alterados na constituição de um ser humano.

– Vygotsky diz que a deficiência não é um problema, mas passa a ser quando a sociedade enxerga dessa forma. Não tem essa de ficar deprimido. Só vai agravar uma situação instalada. Isso foi me fortalecendo. Eu tenho que provar que tenho capacidade. Até que consegui. Hoje não tenho mais que provar nada para ninguém.

A decisão de voltar a estudar não se deu de um dia para outro. Teve apoio da companheira com quem estava casado, da família, de si mesmo.

– Eu precisei encontrar um caminho.

Não passou de primeira na graduação, lutou para ser aceito. Já no mestrado, conta que ficou em terceiro lugar entre os 32 alunos que prestaram.

Enquanto estudava, continuava desempenhando suas funções no laboratório. Com o auxílio da tecnologia, trabalha com pesquisas bibliográficas, emissão de diagnósticos, compras de equipamentos. Enquanto acadêmico, escreve e publica artigos, estuda, desempenha suas funções com rigor.

É internauta também. Nas redes sociais, escreve seus pensamentos e reflexões. E pensa, inclusive, em transformar toda essa vivência em livro.

Vivência que continua a expandir. Já pensa no pós-doutorado, pesquisando as relações entre o olfato e a sexualidade nas pessoas com deficiência.

Márcio Penha biólogo

Márcio é chamado para compartilhar sua história em palestras, workshops, encontros. Comemora o que considera mais um progresso no longo caminho.

– Até 30 anos atrás, o que se assistia eram profissionais falando de deficiência para pessoas com deficiência. Hoje, você vê o grupo formado por pessoas com deficiência falando para os profissionais. Hoje, há pessoas com deficiência em diversos postos: biólogos, professores, pesquisadores. É preciso sair da zona de conforto.

Se sente realizado, mas quer mais. Quer expandir, deixar a função de técnico para, com toda a formação que tem, poder lecionar.

– Eu mereço me dar a oportunidade de prestar concursos públicos para docente. Só eu sei o quanto tive que me esforçar. As pessoas tendem a pensar: se você não enxerga, você não pensa.

Compartilha sua história, então, como uma forma de promover mudanças, reverter o preconceito.

– A maioria das pessoas está apostando que não vai dar. A cada momento que eu conseguia, elas esperavam eu cair mais para a frente.

Não caiu. E nem pretende.

Ao contrário, quer continuar indo além.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Mostrando 2 comentários
  • Renata Beatriz Vicentini Del Moro
    Responder

    Parabéns Márcio! Conheci você como secretária do Programa onde você fez o doutorado. Sei das suas dificuldades e também sei da forma tranquila com que você as supera. Você é um exemplo! Abraços.

  • Cleide De Martin Benevides
    Responder

    Simplesmente Maravilhosa história de vida e conquistas exemplares!!!! Parabéns!!! Muito Sucesso e Bênçãos de Luz!!!

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