César cuida de animais feridos e, com projeto referência, dá a eles ‘Uma nova chance’

Era 9 de setembro de 2013, Dia do Veterinário. César diz que não é muito bom com datas. Essa, entretanto, não tem como esquecer.

Recebeu um chamado para o Recreio Internacional, bairro de Ribeirão Preto. Uma onça estava acuada em uma chácara. Quando chegou, porém, a situação era bem mais complicada do que o esperado.

O dono da propriedade havia atirado várias vezes contra o animal, que estava em cima de uma árvore. Quando a onça desceu, ele bateu com um facão em sua face. Ela teve uma fratura exposta no crânio.

César já atuava como veterinário no Bosque Municipal Fábio Barreto, mas o hospital veterinário para animais silvestres só seria realidade três anos depois. Tudo o que ele tinha era um ambulatório, conhecimento e altas doses de fé.

Chegou a responder para os bombeiros que ajudavam no resgate que não tinha como fazer nada. Era essa a conclusão em um primeiro momento. Depois, respirou e decidiu tentar. Era a única chance de salvar a vida da onça.

– Se existe milagre, foi um milagre. Eu pensei: ‘Hoje é Dia do Veterinário. Quem sabe São Francisco me ajuda’.

A devoção ao santo protetor dos animais e à Nossa Senhora Aparecida está estampada na parede de sua sala, em dois quadros grandes.

– Ó São Francisco ali! A gente não trabalha sozinho. Independente da religião, temos que ter fé.

César fez a cirurgia na onça, acreditando que tudo daria certo. Depois de três dias, ela já estava se alimentando sozinha. Uma semana e os pontos foram retirados. Um mês após o procedimento, fizeram a soltura do animal, com apoio de uma instituição que realiza o monitoramento dos animais devolvidos ao seu habitat.

Ele se emociona para contar a história, que está entre as que mais marcaram sua trajetória. Não é a única. A onça parda que perdeu um olho, a cobra apedrejada. A maldade assusta diariamente. Encontrou, porém, uma forma de dar aos bichos uma possibilidade de recuperação.

Três anos após a cirurgia que salvou a onça, ele inaugurava o hospital veterinário do Bosque Fábio Barreto, projeto que, junto ao diretor e demais funcionários da instituição, ajudou a formular e a tirar do papel. O projeto que realiza o resgate, reabilitação e reintrodução de animais silvestres à natureza tem sido referência para instituições Brasil afora. César o batizou de “Uma nova chance”.

– Dos animais que chegam até aqui, 100% tiveram as lesões provocadas por humanos. Se nós, humanos, machucamos os animais, nós temos que dar a eles uma nova chance.

Entre as principais causas de lesões de animais silvestres atendidos no hospital estão atropelamentos, queimadas, choques elétricos na fiação, pedradas, tiros e filhotes órfãos que tiveram as mães capturas, vendidas, traficadas.

– Nós invadimos o espaço dos animais, não o contrário.

César dedica seu dia a dia aos bichos. A entrevista sobre a sua história, então, tem essa temática do início ao fim.

– Eu não tenho vida profissional e pessoal. Se eu estou de folga, vou visitar ZOOs. O assunto em casa é bicho. Fica até chato para quem convive! A gente tem que fazer as coisas que ama, em qualquer profissão.

Zoo Fábio Barreto Ribeirão Preto

César Branco, 36 anos, não sabe dizer quando começou a gostar de bichos. Nas histórias que sua mãe lhe conta sobre a infância, está sempre andando pelo sítio em busca de animais, cuidando de algum aqui e ali, ou até mesmo aparecendo em casa com um filhote de cascavel em um potinho depois de uma andança, como quando tinha sete anos.

Teve gato, cachorro, galinha, roedores, peixes, cavalos: a lista é extensa.

Diz que nunca gostou muito de carrinhos. Preferia ganhar brinquedos em formato de animais, livros que desvendassem a fauna.

Seus pais também lhe contaram que ainda bem pequenininho disse que queria ser dono de zoológico. Depois, mudou para veterinário e, então, não teve mais trocas.

Aos nove anos, participou de sua primeira cirurgia. Pois é: minha cara também foi de espanto! Ele se lembra do momento em detalhes. Diz que consegue rever toda a memória na mente, como se a cachorrinha operada ainda estivesse ali, em frente aos olhos.

Sua prima veterinária fez o convite, percebendo a vocação que se apresentava no menino. Uma cesárea em uma cachorrinha que não conseguia ter os filhotes foi o desafio. César ajudou a reanimar os cachorrinhos. Dois sobreviveram, um faleceu.

Confirmou ali a decisão que já estava tomada bem antes. Chegou no vestibular sem qualquer dúvida. Prestou o curso em Franca, onde nasceu e cresceu, e com a bolsa parcial conseguiram arcar com as mensalidades, ele e sua mãe.

O pai faleceu quando César tinha 12 anos, por um aneurisma. Das três irmãs, duas estavam casadas e uma na faculdade.

– Eu tive que crescer muito rápido. Tomar decisões, pensar no futuro. Não que tenha sido prejudicial. Muitos jovens entram na faculdade e não estão preparados.

Se formou em 2005, aos 22 anos, com a área de especialização já definida e sabendo dos desafios.

– O veterinário não é valorizado no Brasil. Com animais silvestres a valorização é menor ainda. Até mesmo o material de estudo é preciso buscar fora do país.

Antes de chegar ao ZOO de Ribeirão, em 2011, trabalhou em 17 lugares diferentes. Em muitos deles ao mesmo tempo: clínicas, laboratórios, site de produtos veterinários.

No final de 2010, foi chamado para trabalhar voluntariamente com os bichos do bosque. Aceitou e ficou por quase três semanas viajando de Franca para Ribeirão, sem qualquer remuneração. Em janeiro de 2011, foi contratado.

O zoológico de Ribeirão foi um dos primeiros que conheceu, lá na infância. Tem uma foto feita durante uma visita aos seis anos. Conseguiu unir dois sonhos em um:

– Quando criança, eu queria ser dono do ZOO e veterinário. Foi uma forma de juntar as duas coisas. Hoje sou veterinário do zoológico.

Zoo Fábio Barreto Ribeirão Preto

Aos poucos, César foi ajudando o bosque a implantar o projeto “Uma nova chance”.

Conta que o hospital levou cinco anos para sair do papel, entre burocracias e busca por recursos. A data do primeiro atendimento também não esquece: 06/06/2016.

Uma onça parda com perfuração no olho foi a primeira paciente. Fez a cirurgia e conseguiu devolvê-la à natureza.

Explica que esse é um dos objetivos do projeto, que atende cerca de mil animais ao ano. Desse total, de 75 a 80% sobrevivem. Entre os sobreviventes, 80% conseguem retornar para a natureza. Os 20% que não têm condições de soltura são mantidos no bosque.

– Nós dizemos que esses animais que ficam são os embaixadores de suas espécies. Eles permanecem aqui, irão reproduzir e seus filhotes serão inseridos na natureza.

Esse trabalho de reintrodução é feito através de parcerias com instituições como Mata Ciliar e Instituto Espaço Silvestre.

Ele acredita que a desconexão do homem com a natureza propicia a violência.

– O homem está cada vez menos ligado à natureza e se esquece de que é uma espécie animal. Algumas pessoas se ofendem se dissermos a elas que são primatas. Além disso, o ser humano se considera uma espécie superior. E não é.

O bosque também desenvolve um trabalho de educação e conscientização, na tentativa de criar pontes. César usa suas redes sociais para postar casos, divulgar informações.

– Se a pessoa encontrar um animal silvestre, deve ligar para os Bombeiros ou para a Polícia Ambiental. De modo algum deve-se tentar pegar ou machucar o bicho. Ele só vai atacar se estiver ameaçado, encantoado ou com um filhote.

Depois da entrevista, César mostra o hospital e os animais sob seus cuidados. Se aproxima do recinto da onça Zara e ela vai logo chegando na grade para receber carinhos. A mãe da felina foi morta por uma colheitadeira de cana. César a levou para sua casa todas as noites, durante seis meses.

– Eles precisam ser amamentados o tempo todo. Não podem ficar aqui no ZOO.

Zoo Fábio Barreto Ribeirão Preto

Já ganhou patadas na coxa, arranhões, mordidas e saiu com as roupas todas rasgadas tentando dar vermífugo para uma siriema. Tomou coice de cervo, cabeçada de anta.

Detalhes perto do carinho que recebe dos bichos. Detalhes perto da alegria de ver um animal voltar para o seu ambiente.

– Qual vida é mais importante? Para mim, as duas são. A do animal e a do ser humano. E a gente tem que tratar todos os animais por igual: do beija-flor ao elefante.

Mostra a cobra que foi apedrejada até quase morrer. Relata o trabalho complexo que está realizando para que ela possa sobreviver, voltar à natureza. Segue acreditando.

 

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Mostrando 5 comentários
  • Rubens Barbosa
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    É um grande cara, muito dedicado, conheço o trabalho dele..

  • Fernando Rumao
    Responder

    Acompanho o trabalho do César a alguns anos, tenho ele em minha rede social, acho ele incrível, se um dia tiver que deixar meu trabalho quero trabalhar em alguma clínica vet ou zoólogo, PARABÉNS César!!!

  • Fernanda CRAS pró arara
    Responder

    Trabalho maravilhoso!!! Tem q ser registrado, homenageando e exaltado!!!!

  • Arielle Quintanilha
    Responder

    Esse Veterinario é muito bom.
    Ele cuida e ama desses animais, desse zoo e do hospital como se fosse a casa e a familia dele. Ele se desdobra para ver a vida do animal recuperada e para fazer com que as pessoas entendam que o zoo não é um lugar ruim como muitos dizem.
    Já acompanhei de perto toda a rotina, pois já fui estagiária e amei demais

  • Marlon Ferrari
    Responder

    Excelente trabalho e excelente profissional. Tive o prazer de trabalhar com o César, foi o meu mentor no decorrer do estágio de graduação e tudo que sei hoje foi graças a ele.

    Agradeço muito pela paciência, dedicação e caráter pessoal. Desejo todo sucesso do mundo ! Obrigado !.

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