Com equipe de psicologia, Ana leva afeto e acolhimento para ambiente hospitalar

              

            

Levar afeto para espaços, na maior parte do tempo, repletos de dor. Aproximar família e paciente, mesmo com o isolamento físico. Cuidar das angústias da equipe multidisciplinar. Escutar sempre, em primeiro lugar.

O papel de Ana Ficher, 48 anos, dentro do hospital sempre foi de acolhimento, essencial para quem enfrenta rotina de recuperações e perdas. Durante a pandemia, a necessidade de abraçar os sofrimentos se fez ainda maior. A equipe de psicologia passou a ser ainda mais requisitada por pacientes, famílias e equipe, cada qual com sua apreensão.

– Eu penso que cuidando da dor ela fica suportável. A dor só é insuportável quando ninguém cuida dela.

Há 20 anos, ela é parte do setor de psicologia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto – Unidade de Emergência. Hoje, coordena a equipe, formada por 10 profissionais. Quando entrou, entretanto, mal se sabia qual era a função de um psicólogo em ambiente hospitalar.

A primeira psicóloga a atuar no hospital chegou em 1998 e Ana veio dois anos depois, como a segunda profissional de toda a instituição. Ajudou o setor a crescer, mostrando sua importância. Aos poucos, o acolhimento psicológico passou a ser solicitado por mais e mais, presente hoje em todos os setores.

– Na psicologia, a gente trabalha com a palavra, mas mais ainda com a escuta. Ser ouvido é um privilégio de poucos. Nós abraçamos escutando e até com os olhos, porque há pacientes que não conseguem falar. É a presença, o olhar.

Esse trabalho de acolhimento está presente, inclusive, nos planejamentos estruturais. O psicólogo acompanha a evolução do paciente, participa das discussões de caso, é parte.

“Bom dia! Eu sou a Ana, da UE, mas não aconteceu nada. Só estou ligando para saber como vocês estão. O seu filho está na UE, sendo cuidado pela equipe. Estou ligando para conhecer a senhora. Não é um momento fácil…”.

É preciso carinho em cada palavra. Abordar por telefone uma mãe que internou seu filho com Covid-19 não é tarefa de dois minutos. Entre as primeiras palavras, Ana vai logo se explicando.

– Algumas pessoas já passam mal só de receber a ligação do hospital. É preciso avisar que está tudo bem. Que o motivo da ligação é outro.

Antes da pandemia, esse contato era feito pessoalmente, com a família presente no hospital. Ao longo de duas décadas de atuação, uma das conquistas de Ana foi deixar os familiares cada vez mais partícipes no tratamento, até mesmo na UTI. Na UE, os horários de visita eram estendidos, pela compreensão de que o contato entre o paciente e as pessoas queridas é uma importante frente no tratamento. A família é uma “parceira”, como ela diz.

– Para resgatar o paciente, precisamos resgatar a vida dele lá fora. E a família é o elo mais importante dessa vida.

Ana Ficher psicologa HC Ribeirão Preto

Quando os casos do coronavírus começaram a chegar a Ribeirão, o hospital já tinha um novo protocolo, pensado pela segurança de familiares, equipe e pacientes.

Hoje, todas as visitas são restritas, em todos os setores. Apenas pacientes acima de 60 anos, crianças ou com alguma deficiência, que estão na enfermaria, podem ter acompanhante. Os demais só recebem visitas quando a evolução está gravíssima, com possibilidade de morte. Uma despedida.

A mudança mexeu com cada pedacinho da instituição.

– A gente compreende a importância disso e apoia, mas é muito sofrido para todos. É uma restrição necessária, mas que aumenta o drama dessas famílias.

O setor de psicologia precisou, então, pensar em uma forma de manter próximo quem está distante. O primeiro passo é a ligação. Ana explica que as psicólogas procuram telefonar para a família nas primeiras 24 horas de internação.

Como a instituição é de emergência, alguns pacientes podem já ter sido transferidos nesse tempo, mas elas mantêm o contato ainda assim. Com o número de internações crescendo, não tem sido possível manter esse prazo de 24 horas. Elas se desdobram, porém, para que o primeiro contato ocorra o mais cedo possível. Acolher a família é o principal.

– Se o paciente ficou lá é porque é grave. Não há previsão de como vai ser, quanto tempo, por quem será atendido – porque eles não nos veem mais. É uma angústia muito grande, que a gente tenta sanar com os telefonemas. Quando a família conversa com alguém do hospital, ela se sente acolhida.

As chamadas de vídeo têm sido outro recurso importante. Tanto a equipe de psicologia e serviço social quanto a médica tem procurado ligar para que os pacientes possam ver seus familiares e haja uma aproximação.

As psicólogas também procuram estar presentes em cada conversa que a equipe precisa ter com a família, seja para avisar sobre o óbito ou alertar para o agravamento do caso. E, quando há uma morte, telefonam alguns dias depois, para oferecer um apoio, se solidarizando com a dor do outro.

– Nós criamos uma relação com a família porque, muitas vezes, somos o único elo que ela tem com o paciente no hospital. Então, nos tornamos parte daquela dinâmica familiar. Na Covid, tem pacientes que passam três meses internados.

Outra mudança que a equipe de psicologia precisou abraçar veio da equipe. Ana explica que os psicólogos do hospital não podem prestar atendimentos aos funcionários, como uma terapia, pelos vínculos existentes. Não significa, entretanto, que não haja apoio, troca. Entre os protocolos instaurados na pandemia, houve a formalização desse acolhimento, com o apoio de toda a equipe.

– Eles sempre sofrem, não é só na pandemia. A gente via o sofrimento deles, precisando ser cuidado.

Além disso, a hospital criou o projeto “A UE se importa com você”, com a união da equipe de psicologia e terapia ocupacional, para estimular trocas de mensagens positivas entre os funcionários. Uma psicóloga que canta manda um vídeo com uma música, a nutricionista pinta porcelanas, um enfermeiro declama um verso e todo mundo vai sendo cuidado.

– São micromomentos de prazer que se tornam refúgio para que a gente possa se proteger.

A união, Ana enfatiza, é que tem possibilitado todos os projetos, todo esse acolhimento. A equipe é multiprofissional e engloba psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, nutrição, farmácia, serviço social, além dos médicos e enfermeiros.

Pessoas complexas não podem ser tratadas como iguais.

Ana Ficher psicologa HC Ribeirão Preto

Todos os dias, Ana vive uma história única dentro do hospital. Carrega consigo as mães que ajudou a se despedirem de seus filhos, os últimos momentos e também as recuperações. Dores e alegrias compõem sua rotina, feita pelo imprevisível.

Aconselha que o afeto seja expressado, que o amor se transforme em palavra.

– A gente incentiva que as famílias falem, sim. Ainda quando o paciente não pode responder ou parece não ouvir. Há mistérios que a gente desconhece.

Sua primeira filha, Letícia, completaria 18 anos. Nasceu prematura e faleceu com 13 dias de vida, transformando a mãe por inteiro.

– É um marco na minha história. Me tornei outra pessoa, outra psicóloga. Eu vivi os 13 dias com ela da forma mais intensa e plena que pude. Compreendi a agonia dos pacientes, a fé que a gente tem de que tudo vai dar certo.

A vontade de ser psicóloga apareceu quando ainda era menina.

– Desde criança tenho um encantamento pelas emoções. Sempre entendi que quando o corpo fica doente tem algo mais ali.

Nasceu no Ceará, mas aos cinco anos já vivia em Ribeirão Preto com sua família. Entrou na USP aos 17 anos e construiu carreira no Hospital das Clínicas, UE. Pesquisou suicídio entre adolescentes, fez mestrado, passou no concurso e ainda hoje comemora.

 – É um lugar que eu amo. Apesar de trabalhar com o risco da morte o tempo todo, tem muita vida. Nós batalhamos o tempo todo para que tenha muita vida.

Se casou em 1997 e Letícia nasceu cinco anos depois. Aprendeu com a filha e com cada pessoa que atendeu em tanta trajetória.

– Eu vejo a morte como parte da vida. Os pacientes que falecem me ensinaram sobre a intensidade com que eu levo a vida, a sede que eu tenho de viver todos os segundos sabendo que, a qualquer momento, tudo pode mudar.

Teve outros dois filhos, João, 16, e Sofia, 10. A força para os dias difíceis.

– Penso sempre no que eu tenho em casa, na minha família, nos meus filhos, meus pais e em como a vida é boa. Como a vida é boa!

Seus “micromomentos de alegria”, como nomeia, estão no convívio com a família, com amigos, troca de mensagens, no cuidar das plantas e animais, na música e também no choro. Não segura lágrimas, pelo contrário. Oferece espaço para que elas saiam.

– Nem sempre as pessoas conseguem fazer isso. O choro é a expressão das emoções. Sou mãe, já perdi uma filha, sei que sempre vou me emocionar ao atender uma família. Essa sensibilidade é necessária para que eu esteja em sintonia com o sofrimento da família, para que eu seja empática.

É afeto por inteiro, sem ressalvas.

A pandemia do coronavírus, não há dúvidas, é um dos maiores desafios em sua trajetória. Como não poderia ser? Ela tem encontrado o equilíbrio necessário nesses tantos aprendizados de duas décadas. Percebe que está no caminho certo a cada mensagem que recebe, a cada troca que se estabelece.

– A coisa mais preciosa que uma mãe tem na vida é um filho. Falar dele para alguém que ela nunca viu, que está conversando pela primeira vez, é um presente muito grande. É um privilégio a família ouvir sua voz e te dar de presente a confiança para contar a história dela.

Entre tantas dores e alegrias, aprendeu a ressignificar o resultado de um bom atendimento.

– Muitos profissionais entendem que o sucesso do tratamento é a cura. Isso causa um sofrimento muito grande. Nossa vida é finita. Não vamos salvar a todos, mas precisamos cuidar de todos.

O carinho que a família recebe floresce em gratidão.

– A equipe começa a entender isso quando a família manda carta, demonstra que, mesmo que aquele paciente tenha falecido, ela é grata pelo cuidado que você deu a ele. Teve uma família que mandou banner! O paciente teve vida, foi cuidado até os últimos dias.

Ana leva afeto para cada espacinho do hospital. A dor pode ser tratada com aconchego.

Quer, então, que todo o distanciamento acabe logo, que os abraços que tanto distribuía sejam possíveis de novo. E faz um apelo.

– As pessoas precisam entender que só vamos conseguir vencer essa doença com a ajuda de todos. Não dá para um fazer o isolamento e o outro não. Aquele que não faz coloca em risco centenas de pessoas.

Segue, então, fazendo seu trabalho. Todos os dias, acorda com a missão de tornar a dor de tantas famílias mais suportável. Abraçar com os olhos e o ouvido. E, então, fazer com que dias de tanta angústia sejam lembrados com mais leveza.

 

*Quer traduzir essa história em libras?
Acesse o site VLibras, que faz esse serviço sem custos:
https://vlibras.gov.br/

 

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