Pesquisas pioneiras de pediatra Barbieri foram ameaçadas pela ditadura

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Para ouvi-la, é só clicar no play: 

 

Marco Antônio Barbieri é um pesquisador da infância. Os estudos do pediatra, muitos deles pioneiros no Brasil, ajudam a compreender, cuidar do desenvolvimento infantil e prevenir doenças no futuro. Implementou a Pediatria Social no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, onde coordena o Núcleo de Estudos da Saúde da Criança e do Adolescente.

Não fosse sua coragem e persistência, porém, sua trajetória de pesquisas poderia ter sido interrompida antes de começar. O médico foi preso três vezes durante a ditadura militar, que tentou impedi-lo de deixar o Brasil para estudar na França.

Barbieri, 80 anos, conta em detalhes os trâmites para conseguir seu passaporte de volta e embarcar, em 1971. Em alguns momentos, pensou que seria preso e torturado novamente, como fora meses antes. Precisou recorrer a amigos e contar com a interferência de um professor orientador muito próximo.

– Dentro da ditadura, existiam muitas ditaduras. A política de estado não pode ser discriminatória. O chefe do estado não pode falar que governa para quem o elegeu.

Relembra que foi recebido pelo então do chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) em São Paulo, porque um general que era amigo de seu professor fizera uma carta de próprio punho pedindo a ingerência, com o argumento de que Barbieri e suas pesquisas eram de muita importância para o País. O militar determinou, porém, que só o receberia à noite, na sala enorme de sua própria casa.

Mais do que dos quadros que estampavam as paredes, Barbieri se lembra das palavras do homem. “Nós estamos em uma guerra. Guerra é guerra. Se o meu filho ajudar o outro lado para alguma coisa, eu mando matar o meu filho”, reproduz e conta ainda que, depois, teve que ouvir a lista dos nomes de guerrilheiros que o militar dizia ter matado.

Saiu de lá com a recomendação de que fosse diretamente ao SNI no dia seguinte, onde esperou por um tempo que não consegue determinar, trancado em uma sacada sem proteção para quedas, com medo do que poderia ocorrer.

Depois, teve que ir ao Dops, onde ouviu do atendente: “Você é aquele médico comunista de Ribeirão Preto? Pode se sentar que vai cansar de esperar!”.

A ordem do superior já havia sido dada, porém. E o funcionário teve que entregar o passaporte em poucos segundos. Barbieri ainda não acredita na resposta que deu a ele: “Nossa, não deu tempo nem de sentar”. Falou e já saiu correndo, temendo o tamanho da represália.

Embarcou para Paris, onde ficou por cinco meses estudando no Centro Internacional da Infância, e encontrou as bases para dar início a sua carreira de pesquisador, na volta ao Brasil, pelo Hospital das Clínicas de Ribeirão. Depois, ainda passou um tempo estudando em Londres, aprimorando suas ideias, para iniciar o primeiro estudo de coorte de nascimentos do País, entre 1978 e 1979.

As sequelas físicas e psicológicas de toda a tortura que viveu nunca foram embora, entretanto. Ficou com problemas no tímpano, que foi rompido por um dos tapas que levou. E um tanto de angústias que, atualmente, estão mais intensas.

– Esse momento ficou muito forte… E agora voltam o medo, a indignação e uma preocupação muito grande com os rumos do País.

Marco Antônio Barbieri pediatra Hospital das Clínicas Ribeirão

Barbieri conta que sua relação com a USP de Ribeirão Preto “está no DNA”, em suas palavras. Seus avós, recém-chegados da Itália, viveram na fazenda que, décadas depois, se transformou no terreno que sediou a universidade e o Hospital das Clínicas.

O pai de Barbieri, assim como seus dois tios, nasceram no terreno que, anos mais tarde, se tornaria também sua morada profissional e pessoal. De 1980 a 1992, já atuando como pesquisador, Barbieri morou na USP.

– Meus filhos tiveram uma infância e uma adolescência fantástica aqui.

Traz uma das lembranças que o constituíram ao longo da trajetória. Quando era criança, estava pronto para ir a uma festinha, mas caiu no chão e se sujou inteiro. Começou a chorar e sua mãe, sem broncas, lhe disse que iriam trocar a roupa e retomar: “Você vai cair muitas vezes na vida. O jeito é saber levantar”. Nunca se esqueceu do tombo e da lição.

– Eu trouxe de casa imagens como essa, que tento passar para meus filhos, meus alunos.

O médico cresceu em Rio Preto e aos 11 anos foi para o colégio interno, de onde só saiu já crescido, para seguir os sonhos de Medicina da mãe. Não viveu com a área uma paixão dessas à primeira vista. Sua paixão estava nas artes, herança do avô e do pai, que eram músicos.

Prestou o curso porque era o desejo da mãe, que faleceu às vésperas na primeira prova para a faculdade.

– Eu entrei, mas era ela que queria. Então, não fui.

No ano seguinte, entrou novamente, mas parou duas vezes o curso. Só voltou quando um grande amigo da família conseguiu convencê-lo de que poderia conciliar a Medicina com o Teatro, essa, sim, sua paixão imediata.

Foi, então, se encantando com a área aos poucos, à medida em que descobria formas de levar a sensibilidade da arte para o dia a dia médico.

– Com Bertolt Brecht eu aprendi para que serve a Ciência: ‘Para tentar diminuir a canseira da existência humana’, ele disse na boca de Galileu, na peça Galileu Galilei.

Levava a arte para dentro do curso, organizando peças de teatro, shows, intervenções.

– A partir do momento em que eu enxerguei que poderia fazer um monte de coisas aproximando minha cultura humanística e política, buscando melhorar a desigualdade, eu entendi o que podia fazer com o meu trabalho.

Quando estava no quarto ano do curso, por volta de 1965, teve tuberculose pela boêmia constante: shows, serenatas, noitadas. Ficou internado 90 dias e diz que pôde, então, tomar gosto pela rotina médica.

– Eu comecei a examinar os pacientes, a conversar. Passei a ser um dos melhores alunos da classe.

Pegou gosto pela Medicina, se encontrou na Pediatria, se descobriu como professor e se realizou como pesquisador.

– Fazer teatro eu gostava. Agora, gostar do que eu faço hoje, eu aprendi. É isso que eu procuro passar para meus alunos e filhos: fazer o que se gosta é para pouca gente, o Pelé, por exemplo. Outra coisa é aprender a gostar. Isso me trouxe uma leveza de espírito para continuar fazendo.

Tanto que aos 80 anos, já aposentado, não pensa em parar. Pelo contrário, está em projetos novos, coordena pesquisas que nasceram a partir da sua iniciativa de realizar um estudo de coorte ou longitudinal, que analisa um determinado grupo de pessoas durante um longo período de tempo.

Seu primeiro estudo de coorte de nascimentos no Brasil completou 40 anos em 2019: o primeiro e mais antigo do País.

– Eu percebi que o caminho era acompanhar esses bebês, a continuidade.

Foram acompanhados nascimentos entre 1978 e 1979 e observadas, a longo prazo, as consequências do baixo peso ao nascer e do nascimento prematuro, entre outros fatores, inclusive socioeconômicos. Seus estudos renderam outros tantos, trouxeram parcerias e suas pesquisas passaram a ser financiadas.

Recentemente, deu início, junto a outros pesquisadores, a uma nova pesquisa.

– A grande intenção agora é estudar o ciclo vital, o que as coisas que acontecem no intraútero irão provocar no caminho do ciclo vital.

Marco Antônio Barbieri pediatra Hospital das Clínicas Ribeirão

Talvez, tudo isso tivesse sido interrompido naquele ano de 1971. Barbieri já havia sido preso três vezes pela sua atuação política. Ajudou a refundar o Partido Comunista do Brasil e participou dos movimentos contrários à ditadura.

Diz que, na primeira prisão, os militares forjaram maconha em suas coisas. Depois, conseguiu provar sua inocência, com o depoimento de um dos policiais envolvidos.

Em 1969, foi preso pela segunda vez. Foi retirado de casa aos gritos, torturado com surras e choques. Viu um dos companheiros – forte, cheio de saúde – em uma cadeira de rodas depois de tanto apanhar. Foi solto porque o preso que o havia acusado admitiu ter se confundido. A recomendação foi clara. Se alguém perguntasse, deveria dizer que caiu da escada.

Em 1970, mais uma prisão. Dessa vez, passou um mês e pouco no presídio de Tiradentes, em São Paulo, conhecido por encarcerar presos durante a ditadura.

Saiu e logo recebeu o convite para ir à Paris, refinar seus estudos, com apoio daquele professor orientador.

Ele diz que manteve sua atuação política, mas, à medida em que os interesses dos partidos foram se afastando dos seus, preferiu atuar nos bastidores. Escolheu se dedicar integralmente aos estudos.

– Eu não vou parar, porque aprendi a gostar. O outro lado também é grande: fazer algo sem gostar a vida toda sem ter a coragem de aprender a gostar ou mudar…

Não se sente realizado, porém. “Nunca”, diz. Há sempre mais a buscar.

Os três filhos e os cinco netos são a alegria dos dias atuais, tão envoltos em preocupação e desânimo.

– Tem coisas que nos prejudicam a saúde mental. O que está acontecendo no mundo agora judia da felicidade. A gente começa a ver felicidade só na família, mas não dá para viver isolado.

Ainda assim, mantem o otimismo como linha condutora de sua história.

– A felicidade é transitória. Mas tive mais momentos agradáveis do que ruins.

Procura acreditar que a evolução não deixa o passado voltar.

– Eu não acredito que a história se repita do mesmo jeito. Mas temos que estar atentos.

Levantar a cada tombo: aprendeu bem pequenino.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

Assine História do Dia por R$ 13 ao mês ou faça uma doação de qualquer valor AQUI.

Nos ajude a continuar contando histórias!

 

Deixe um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar

Kelly Cristina da Silva ecodesing Ribeirão PretoRosa Cosenza escritora de Ribeirão Preto no História do Dia