Aos quatro anos, Márcio já queria ser veterinário

A família estava em Jaboticabal, comemorando o aniversário de um grande amigo, que era médico. Márcio avistou uma borboleta machucada, agonizando no chão.

– Eu já sabia que médico cuidava de gente. E achei que cuidasse de bicho também. Então, chamei esse amigo para examiná-la.

Como resposta, veio a explicação: “Eu cuido de gente. Você, pelo visto, vai ser veterinário, que é o médico de bicho”.

Em 1974, aos quatro anos, Márcio descobrira que havia um nome para o que, tão pequenino, já queria ser.

– Desde aquele dia eu já sabia que seria veterinário.

E foi difícil esperar a hora certa para atuar. Conta que aos nove anos abriu uma “clínica veterinária” no quarto.

– Colei uma plaquinha, coloquei uma mesinha, peguei as seringas do meu pai e achava que já era veterinário.

Quando a hora do vestibular, enfim, chegou, não teve dúvidas. Em 1989, aos 19 anos, entrou na Unesp de Jaboticabal. E nunca mais deixou de atuar.

Márcio Augusto Vieira de Moraes se especializou em pequenos animais e alguns silvestres e, aos 47 anos – 24 deles de profissão – soma cerca de seis mil cirurgias e oito mil consultas.

A conta é feita em um caderninho. Ele conta que, desde que começou a trabalhar, anota cada novo atendimento nas páginas.

Há 15 anos também compartilha o que sabe como professor universitário e há uns 13 atua em Ribeirão Preto, onde tem uma clínica.

O espaço está sempre aberto às protetoras que resgatam animais vítimas de todo tipo de abandono e violência. O veterinário tem um preço especial para esse tipo de atendimento, procurando ajudar ao máximo.

Os sete gatos que moram em sua casa e na clínica foram encontrados nas ruas ou adotados de alguma protetora. Vitória é uma delas. Chegou com uma grave lesão na coluna. Passou por cirurgia, mas não conseguiu recuperar o movimento das patas traseiras.

Márcio improvisou, então, um “saco de arrastar” para que a gatinha possa andar de um lado para o outro sem se machucar. Garante que ela é quem comanda a turma toda.

– Ela é feliz. Mesmo com tudo que passou, é um animal muito feliz!

Tem ainda um cachorro para completar a turma.

– Realmente, eu não faria outra coisa que não fosse a veterinária nessa vida!

Márcio Augusto Vieira de Moraes Veterinário Ribeirão Preto

Márcio nasceu em São Paulo. A mãe contava que desde pequeno ele gostava de bichos.

– Na verdade, acho que a veterinária para mim vem de outra vida. Minha mãe relatava que quando bebê eu me jogava do colo para pegar um cachorro. Não tinha medo.

Os pais eram químicos. Ele cresceu fascinado por laboratórios, com seus frascos e reagentes.

– Minha mãe me buscava na escola e, muitas vezes, me levava para o trabalho dela ou do meu pai. Cresci nesse cenário.

Diz que em casa mesmo nunca teve bicho. Vivendo em um apartamento de São Paulo, a família não tinha espaço.

– Ou seja: não precisei ter em casa para descobrir minha paixão.

Teve seu primeiro bichinho – uma gata – quando já estava na faculdade.

Se formou em Jaboticabal, cidade de origem do pai e do médico que lhe ensinou a nomear o amor pelos bichos.

A especialidade sempre foram os “pequenos”, como diz, cães e gatos. Mas à medida em que foi conhecendo os animais silvestres, foi se encantando. E se deparando com um dilema.

– É um problema. Não se deve estimular o comércio desses animais. Mas se a pessoa tem um bicho, chega com ele sofrendo ao consultório, eu não vou atender? Não é porque é proibido que não vou prestar socorro e aliviar o sofrimento daquele ser.

Sua história mais surpreendente está no atendimento a uma jiboia, criada como animal de estimação.

O dono montou um terrário em casa, mas ao invés de utilizar galhos e folhas secas – que Márcio explica ser o habitat desses bichos – forrou o chão com camisetas e camisas velhas. No momento da refeição, a jiboia se confundiu e acabou engolindo uma peça.

– Ela ficou à beira da morte.

Foi preciso abrir a barriga do animal para retirar o que estava obstruindo o estômago.

– A camisa jeans estava lá: inteira!

A parte boa é que em cinco dias a jiboia já estava se alimentando e em 10 tirou os pontos. Coube ao veterinário, então, orientar o dono sobre os hábitos do bicho.

– Quando a pessoa decide ter um animal, precisa conhecer as necessidades alimentares e ambientais daquele ser.

Márcio Augusto Vieira de Moraes Veterinário Ribeirão Preto

As histórias de maus tratos são constantes, para a tristeza do profissional.

– É de doer a alma.

Conta da gata Preta, que chegou socorrida por uma aluna. Ela viu quando o agressor chutou a pequena tão forte que lhe saltou um olho. Márcio fez cirurgia, tratou, mas a gatinha ficou cega de uma das vistas.

– No primeiro dia eu fiz o possível, no segundo continuei cuidando, no terceiro, ela já era minha.

Há 16 anos, Preta é parte da “família” do veterinário.

No lado oposto da balança dos maus tratos está o “excesso” de cuidados.

– A humanização tem a ver com a necessidade do ser humano em se agarrar ao animal como melhor amigo. São necessidades diferentes, jeito de se comunicar diferente. O animal respeita o ser humano como ser humano e o trata como tal.

Os principais resultados dessa humanização estão na alimentação. O rotineiro “pãozinho da manhã” ajuda a tornar os cães obesos, Márcio ressalta.

– A alimentação ainda é o principal ponto de falha do ser humano com o animal. Eu já vi pessoas darem café para papagaio!

Márcio acredita que é possível cuidar dos bichos, sem tirar-lhes a possibilidade de continuarem sendo o que são. Conta o caso recente que tomou conhecimento: uma casa onde os pássaros ficam soltos.

– A energia humana consegue atrair o animal sem precisar prendê-lo. O ser humano pode estar próximo, ajudá-lo a se reproduzir e, na falta da floresta, oferecer um local seguro.

Márcio Augusto Vieira de Moraes Veterinário Ribeirão Preto

Entre as tantas histórias das milhares de consultas, a que mais marcou ocorreu em São Paulo, Higienópolis. Todos os dias, a dona de Jack, um vira lata de nove quilos, o soltava para um passeio. O cão ia à padaria, onde ganhava um pãozinho. Mas nunca comia por ali.

Um dia, a dona decidiu ir atrás para saber onde Jack estava levando os pães que recebia. Encontrou um terreno baldio com uma cadela e seus filhotes.

– Ele dividia o pão. Um cachorro é uma lição de solidariedade ao próximo, exemplo para a humanidade.

Por essas e muitas outras Márcio é apaixonado pelos animais. Ele e a esposa, que também é veterinária, não tiveram filhos humanos.

– Temos os filhos bichos!

E na lista não estão apenas cães e gatos. No aquário da clínica, o peixe Amarelo sabe quando o dono se aproxima. Chega próximo ao vidro para recepcioná-lo, nada de um lado a outro pedindo comida. E come na mão do veterinário.

– Ele é conhecido como um peixe bravo. Mas quando eu o trouxe, ele estava muito doente. Eu tratei, cuidei. Ele tinha 2,5 centímetros. Hoje, está com 10. Até com o peixe, que tem um sistema nervoso tão pequeno, há uma energia de gratidão.

O bicho, Márcio não tem dúvidas, é um ser feito de sinceridade.

– Há uma relação verdadeira entre o ser humano e o animal. E é uma relação de confiança, à prova de frustrações.

Quem salva também precisa estar preparado para perder. E não há meios de afastar a tristeza.

– A gente é vida, mas a morte ronda. Tem que se acostumar…

Sem, entretanto, perder a sensibilidade.

– É preciso serenidade para saber todos os passos a seguir. Mas não se pode esquecer que há ali um serzinho que sofre como você e tem que tem gratidão pelo ser que cuida. E há o sofrimento do dono, que perde aquele ser.

Márcio ainda quer somar muitos e muitos atendimentos no seu caderninho, entre perdas e muitos ganhos.

– Enquanto o corpo deixar, eu vou continuar.

O querer que foi nomeado aos quatro anos não tem tempo para acabar. Veterinário é o ser que ama os bichos que cuida: Márcio redefine o vocabulário.

 

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Comentários
  • Solange / Big / Funny Salaroli
    Responder

    Parabéns ?
    Deus continue abençoando, que venha mais anos

    Dr Márcio, msg anterior estava sem lente
    Desculpa o erro. Kkkk

    ?

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