Coordenador de UTIs, Gil passa mais de 12 horas por dia no combate à Covid

 

 

6h30: Gil Teixeira já está na rua.

– Todo dia é isso: nos levantamos e saímos para trabalhar sabendo que iremos encontrar o inimigo, combatê-lo e salvar vidas. Estamos salvando muitas vidas!

Coordenador das UTIs de dois hospitais diferentes, Santa Lydia (por meio da Gesti, empresa contratada pelo hospital para a gestão interna) e Unimed, a rotina do médico, que já era intensa, ficou ainda mais depois que os casos da Covid-19 chegaram a Ribeirão Preto.

Somando as duas instituições, é responsável por uma equipe de 40 médicos, além de dezenas de outros profissionais. São 20 leitos de unidade intensiva destinados apenas para pacientes com coronavírus, além das demais doenças que não saem de quarentena.

Todos os dias, Gil visita paciente por paciente, avalia o quadro, conversa com a equipe. Agora, precisou incluir mais uma atividade à rotina. No hospital da Unimed, os familiares conseguem ver os pacientes internados por vídeo-chamada. Foi a forma encontrada para amenizar um pouco a angústia da distância.

– É uma dificuldade dupla para os familiares. Primeiro, ver tudo o que está acontecendo, ouvir sobre as mortes crescentes no noticiário e, depois, passar por tudo isso e não conseguir ver o filho, o pai, o avô, o familiar que está internado.

O médico busca acalmar a angústia, mas preza pela transparência. Tudo o que está acontecendo é novo, inclusive para a Medicina.

– Eu abro o jogo: para mim também é novidade. A transparência é a melhor forma de manter os vínculos. Não oferecer expectativas falsas, mas também não jogar a toalha.

No saldo, mais vidas salvas do que perdidas nesses quatro meses. Energia para seguir!

Gil Teixeira médico Ribeirão Preto

A história de Gil é feita de marcos. Momentos que fortaleceram sua escolha pela Medicina, feita ainda na adolescência.

Seu pai era bioquímico e mãe trabalhava como fiscal do trabalho. Entre os três irmãos, ele é único que seguiu pela área da saúde. Acredita que essa escolha está na personalidade, enraizada na essência de cada um.

– Também tem a ver com o social, buscar uma profissão que te permita fazer o bem.

Aos 18 anos, enfrentou um câncer nos vasos linfáticos, linfoma. Estava na época do vestibular. Dos seis meses de tratamento, passou quatro internado. Estudava no hospital, confirmando sua escolha.

– Tive a certeza de que queria ser médico ali. Me ajudou a não ter dúvidas.

Um mês depois da cura, entrou na faculdade, em 1997. Cursou em Pouso Alegre, Minas Gerais, cidade onde nasceu e cresceu. Ali, conheceu sua esposa, que também é médica.

Fez a residência em clínica geral e, em 2005, passou em terapia intensiva no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Se mudaram para cá e fincaram raízes.

Gil atuou por sete anos no HC, onde fez também seu mestrado, na USP. Sempre em terapia intensiva.

– Temos um estigma de UTI. Tendemos a pensar que, se for para a UTI, o paciente irá morrer. E não é isso. Nós levamos para UTI os pacientes que têm chance de se recuperarem.

 

 

Depois de sete anos no HC, decidiu seguir por outros caminhos. Nos últimos dias de trabalho, em março de 2013, outra história que marcou a trajetória.

Um jovem havia sofrido um acidente que lhe deixou tetraplégico e estava na UTI em Cingapura, precisando voltar para o Brasil. Um residente, primo do paciente, contou o caso para Gil. A família gastara milhares de reais para o tratamento de Renato Mecca. Mas precisavam que ele voltasse, para que tivesse atendimento especializado.

Para isso, entretanto, era necessário uma UTI aérea e um médico que fosse buscá-lo. Os valores seriam altíssimos.

– Eu fui para casa, contei tudo para minha esposa. Naquela noite, não conseguia dormir de jeito nenhum. Ele só queria vir embora… decidir ir buscá-lo como voluntário!

Gil havia passado por uma cirurgia na coluna quatro meses antes. Não foi impeditivo.

Com doações e campanhas realizadas por amigos, a família conseguiu arcar com o transporte. Gil transformou um avião comum em UTI, com uma instalação engenhosa e que precisou considerar o tempo de voo, o abastecimento do oxigênio, todo o necessário para que o jovem voltasse em segurança.

A viagem durou 27 horas: de Cingapura para Barcelona, de Barcelona para São Paulo. Depois, trouxeram Renato para Ribeirão Preto, onde o médico pôde tratá-lo e vê-lo se recuperar. O contato entre eles se mantém ainda hoje. Renato faz palestras motivacionais e conta sua trajetória como inspiração para outras pessoas.

Para Gil, uma grande história, que só reafirmou, mais uma vez, sua escolha.

– Ele poderia morrer lá. Pôde voltar para casa, se recuperar, ficar bem. Entregá-lo para a família, para a mãe, foi uma emoção muito grande.

 

Gil Teixeira médico Ribeirão Preto

 

A pandemia também será lembrada em sua trajetória como um marco. Não dá para ser diferente. É preciso muito amor pelo cuidar para seguir ao encontro do inimigo diariamente.

– Eu faria tudo de novo. Sem sombra de dúvidas.

Ele e a esposa, que é endocrinologista infantil, atuam na linha de frente. Os filhos Davi, 11 anos, e Diego, 8, estão em casa. É preciso uma maratona para ajudá-los na escola virtual, manter o ritmo de brincadeiras e trabalhar quase sem folga. Para entrar em casa, os pais passam por desinfecção completa antes do abraço.

O medo de contrair o vírus foi se acalmando ao longo dos meses.

– Com o aprendizado, essa ansiedade começa a melhorar.

O coronavírus é uma doença “traiçoeira”, ele diz. Causa complicações múltiplas, veio cheio de incertezas. Gil avalia que, na primeira “onda” de casos, como diz, os jovens foram maioria nas internações. Agora, na segunda fase, o número de idosos tem sido mais expressivo, o que torna o desafio ainda maior. Os leitos da UTI estão, na maior parte do tempo, ocupados. O cenário é imprevisível.

– Pode estar super pesado hoje e semana que vem não. E depois, voltar ainda pior. Não dá para prever.

A equipe precisa, o tempo todo, caminhar unida.

– Temos que ter paciência. Acreditar que vai passar e, enquanto não passa, lidar da melhor forma. Não adianta desesperar porque não vai mudar em nada.

Em outros tempos, o médico aliviava o estres da rotina jogando tênis. Agora, precisa encontrar outros caminhos.

– Isso tudo irá nos ensinar a valorizar as coisas simples que temos. A possibilidade de ir ao cinema, ao restaurante, praticar um esporte. Fazíamos tudo isso de forma rotineira e hoje é um luxo.

Para os profissionais da saúde, ele acredita, tudo isso também deixará muitos aprendizados.

– O nosso comportamento será modificado. Não iremos mais fazer nenhum tipo de abordagem sem máscara, por exemplo. Tem a superação disso tudo, a experiência que virá e a resiliência que estamos aprendendo a ter.

É preciso que cada um faça seu melhor, ele pede.

– Eu coloco minha máscara para proteger o outro, mas se ele não coloca, eu estou em risco. Tem gente que trabalha de manhã para comer no almoço. Como parar tudo? É muito difícil! Por isso, a responsabilidade civil de cada um precisa ser aflorada.

“Vai passar”, ele repetiu várias vezes. Não tem dúvidas de que, logo, tudo isso será mais um marco na trajetória, mais uma história para contar. Enquanto não passa, segue na linha de frente.

18h30: Gil volta para casa depois de 12 horas de trabalho, se não tiver algum plantão e tudo correr bem. O celular permanece ligado para possíveis ocorrências. Amanhã, um novo dia começa, combatendo o inimigo para salvar vidas.

 

Foto de destaque: Rafael Fernandes 

Demais fotos: arquivo pessoal

 

*Quer traduzir essa história em libras?
Acesse o site VLibras, que faz esse serviço sem custos:
https://vlibras.gov.br/

 

Mostrando 19 comentários
  • Ilona
    Responder

    Parabéns Gil, beijinhos Ilona

    • Bárbara Dalilla Rocha
      Responder

      Dr. Gil orgulho imenso em fazer parte da sua equipe. Equipe Hurp??????

  • Clotilde teixeira ferracioli
    Responder

    Gil teixeira meu sobrinho meu orgulho leva o nome de
    Meu pai!
    Ser humano inteiro,cuidou de seu pai na UTI até a morte!
    Deus o acompanhe sempre nesta sua jornada como médico!
    Um anjo na terra!
    Obrigada por ser
    Meu sobrinho!
    Tia Clô!

  • Fabian Camargo
    Responder

    Um exemplo de amigo e colega! Orgulho de você!
    Abraço
    Fabian

  • Suellen T S Lima
    Responder

    O Dr Gil é um ser humano maravilhoso e o melhor médico com quem tive o privilégio de trabalhar!
    Heróis existem! O Dr Gil é um!
    Suellen

  • Andreza Giolo
    Responder

    Minha gratidão Dr Gil q cuidou e curou minha mãe do Covid hospital Unimed!!!!! Q história linda!!! Deus o abençoe, proteja e livre vc Dr e tds q trabalham na hospital ????

  • Silvia Cainelli
    Responder

    Dr. Gil, médico exemplar! Tive o prazer de trabalhar por 7 anos no HCFMRP. Pessoa de uma carisma incrível e toda dedicação pela profissão!

  • Maurício
    Responder

    Parabéns dr.Gil, sua história e inspiradora.
    Sucesso em sua promissora carreira.

    • Viviane Ramalho de Azevedo
      Responder

      Gil é um ser humano ímpar! Ainda vai colecionar muitas outras vitórias na sua vida! Sempre aberto ao ser humano e com o dom de se doar! Parabéns pela reportagem e por saberem contar, mesmo que bem resumidamente, sua verdade e suas qualidades! Sua escolha foi certeira e todos são gratos por isso! Que Deus continue a proteger, iluminar, guiar e abençoar o Gil e toda sua família!

  • Giselle
    Responder

    Dr Gil um médico maravilhoso ele ama o que faz e ajuda muito até mesmo os profissionais que trabalha ao seu lado….é gente como a gente….Deus sempre ilumine e proteja vc e sua família…

  • Júlia
    Responder

    Parabéns Dr Gil, você e sua família sempre serão fonte de muita admiração.

  • PASLA Patricia Fruttos)
    Responder

    Gratidão por existir e fazer a diferença. Obrigada por agir e servir de estímulo para tantas pessoas que também querem ajudar o próximo mas esbarram na falta de iniciativa. Conte comigo sempre que precisar.

  • Rodrigo Ubiratan Franco Teixeira
    Responder

    Grande Gil! Parabéns pelo trabalho! Força! Isso pode realmente mudar o mundo pra muita gente!!

    • Sandra Carvalho
      Responder

      Excelente profissional, acompanhou meu pai durante todo tempo q ficou na UTI em 2018, todos os dias ia pessoalmente conversar comigo no horário da visita, com a Graça de Deus é a competência dos médicos hoje meu pai está bem!!! ???

  • Christiane Coutinho
    Responder

    Sua história é tão linda quanto o ser humano que você é!!! Um grande amigo de infância e adolescência… pessoa do bem!!! Feliz com seu sucesso! Grande beijo

  • Elaine Madeira
    Responder

    Grande “menino!!! Parabéns Gil! Nunca tivemos dúvidas de seu sucesso! Orgulho de você, desde sempre! Deus te abençoe infinitamente!

  • Binha Bellentani Casseb
    Responder

    O Gil não é só médico!
    É médico e um ser humano diferenciado!
    Parabéns, Gil!

  • Sandra Carvalho
    Responder

    Excelente profissional, acompanhou meu pai durante todo tempo q ficou na UTI em 2018, todos os dias ia pessoalmente conversar comigo no horário da visita, com a Graça de Deus é a competência dos médicos hoje meu pai está bem!!! ???

  • Responder

    Força Gil. Parabéns pelo trabalho e pelo humanismo que carrega com você.

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