Desafio: Elvio é o coordenador do Samu de Ribeirão Preto e outras 25 cidades

 

Para Elvio, a escolha pela Medicina não teve marco ou momento decisivo. O pai é médico, a mãe dentista. Ele, que cresceu em meio a conversas de consultório, sente que o caminho foi definido ainda menino.

Não sabia, porém, que dentro de todas as possibilidades que a Medicina apresenta iria se encantar pela urgência e emergência. Isso, descobriu ao longo da trajetória, na faculdade.

Também não poderia prever que, rapidamente, se tornaria responsável por centenas de profissionais e milhares de pacientes.

Desde janeiro de 2018, Elvio Antônio Pinotti Neto, 36 anos, é responsável pelo Samu de Ribeirão Preto e de outras 25 cidades da região. Em tempos de pandemia, coordena uma equipe com mais de 230 funcionários, no desafio de oferecer atendimento com qualidade e, ao mesmo tempo, cuidar da saúde de profissionais expostos a uma doença desconhecida.

– É uma pandemia de incertezas. Essa é a palavra-chave. Sem saber como vai ser, tudo se desorganiza. Desde a saúde mental dos profissionais até as questões de estrutura.

A rotina, que já era de surpresas e muito trabalho, agora tomou outras proporções. O Samu de Ribeirão Preto chegou a ter 70 funcionários afastados pelo contexto da Covid-19, entre casos suspeitos e grupo de risco. Nessa semana, Elvio informou que nove médicos estão afastados por suspeita da doença. Os casos e internações na cidade aumentaram na última semana.

– Nós somos escolhidos por Deus para estarmos nesse momento. Vem medo, vem insegurança, mas questionamento ou abandono não há. Vamos sair de tudo isso diferentes. Será um grande aprendizado.

Elvio Pinotti coordenador do Samu

A Medicina sempre foi assunto rotineiro na casa de Elvio.

– Nós, que trabalhamos na saúde, levamos muito trabalho para discutir em casa. O contato acaba sendo em doses homeopáticas. Quando você se dá conta, já está enfeitiçado por tudo isso.

Nasceu e cresceu em São Paulo, capital. Passou em Medicina na Unaerp, em Ribeirão Preto e, de cara, se encantou pela cidade.

– É pequena, mas te proporciona as mesmas situações de São Paulo. Tem tudo! E ainda permite um reconhecimento profissional maior do que na capital.

Na faculdade, começou a se dedicar à urgência e emergência. Se formou em 2001 e, depois, se especializou em Medicina Intensiva no Albert Einstein. Começou a atuar em unidades de saúde de Ribeirão Preto e região até prestar o concurso para a rede de saúde municipal em 2014. Entrou direto para o Samu.

Atuou quatro anos na regulação médica e na ambulância antes de assumir a coordenação, em 2018. Soma a essa jornada plantões com monitoria aos alunos de Medicina da Unaerp.

 – Eu vejo neles as minhas dúvidas e inseguranças de antigamente. A Medicina faz a nossa triagem inconscientemente. Ela nos escolhe, e não o contrário.

Na UPA, que se tornou polo da Covid- 19 na cidade, deixa as funções administrativas para estar em contato direto com os pacientes.

– Eu não quis perder a mão…

 

 

Para o médico, os desafios do coronavírus são muitos, todos ligados à incerteza que acompanha a doença.

– Tem alto poder de infecção e tudo é muito incerto. Não sabemos como vai ser, quantas pessoas serão acometidas, quantas irão desenvolver a forma grave da doença, qual é o curso.

O tempo de internação demandado por cada paciente também é desafio.

– Se todo mundo precisar de leito ao mesmo tempo, teremos um colapso. Países ricos, com recursos, sofreram com isso. Ribeirão Preto é uma região privilegiada, com rede hospitalar muito boa. Mas precisamos estar atentos.

Também é uma doença que afasta as pessoas, sadias e doentes.

– A cultura do país é de ficar com o doente até o final e, depois, também no velório. Nossa cultura é de velórios cheios. E essa doença amputa tudo isso de uma hora para outra. Quando o paciente é internado, a família só poderá voltar a vê-lo se ele tiver alta. Se não, não o verão nunca mais. Isso é muito ruim para todos. Até para os médicos. É algo que estamos aprendendo a fazer.

Além dos traumas, acidentes, urgências, a equipe do Samu é responsável por atender pacientes graves, transportá-los, removê-los de um hospital a outro, inclusive os que estão com a Covid.

– Apesar do contato com o paciente ser curto, as histórias são as mais diversas possíveis. Histórias que não estão próximas da nossa realidade e nos sensibilizam.

Enquanto gestor, Elvio se preocupa com a saúde física e mental dos funcionários.

– Hoje eu sou responsável não só por garantir a assistência de todos, como também por manter um bom relacionamento com os hospitais, para conseguirmos a vaga que o paciente precisa, ter um bom relacionamento com os profissionais, mantendo os servidores íntegros.

Ele não acredita em solução rápida.

– Acho que é uma doença que veio para ficar. Teremos que manter os mesmos procedimentos, o uso dos equipamentos de proteção e, daqui um ano, quando tivermos um paciente com sintomas respiratórios, assim como pensamos em H1N1, pneumonia, vamos ter que pensar no coronavírus. Teremos que conviver com isso.

Para isso, ele diz, é preciso conscientização.

– As pessoas dependem do trabalho para se manterem, mas a etiqueta respiratória vai ter que continuar no nosso meio. Quando o inimigo é invisível, é mais difícil de nos conscientizarmos. A gente precisa viver na pele para sentir.

Entre tantos desafios, nenhuma dúvida sobre a profissão que escolheu tão menino. O médico segue acreditando em seu papel.

– Somos privilegiados em podermos dar nossa contribuição nesse momento. Somos escolhidos por Deus.

Para ele, é mais um dia na linha de frente.

 

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