Sonho de criança rendeu a Brasil Salomão 50 anos de advocacia

Uma grande placa de metal, com seu nome grafado na transversal. Brasil Salomão, aos oito anos de idade, sonhou em fazer Direito para ter uma placa como aquela, que ficava em frente ao escritório de um advogado, pai de um amigo.

O jeito acolhedor do homem também contou nesse encantamento imediato. Sentava com os meninos para conversar, tinha paciência em ouvir. Com tão pouca idade, Brasil não fazia ideia do que representava ser advogado, mas cresceu com a convicção de que essa era a melhor profissão a seguir.

Só soube já adolescente que cursar Direito significava firmar um compromisso com a defesa da lei. E continuou encantado pela profissão, mesmo seguindo em sentido contrário à vontade dos pais. Naquele tempo, as famílias sonhavam em ter um filho concursado em banco.

– Os bancos eram autoridades. Trabalhar para eles era uma estabilidade.

Estabilidade do mesmo tipo que Brasil jogou para o alto quando um amigo empresário apareceu com a proposta de montarem um escritório de advocacia. Nessa época, 1968, aos 27 anos, recém-formado em Direito pela faculdade “Laudo de Camargo” (Unaerp), ele somava cinco anos de trabalho na Secretaria da Fazenda de Ribeirão Preto.

Com o salário que ganhava, havia conseguido pagar as mensalidades da faculdade e manter a família, que começara a crescer. A esposa estava grávida do primeiro filho – depois viria mais uma filha.

Mais uma vez, seus pais – em coro com os pais dela – ficaram contrariados. Trocar o certo pelo totalmente duvidoso? Mas a esposa, companheira da vida, deu todo apoio.

O empresário – movido pela vontade de se tornar também advogado – iria manter o escritório até que Brasil pudesse ganhar o mesmo que ganhava como funcionário público. O escritório abriu as portas em março de 1969.

Nesse momento da história, Dr. Brasil abre um sorrisão.

– Ele não precisou cobrir nem um mês! No dia seguinte à abertura do escritório, apareceu um ótimo cliente. Ganhamos cinco, seis vezes meu salário logo no primeiro mês! O cavalo passou arriado e eu subi!

Brasil Salomão escritório de advocacia

Brasil Salomão, aos 77 anos, é um homem espirituoso. Apaixonado pelos netos, diz que hoje esse é o papel que mais gosta de desempenhar. Continua trabalhando e atendendo aos clientes sem limite de horário, porém. Em casa, aos sábados, domingos, proximidade que, na sua opinião, ajudou o escritório a crescer rapidamente no começo.

Relembra o nome, o caso, os pormenores de uma lista extensa de clientes. Dos primeiros, aliás, sabe com tantos detalhes que os 50 anos de história parecem ter começado logo ali.

Brasil do Pinhal Pereira Salomão é um homem de laços.

O primeiro ótimo cliente que fez o negócio deslanchar logo no segundo dia se tornou um grande amigo – além de nunca deixar de ser cliente.

Aquele amigo empresário que abriu os caminhos cursou Direito e, de fato, se tornou sócio no Brasil Salomão e Matthes Advocacia, que hoje é reconhecido nacionalmente, com sete filiais no Brasil e duas em Portugal. São cerca de 171,4 mil pastas, que representam, aproximadamente, 20 mil clientes, nas estimativas de Brasil. Tornar sócios os “talentos” da empresa é conduta por ali, aliás. Atualmente, são 117.

– Se eu não fizesse isso, perderia os talentos importantes que tenho aqui hoje. O sucesso do escritório não é mérito meu. É mérito desses talentos.

Sabe dividir. E se posicionar. Diz que não participa mais da gestão do escritório porque essa função nunca foi sua especialidade.

– Eu fui vencido na maioria das decisões. Sempre aceitei e percebi que as decisões tomadas pelo grupo eram certas. Se eu não me afastasse da gestão, estaria impedindo que eles crescessem como a geração deles permite.

Com uma sobriedade difícil de encontrar, explica que vai continuar trabalhando apenas enquanto for útil.

– Não pretendo continuar muito, não. Penso em parar, talvez. Não porque eu queira, mas por medo de começar a errar. A gente tem que ter essa consciência. A memória falha.

Eu custo a acreditar que a dele esteja perto de falhar. Conta em detalhes cada parte da trajetória. Com dados, nomes e números.

Não esconde suas preferências, incomode a quem incomodar. Foi um dos fundadores do PT e afirma que, enquanto o partido estiver por baixo, não deixa de ser filiado.

Viveu a ditatura em duas faces: servindo – obrigado – ao Exército, nos anos que antecederam o período ditatorial. E sofrendo a repressão como estudante. Entende, então, que a política deve ser feita para o bem.

– A ditadura foi muito triste. Pessoas muito boas pagaram caro por isso.

Em 1961, passou 17 dias na linha de frente do Exército no sul do País. Os militares queriam impedir o movimento iniciado por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul. Com a renúncia de Jânio Quadros, caberia a João Goulart, vice-presidente, que estava na China, assumir a presidência. Os militares e parte da classe política, que o taxavam de comunista, foram contrários ao processo democrático. E Brizola iniciou a Campanha da Legalidade, para a posse do vice, reprimido com ameaças de bombardeio pelo Exército.

Brasil Salomão, que servira o Exército por um ano, foi recrutado a ir para o combate.

– Eu havia lido a biografia de Marechal Rondon e a regra dele era: tem que morrer, mas não matar. Eu nunca teria tido coragem de atirar.

Se indignou ao ver os canhões apontados contra os próprios brasileiros.

– Os militares queriam fogo. Poderia ter sido uma matança.

Conta que procurou o sargento pedindo que aqueles “obuses”, uma espécie de canhão, não fossem disparados. O homem o chamou de lado e confessou que havia retirado o dispositivo que fazia a arma disparar. Ainda que houvesse ordem de guerra, a artimanha estava feita para garantir a paz.

O sargento pediu que Brasil guardasse o segredo. E assim ele o fez. Só revelou quando o homem já havia morrido, no plenário da Câmara de Ribeirão Preto, em 2017, recebendo o título de cidadão que lhe trouxe tanto orgulho. Deixou o Exército assim que Jango assumiu.

– Se Jango não tivesse a dignidade de aceitar o parlamentarismo, teria tido muita morte.

O segredo com o sargento foi mais uma questão de lealdade, como tantas que ele vai contando entre os episódios da vida. Algumas, desde o dia da entrevista, se tornaram segredo entre eu e ele, que confiou a mim tantas delicadezas sobre sua trajetória. Algumas delas, conto nessa história. Outras, permanecerão guardadas até que ele me diga contrário.

Brasil Salomão escritório de advocacia

Seu pai era funcionário público e a família vivia se mudando, para acompanhar suas transferências no trabalho. Brasil viveu em sete cidades do interior de São Paulo do dia 18 de novembro de 1941, seu nascimento, em Espírito Santo do Pinhal, até passar no concurso da Secretaria da Fazenda e se mudar para Ribeirão Preto, em 1963.

Fez o grupo escolar em dois municípios diferentes e o ginásio em quatro. Sabe o nome de todas as escolas nas quais estudou e não parece fazer qualquer esforço para se lembrar. De algumas, diz o bairro onde ficavam e, se duvidar, os nomes de todos os professores.

Dos três até os oito anos, “metade do primário”, seu marco no tempo, viveu em uma pequena cidade chamada Monte Aprazível, região de São José do Rio Preto. Conta que por lá a infância foi feita de boa simplicidade. Ia a pé com os irmãos para a escola, na estrada de terra. Levavam os sapatos nas costas e só calçavam quando chegavam, para não espalhar terra.

Bets, peão, bolinhas de gude eram o divertimento. Mais tarde, tomou gostou pelo futebol. Seu nome foi “oneroso”, palavra sua, nesses tempos de meninice. É incomum. E a intenção do pai foi, literalmente, homenagear o país que acolheu sua família de imigrantes libaneses. Não deixou a cidade de fora. Por isso, depois do Brasil vem o Pinhal, em homenagem ao pequeno município onde o menino nasceu.

Como as mudanças eram constantes, a cada nova matrícula na escola, as mesmas brincadeiras se repetiam.

– Eu fui um cigano involuntário!

Por isso, o carinho tão grande pela Ribeirão que o acolheu. Daqui, nunca mais saiu, criou raízes.

– O único porto que eu tive nessa vida cigana foi Ribeirão Preto! Devo tudo a essa cidade!

O lado bom do nome e dessa vida de tantas mudanças foram os muitos amigos que fez e que nunca tiveram dificuldade para localizá-lo.

– Quando meu nome é falado em algum lugar, os colegas se lembram. Por isso, reencontrei muitos deles.

Além de Pinhal e Monte Aprazível, viveu em Campinas (até os três anos de idade), Araraquara, Rio Claro, Ribeirão Preto (onde cursou parte do ginásio antes de se mudar de novo), São Paulo e São José do Rio Preto, onde conheceu “sua” Lúcia Helena, com quem se casou e por quem não esconde a paixão. Fala dela com os olhos brilhantes e uma admiração bonita de se ouvir.

Conta que se casaram em 1967. Tem pela esposa aquela “questão de lealdade” já dita. Como vieram morar em Ribeirão Preto sozinhos, entendeu que deveriam ser mais que um casal, companheiros. E assim são ainda hoje. Ela é, inclusive, a diretora financeira do escritório.

– Eu vivo de mesada!

Fala, com o humor peculiar de toda a conversa!

Quando pergunto, então, o que Brasil gosta de fazer fora do expediente, a resposta é estar em família. Até nas leituras os dois são cúmplices. Combinam os horários para ler e se debruçam cada qual sobre a sua história.

A leitura é também paixão para Brasil. Sua biblioteca tem mais de cinco mil livros, de diferentes gêneros e autores, criteriosamente catalogados. Ele me mostra o que estava lendo no dia da entrevista, com ressalva:

– Não vai desmarcar a página!

Brasil Salomão escritório de advocacia

O escritório que hoje ocupa prédio suntuoso na avenida Presidente Kenedy começou com uma salinha alugada pelo amigo empresário, em 1969. No dia seguinte à abertura, entra pela porta o italiano Francesco Cammilleri, com problemas na cobrança de impostos. (A história de Francesco foi contatada pelo História do Dia. Clique AQUI para ler)

Brasil conta que o restaurante Bella Sicília já era sucesso e Francesco inovava com uma máquina de frangos assados.

– Aos sábados formavam filas enormes!

O Estado, porém, entendeu que o frango era um produto industrializado e autuou Francesco em milhares de reais. Brasil ganhou a ação e honorários bem maiores do que poderia imaginar.  E o sucesso nunca mais parou.

Depois desse, pegou outro grande caso, que envolvia a cobrança de impostos às padarias. Ganhou para uma e passou a ser procurado por dezenas delas, de Ribeirão e toda a região. O caso foi publicado em uma revista da área de Direito, que só noticiava grandes decisões. O escritório, assim, passou a ser conhecido no Brasil todo.

Em quatro anos, já eram em seis advogados.

– As pessoas nos procuravam para outras questões, além das tributárias, minha especialidade. Para não deixar de atender, eu buscava profissionais. Preferi sempre repartir do que perder o cliente.

O escritório, então, cresceu rápido. Brasil pode passar uma tarde toda só contando casos que mais marcaram, clientes que se tornaram amigos, grandes decisões. Acredita que a de maior repercussão foi 12 anos atrás. Seu filho mais velho – e sócio no escritório – conseguiu a revisão de uma súmula no Supremo Tribunal Federal.

– Foi a primeira vez que isso ocorreu. O advogado é aquele que altera a jurisprudência do País.

Com um tanto mais de atributos, conforme ele vai listando:

– É preciso ter cultura, ética e a consciência de que o cliente que vai ao escritório, via de regra, está insatisfeito com alguma situação e precisa ser esclarecido sobre seus direitos: se tem direito total ou parcial sobre o que quer. Se o advogado tiver consciência de que é o primeiro juiz da causa, quando atende o cliente, certamente vai ser bem-sucedido.

Brasil é um homem de fé. Acredita, acima de tudo, que sempre existirá o perdão. Cita, inclusive, a frase um padre, escrita em um livro, que o levou a muitos questionamentos ao sugerir que “o perdão é um convite ao pecado”.

– A vida? Nós temos que, apesar dos erros e dos pecados, saber que existe o perdão. Ter consciência do erro e acreditar que faz parte de quem se diz pai perdoar.

Cita a frase de Albert Einstein que leu “há muitos anos”. “Eu acredito que existem duas espécies de pessoas: as que não acreditam em nada e as que acreditam que tudo é milagre”.

– Eu acredito que tudo na minha vida é um milagre.

Na semana passada, recebeu contrariado uma homenagem em Portugal.

– Eu queria que não fosse para mim, mas para os colegas que dirigem o escritório. Eu me vejo, com sinceridade, como passado. Temos que olhar para frente.

Eu questiono, quase impaciente: “Mas o senhor começou tudo isso!”. Ao que ele responde:

– Mas eles deram vida, fizeram crescer. Coisa que talvez eu não fizesse.

Continua atendendo, sem horário, os que pedem sua atenção. No escritório, sua sala de atendimento fica bem ao lado da entrada. A decoração é feita por homenagens, diplomas honrarias emolduradas nas paredes. Lembranças da semente que fez tudo nascer.

A entrevista custa a terminar. As tantas histórias não cabem nas horas que a agenda permitiu. E, então, a gente extrapola o tempo.

– Realmente, eu não vejo agenda, porque nem sempre é agradável.

Na hora das fotos, Dr. Brasil bate um papo animado com o homem que vende garapa em frente ao escritório e conta, inconformado:

– Você acredita que já me disseram para tirar ele daí? Acha que pode?

O filho mais novo daquele advogado que tinha a grande placa de metal na fachada soube da história décadas depois e decidiu fazer uma homenagem ao Brasil que o pai inspirou. Em visita a Ribeirão, lhe presentou com uma placa como aquela.

– As voltas que o mundo dá.

Brasil não pôde usar o objeto, pelas questões da lei “Cidade Limpa”, que tem exigências para as fachadas em Ribeirão. Mas o ato valeu mais do que qualquer metal.

Reconhecimento pela trajetória que nasceu não na placa, mas no afeto compartilhado. E se multiplica em novas gerações.

 

Assine História do Dia por R$ 13 ao mês ou faça uma doação de qualquer valor aqui!

Nos ajude a continuar contando histórias! 

 

Deixe um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar

Sofi, a pipa bailarina - livro de SolangeDirce e Oswaldo: amor e casamento depois dos 60 anos